O ouro recuou ligeiramente na sessão desta quarta-feira, 26 de Agosto, com os investidores a realizarem parte dos ganhos acumulados e a aguardarem novos indicadores capazes de clarificar a trajectória da política monetária nos Estados Unidos da América.
Segundo a Reuters, o ouro à vista desvalorizou 0,3%, para US$ 4.642,74 por onça, pelas 04h10 GMT, depois de ter alcançado, na sessão anterior, o valor mais elevado desde meados de Maio. Em sentido contrário, os futuros norte-americanos do metal avançaram 0,1%, para US$ 4.700,70 por onça.
O movimento ocorre depois de uma valorização acentuada na semana anterior, associada ao anúncio de uma operação de recompra de obrigações pelo Tesouro norte-americano. A medida ajudou a reduzir as taxas de rendibilidade de alguns títulos e renovou as preocupações dos investidores quanto à trajectória da dívida e à sustentabilidade das finanças públicas da maior economia mundial.
Inflação Determina O Próximo Movimento
A principal referência da sessão será a divulgação do índice de preços das despesas de consumo pessoal — Personal Consumption Expenditures, ou PCE — relativo a Julho. Este é o indicador de inflação preferencial da Reserva Federal norte-americana para avaliar a evolução dos preços e orientar as suas decisões sobre as taxas de juro.
O resultado poderá alterar as expectativas do mercado para a reunião de Setembro da Reserva Federal. Dados do CME FedWatch indicavam uma probabilidade de 61,6% de o banco central manter inalteradas as taxas de juro no próximo encontro.
Uma leitura do PCE inferior às previsões fortaleceria a percepção de que as pressões inflacionistas estão a perder intensidade. Esse cenário poderia abrir espaço para uma orientação monetária menos restritiva e para uma descida das taxas de juro reais, criando condições mais favoráveis ao ouro.
O metal precioso não paga juros ou dividendos. Por essa razão, tende a beneficiar quando as taxas de rendibilidade dos activos financeiros diminuem, uma vez que se reduz o custo de oportunidade associado à sua detenção. Em sentido inverso, juros elevados tornam obrigações e outros instrumentos remunerados relativamente mais atractivos.
Jackson Hole Poderá Redefinir Expectativas
Os investidores acompanham igualmente o discurso que o presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, deverá proferir na sexta-feira durante o simpósio anual de política económica de Jackson Hole, no Estado norte-americano do Wyoming.
A intervenção será examinada à procura de indicações sobre a leitura da Reserva Federal relativamente à inflação, ao emprego e à orientação futura dos juros. O encontro ganha particular importância depois de os dados mais recentes terem mostrado uma redução inesperada do emprego não agrícola nos EUA, ao mesmo tempo que a inflação ao consumidor se manteve alinhada com as previsões.
Wael Makarem, responsável pela estratégia dos mercados financeiros da Exness, citado pela Reuters, considera que a combinação mais favorável ao ouro seria uma inflação inferior ao esperado e uma mensagem equilibrada ou acomodatícia por parte de Warsh.
Essa conjugação poderia consolidar as expectativas de taxas de juro reais mais baixas, ampliando a procura pelo metal. Uma mensagem mais firme no combate à inflação, pelo contrário, tenderia a sustentar os rendimentos das obrigações e a limitar uma nova valorização do ouro.
Risco Fiscal Mantém Procura Estrutural
Para além da política monetária, o mercado continua atento à situação fiscal norte-americana. O agravamento das preocupações em torno da dívida pública, dos défices orçamentais e das necessidades de financiamento do Tesouro tem aumentado o interesse por activos considerados reservas de valor.
As recompras de obrigações anunciadas pelo Tesouro contribuíram para melhorar a liquidez de determinados segmentos do mercado, mas também alimentaram interpretações sobre a crescente complexidade da gestão da dívida pública.
Neste quadro, o ouro beneficia de dois canais distintos. O primeiro resulta da eventual descida dos rendimentos das obrigações. O segundo decorre da procura de diversificação perante dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal e a estabilidade de longo prazo dos activos denominados em dólares.
O comportamento recente mostra, porém, que esta procura não elimina as correcções de curto prazo. Depois de uma valorização rápida, os investidores tendem a realizar ganhos enquanto aguardam indicadores que validem, ou contrariem, as expectativas já incorporadas nos preços.
Negociações Sobre Ormuz Reduzem Prémio Geopolítico
A evolução das tensões no Médio Oriente também influencia o mercado. O Irão anunciou a retoma das conversações com Omã destinadas a gerir a circulação no Estreito de Ormuz, uma passagem essencial para o comércio internacional de petróleo e gás.
A notícia contribuiu para a descida dos preços do petróleo e para uma moderação imediata da procura por activos de protecção. Uma redução dos riscos sobre o fornecimento energético também poderá aliviar as expectativas de inflação, embora o seu efeito sobre o ouro seja ambivalente.
Por um lado, a menor tensão geopolítica reduz a procura pelo metal enquanto activo de refúgio. Por outro, preços energéticos mais baixos podem favorecer uma inflação mais moderada e aumentar a possibilidade de uma política monetária menos restritiva, o que tende a beneficiar o ouro.
A directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, afirmou que a economia mundial resistiu melhor do que se receava ao choque energético provocado pela guerra com o Irão. Alertou, contudo, para a deterioração das condições fiscais em algumas economias, um factor que permanece relevante para os mercados de dívida e de metais preciosos.
Ouro Mantém-Se Próximo De Resistência Técnica
Apesar da correcção registada nesta quarta-feira, o ouro permanece próximo de níveis técnicos importantes. Wang Tao, analista técnico da Reuters, estima que o metal poderá voltar a testar a resistência situada em US$ 4.681 por onça.
Uma ruptura consistente acima desse patamar poderá abrir espaço para uma valorização em direcção ao intervalo entre US$ 4.707 e US$ 4.743. A concretização desse movimento deverá depender da combinação entre os dados de inflação, a orientação transmitida pela Reserva Federal e a evolução das taxas de rendibilidade das obrigações norte-americanas.
Nos restantes metais preciosos, a tendência foi positiva. A prata valorizou 0,9%, para US$ 69,26 por onça, a platina avançou 0,4%, para US$ 1.865,09, e o paládio ganhou 1,3%, para US$ 1.343,75.
A divergência entre o ouro e os restantes metais sugere que a queda da sessão esteve associada sobretudo à realização de ganhos depois da recente subida, e não a uma retirada generalizada dos investidores do complexo de metais preciosos.
Fonte: O Económico





