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Commodities Agrícolas Entram Numa Nova Fase de Risco Após Meses de Oferta Confortável

Os mercados internacionais de commodities agrícolas chegam ao segundo semestre de 2026 numa posição aparentemente contraditória.

De um lado, não existe actualmente uma crise generalizada de oferta comparável à observada após a invasão da Ucrânia em 2022. As colheitas de 2025 foram excepcionais, os inventários de vários produtos permanecem confortáveis e a produção mundial de cereais de 2026 deverá ser a segunda maior de sempre.

Do outro, o conjunto de factores que determina a próxima safra está a deteriorar-se.

Energia cara, fertilizantes mais dispendiosos, um El Niño em rápida intensificação, perturbações no Mar Negro e incerteza sobre o Estreito de Hormuz começam a alterar decisões de plantio, margens dos agricultores e expectativas sobre a produção de 2026/27.

É essa diferença entre a oferta disponível hoje e o custo e risco da produção de amanhã que melhor caracteriza a actual conjuntura das commodities agrícolas.

A Estabilidade do Índice Esconde Mercados Muito Diferentes

A leitura agregada ainda sugere relativa estabilidade.

O Índice de Preços dos Alimentos da FAO atingiu 130,3 pontos em Junho, 0,3% abaixo de Maio. Os cereais recuaram 3,5% no mês, o açúcar caiu 5,7% e os produtos lácteos 1,5%, compensando aumentos dos óleos vegetais e da carne.

Mas o índice agregado esconde uma crescente divergência.

O Pink Sheet do Banco Mundial mostra que o índice das commodities agrícolas passou de uma média de 111 pontos no primeiro trimestre para 114,4 no segundo, enquanto o índice dos alimentos avançou de 113,7 para 118,9.

Mais expressivo foi o comportamento dos factores directamente associados à produção: o índice dos fertilizantes subiu de 154,7 para 188,2 pontos, um aumento próximo de 22% entre os dois trimestres.

Há, portanto, uma diferença importante entre preço actual do alimento e custo marginal para produzir a próxima tonelada.

É neste segundo indicador que começa a surgir a maior fonte de preocupação.

Stocks Elevados Continuam a Ser o Principal Amortecedor

O mundo entra nesta fase de maior incerteza com uma vantagem que não possuía em vários episódios anteriores: inventários relativamente elevados.

A FAO estima a produção mundial de cereais de 2026 em 2,983 mil milhões de toneladas, apenas 1,9% abaixo do máximo histórico registado em 2025 e ainda a segunda maior colheita de sempre.

Os stocks mundiais deverão atingir aproximadamente 957,8 milhões de toneladas no encerramento das campanhas de 2027, mantendo o rácio entre stocks e utilização em cerca de 32%.

É uma almofada relevante.

O trigo deverá ser uma das culturas a registar maior redução de produção, com a FAO a projectar uma queda de 4,3%, para 806,5 milhões de toneladas, enquanto a produção mundial de arroz deverá diminuir cerca de 1,8% relativamente ao recorde anterior.

Por enquanto, os inventários permitem ao mercado absorver parte desses recuos.

A própria Reuters observou em Junho que reservas elevadas de trigo, arroz, milho e soja poderiam atenuar os primeiros efeitos do El Niño.

É precisamente por isso que a actual conjuntura deve ser interpretada como aumento de risco, e não como escassez global já instalada.

Fertilizantes Podem Ser Mais Decisivos do Que os Actuais Preços dos Cereais

O principal elemento diferenciador poderá estar nos factores de produção.

Segundo o Banco Mundial, o preço médio do DAP passou de 634,7 dólares por tonelada no primeiro trimestre para 759,5 dólares no segundo. O TSP avançou de 541,2 para 702,4 dólares.

A ureia apresentou movimentos ainda mais violentos durante o período, reflectindo a forte exposição da sua produção ao gás natural e às perturbações energéticas.

Esta relação é particularmente importante porque agricultura e energia não são mercados independentes.

O petróleo entra na lavoura através do diesel utilizado pelas máquinas, irrigação, transporte, processamento e distribuição. O gás natural constitui matéria-prima fundamental para fertilizantes nitrogenados.

Máximo Torero, economista-chefe da FAO, explicou à Reuters que a crise de Hormuz afecta praticamente todos os factores de produção do sistema agrícola mundial precisamente através desses canais.

Assim, mesmo que trigo, milho ou arroz permaneçam relativamente abundantes hoje, o encarecimento dos inputs pode reduzir a quantidade produzida amanhã.

