Os preços internacionais do petróleo caíram cerca de 2% nesta quarta-feira, 26 de Agosto, prolongando as perdas da sessão anterior, perante a expectativa de que as negociações entre o Irão e Omã possam permitir uma retoma gradual da navegação através do Estreito de Ormuz.
Segundo a Reuters, os futuros do Brent recuaram US$ 1,78, ou 2%, para US$ 86,80 por barril, pelas 00h27 GMT. O West Texas Intermediate, referência norte-americana, caiu US$ 1,49, equivalente a 1,8%, para US$ 80,87 por barril.
As duas referências já tinham desvalorizado mais de 3% na terça-feira. Em apenas duas sessões, o Brent acumulou uma queda superior a 5%, reflectindo a rapidez com que os mercados ajustam o prémio de risco geopolítico incorporado nos preços.
A descida não significa que os riscos de fornecimento tenham desaparecido. Traduz, sobretudo, uma mudança momentânea nas expectativas: os operadores passaram a atribuir maior probabilidade à criação de uma rota segura para parte dos navios que aguardam a normalização da passagem.
Corredor Temporário Altera Expectativas De Oferta
O Irão anunciou ter retomado as conversações com Omã sobre a gestão do Estreito de Ormuz, depois de várias semanas de contactos intermitentes. Os dois países discutiram a criação de um “corredor temporário conjunto de navegação” e concordaram em trabalhar na remoção de minas da passagem marítima.
Antes do início da guerra, em Fevereiro, o estreito movimentava cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados mundialmente.
Dados da Administração de Informação Energética dos EUA indicam que, em 2024 e no primeiro trimestre de 2025, os fluxos através de Ormuz representaram mais de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo e aproximadamente 20% do consumo global de petróleo e produtos petrolíferos. Cerca de um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito também utilizou esta rota.
Esta concentração torna a passagem particularmente sensível para a formação dos preços. Mesmo sem uma interrupção física total, riscos sobre navios, seguros, tripulações e prazos de entrega aumentam o custo do transporte e elevam o prémio exigido pelos operadores.
A eventual abertura de um corredor temporário pode permitir a circulação de mais embarcações e reduzir parte destes custos. O efeito dependerá, porém, da dimensão do corredor, das garantias de segurança e da confiança das companhias de navegação e seguradoras.
Mercado Ainda Não Assume Normalização Completa
Mitsuru Muraishi, analista da Fujitomi Securities citado pela Reuters, explicou que as expectativas de progresso nas negociações entre Irão e Omã desencadearam vendas no mercado petrolífero.
A incerteza continua, porém, a estimular compras quando os preços caem para níveis considerados atractivos. Este comportamento pode manter o Brent e o WTI dentro de intervalos relativamente amplos enquanto não existir uma solução diplomática mais consistente.
A continuidade do risco ficou evidente depois de um petroleiro ter sido atingido, na terça-feira, por um projéctil não identificado, a cerca de 17 quilómetros de Ash Shishah, no Omã, junto à entrada do estreito.
O navio ficou incapacitado, segundo a entidade britânica United Kingdom Maritime Trade Operations. O incidente mostra que a criação de uma rota temporária não eliminará automaticamente os riscos operacionais.
A remoção de minas, o patrulhamento das águas, a definição de responsabilidades e a coordenação entre autoridades marítimas serão determinantes para que as companhias retomem as operações em maior escala.
Regresso De Diplomatas Sinaliza Menor Risco Imediato
Os Estados Unidos começaram igualmente a enviar funcionários de volta para algumas missões diplomáticas no Médio Oriente que tinham sido evacuadas ou reduzidas devido às tensões com o Irão.
Segundo fontes citadas pela Reuters, algumas embaixadas deverão operar inicialmente abaixo da sua capacidade normal. Ainda assim, o regresso dos funcionários foi interpretado pelos mercados como indicação de que Washington considera menos provável uma escalada militar no curto prazo.
A leitura dos investidores é de que a confrontação poderá estar a deslocar-se do plano militar para o económico e diplomático. Na segunda-feira, os EUA ampliaram as sanções destinadas a reduzir as fontes de receitas do Irão e ameaçaram penalizar países que continuem a negociar com Teerão.
As novas medidas não foram acompanhadas pela aplicação imediata de penalizações. O mercado entendeu esta abordagem como menos susceptível de interromper abruptamente a oferta petrolífera do que uma nova escalada militar.
A combinação entre pressão económica e negociações indirectas continua, todavia, sujeita a mudanças rápidas. Uma retaliação iraniana, um incidente marítimo de maior dimensão ou o fracasso das conversações poderia repor parte do prémio geopolítico agora retirado dos preços.
Reservas Norte-Americanas Aumentam Pressão Sobre O Crude
Do lado da oferta, o mercado também reagiu ao aumento superior ao esperado das reservas de petróleo nos Estados Unidos.
O American Petroleum Institute terá registado um acréscimo de aproximadamente 4,2 milhões de barris na semana terminada a 21 de Agosto, de acordo com fontes do mercado citadas pela Reuters. Os analistas antecipavam, em média, um aumento de apenas 600 mil barris.
Um crescimento das reservas pode indicar que a oferta superou o consumo das refinarias e a procura do mercado durante o período analisado. Quando ocorre simultaneamente com expectativas de melhoria dos fluxos internacionais, tende a aumentar a pressão descendente sobre os preços.
Os investidores aguardavam os dados oficiais da Administração de Informação Energética dos EUA para confirmar a dimensão da acumulação.
A trajectória das reservas norte-americanas será particularmente importante porque o mercado continua dividido entre dois factores: as restrições físicas ao transporte no Médio Oriente e os sinais de disponibilidade de petróleo noutras regiões produtoras.
Alívio Potencial Para Inflação E Países Importadores
A redução do preço do petróleo poderá contribuir para aliviar as pressões inflacionistas na economia mundial, sobretudo se for acompanhada pela normalização dos custos de transporte marítimo e dos seguros.
A directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, afirmou que a economia global absorveu melhor do que se receava o choque energético provocado pela guerra com o Irão. Esta capacidade resultou do recurso a reservas, da diversificação das fontes de energia, do crescimento das renováveis e da utilização temporária de carvão em alguns mercados.
Georgieva advertiu, contudo, que o choque energético ainda não terminou e que uma nova subida do petróleo poderia reacender a inflação, num momento em que vários bancos centrais permanecem cautelosos quanto à redução das taxas de juro.
Para economias importadoras de combustíveis, como Moçambique, uma descida sustentada das cotações internacionais pode reduzir o valor das importações petrolíferas, aliviar a procura de divisas e moderar os custos associados ao transporte, à agricultura e à actividade industrial.
O efeito interno não é necessariamente imediato. Depende do preço médio de aquisição dos combustíveis, dos custos logísticos, das taxas de câmbio, da estrutura fiscal e do mecanismo utilizado para actualizar os preços ao consumidor.
Ainda assim, uma estabilização do Brent abaixo dos máximos recentes seria economicamente favorável, sobretudo pela redução da incerteza sobre a factura energética e os custos de produção.
Volatilidade Continuará A Marcar O Mercado
A queda acumulada nas duas últimas sessões mostra que o mercado está disposto a retirar rapidamente parte do prémio de risco quando surgem sinais de progresso diplomático. Mostra também que os preços permanecem altamente dependentes de notícias políticas e militares.
A criação de um corredor temporário representaria um avanço operacional, mas não equivaleria à normalização integral da navegação. Para que a redução dos preços se torne mais consistente, os investidores precisarão de sinais de segurança efectiva, aumento verificável do tráfego marítimo e menor probabilidade de novos confrontos.
Até que essas condições estejam estabelecidas, o petróleo deverá continuar a oscilar entre as expectativas de recuperação da oferta e o risco de uma nova interrupção numa das rotas energéticas mais importantes do mundo.
Fonte: O Económico