A FAO observa já alterações nas decisões dos agricultores. Nos Estados Unidos, alguns produtores estão a deslocar área de milho e trigo para soja, uma cultura menos intensiva em fertilizantes.

Esta resposta económica é racional ao nível da exploração agrícola, mas pode alterar a composição futura da oferta mundial.

El Niño Passa de Risco Meteorológico a Variável de Mercado

O clima constitui a segunda grande componente da equação.

A Organização Meteorológica Mundial estima probabilidades próximas ou superiores a 90% de persistência do El Niño pelo menos até Novembro, prevendo uma rápida intensificação do fenómeno. As projecções actualizadas apontam para condições fortes durante o segundo semestre.

Para os mercados agrícolas, a importância do El Niño resulta menos de uma relação mecânica entre o fenómeno e os preços e mais da sua capacidade de afectar simultaneamente diferentes regiões produtoras.

Na Ásia pode alterar monções e afectar arroz, açúcar, café e óleo de palma. Na Austrália representa risco para trigo. Na América Latina pode interferir com café, soja, milho e açúcar. Em África Austral, está historicamente associado a maior probabilidade de períodos secos.

A Reuters refere que a Austrália já antecipa uma queda de 21% na produção de culturas de Inverno, num contexto de custos elevados e incerteza climática, enquanto atrasos na monção indiana aumentam a preocupação relativamente ao arroz.

O Programa Alimentar Mundial e a FAO lançaram inclusivamente uma iniciativa antecipatória para proteger quase nove milhões de pessoas em 22 países dos possíveis efeitos de um El Niño forte.

Para os mercados, isto significa que o clima começa novamente a ser incorporado nos preços futuros antes de a perda efectiva de produção estar totalmente conhecida.

Trigo Tem Stocks, Mas Também Três Fontes de Incerteza

O trigo sintetiza bem a actual conjuntura.

A produção mundial deverá diminuir, os Estados Unidos enfrentam menor oferta e a Austrália está exposta ao El Niño. O USDA prevê que os stocks finais norte-americanos de trigo caiam 21% para o nível mais baixo em três anos, enquanto a produção norte-americana deverá diminuir 23%.

Paralelamente, Rússia e Ucrânia continuam determinantes na formação dos preços mundiais.

No final de Julho, novas operações militares atingiram infra-estruturas e rotas de exportação no Mar Negro e no Mar de Azov. Ainda assim, a Reuters assinalava que as grandes disponibilidades globais continuavam a limitar a valorização dos futuros.

É uma espécie de equilíbrio entre fundamentos confortáveis e geopolítica adversa.

O Banco Mundial registou o trigo HRW em 286 dólares por tonelada em Junho, contra uma média de 243,3 dólares em 2025 — cerca de 18% acima — embora abaixo dos 303 dólares registados em Maio.

Por enquanto, a oferta vence o risco. Mas a margem de segurança está a diminuir.

Arroz Torna-se Particularmente Sensível à Ásia

No arroz, a variável decisiva será sobretudo a Ásia.

O preço de referência do arroz tailandês com 5% de quebrados passou de uma média de 407,8 dólares por tonelada em 2025 para 494 dólares em Junho de 2026, segundo o Banco Mundial. O arroz vietnamita situou-se em 391,3 dólares.

A FAO continua a considerar os stocks globais elevados, mas prevê redução da produção e dos inventários em 2026/27.

A questão torna-se mais sensível porque o arroz tem um histórico recente de forte reacção a decisões governamentais.

Quando grandes produtores receiam falta de oferta interna, restrições ou proibições de exportação podem amplificar rapidamente choques relativamente pequenos na produção.

A Índia oferece neste momento um exemplo paralelo no açúcar. Perante preços domésticos recorde e stocks reduzidos, Nova Deli proibiu exportações e adoptou limites às existências comerciais.

O risco para o arroz consiste precisamente em que condições climáticas adversas transformem um problema agrícola numa resposta comercial que amplifique a volatilidade internacional.

Óleos Vegetais Aproximam Agricultura e Energia

Os óleos vegetais apresentam uma das dinâmicas mais fortes entre as commodities agrícolas.

O índice da FAO aumentou 3,8% em Junho, sustentado sobretudo pelo óleo de palma e de colza e pelo crescimento da procura relacionada com biocombustíveis.

Os números do Banco Mundial são ainda mais expressivos.

O óleo de soja atingiu 1.765 dólares por tonelada em Junho, aproximadamente 55% acima da média de 2025. O óleo de palma situou-se em 1.105 dólares, quase 10% acima da média do ano passado.

Esta evolução mostra que os mercados alimentares estão cada vez mais ligados à política energética.

Quando mandatos de biodiesel aumentam, a procura por óleos vegetais deixa de depender exclusivamente do consumo alimentar.

A Archer-Daniels-Midland elevou esta semana a sua previsão de resultados para 2026, citando precisamente melhores margens na transformação de soja e políticas favoráveis aos biocombustíveis nos Estados Unidos.

É uma concorrência económica pelo mesmo produto: alimento, matéria-prima industrial ou energia.

Café e Cacau Mostram a Volatilidade da Agricultura Tropical

Se os cereais continuam relativamente protegidos pelos stocks, as commodities tropicais apresentam maior sensibilidade à oferta.

O cacau oferece um exemplo interessante.

Depois de preços extraordinariamente elevados em 2024 e 2025, a cotação de referência do Banco Mundial caiu para 4,40 dólares por quilograma em Junho, contra uma média de 7,80 dólares em 2025. Ainda assim, permanecia claramente acima dos 3,28 dólares registados em média em 2023.

A descida não significa que os problemas estruturais tenham desaparecido.

O regulador do sector no Gana prevê uma redução de pelo menos 16% na produção de 2026/27, enquanto a produção da Costa do Marfim, maior produtor mundial, poderá cair mais de 10%, segundo informações recolhidas pela Reuters.

Nos mercados futuros, o receio do El Niño voltou entretanto a elevar as cotações do cacau e do café. O Financial Times reporta uma valorização próxima de 30% do café Arabica e máximos de vários meses no cacau à medida que os investidores antecipam possíveis danos nas próximas colheitas.

Esta oscilação ilustra uma característica essencial das commodities agrícolas: preços baixos podem rapidamente reduzir investimento e oferta, preparando a recuperação seguinte.

A China Continua a Ser Uma Variável Central Para a Soja

A soja apresenta uma configuração diferente.

A oferta permanece relativamente confortável. O USDA prevê uma produção recorde nos Estados Unidos em 2026/27, apoiada por um aumento de 5% da área cultivada.

A procura chinesa, contudo, continua capaz de alterar rapidamente o mercado.

No início de Agosto, empresas estatais chinesas realizaram uma nova vaga de compras de soja norte-americana, envolvendo aproximadamente um milhão de toneladas segundo fontes citadas pela Reuters, depois de os preços terem recuado.

Isto demonstra que, nas commodities agrícolas, oferta e clima são apenas parte da equação.

Relações comerciais entre Estados Unidos e China, taxas aduaneiras, política de biocombustíveis e níveis de reservas chinesas podem ser tão determinantes para a soja quanto as próprias colheitas.

Moçambique Enfrenta Um Duplo Canal de Transmissão

Para Moçambique, esta conjuntura não constitui apenas uma questão de mercados internacionais.

Existem dois canais de transmissão.

O primeiro é externo.

Dados comerciais do Banco Mundial mostram que, em 2023 — último ano disponível naquela base — Moçambique importou cerca de 348 milhões de dólares de arroz, 255 milhões de trigo e 249 milhões de óleo de palma bruto. Os três produtos figuravam entre as cinco principais importações individuais do País.

Esta estrutura demonstra a exposição da economia aos preços internacionais, custos de transporte, disponibilidade de divisas e condições comerciais nos países fornecedores.

Quando arroz, trigo ou óleos vegetais aumentam internacionalmente, a transmissão não precisa ser imediata, mas acaba por chegar através do custo de importação e da cadeia de distribuição.

O segundo canal é doméstico.

A agricultura moçambicana permanece fortemente dependente da precipitação. As cheias do início de 2026 destruíram culturas de milho, arroz e cana-de-açúcar em algumas das zonas mais afectadas de Gaza, Sofala e Maputo.

Agora, a FAO alerta que condições secas associadas ao El Niño a partir do final de 2026 representam um risco para a produção agrícola e para a segurança alimentar em 2027. Cerca de 529 mil pessoas são já projectadas em situação de insegurança alimentar aguda entre Abril e Setembro deste ano.

Ou seja, Moçambique pode simultaneamente enfrentar preços internacionais mais elevados e menor produção doméstica.

Inflação Torna o Momento Mais Sensível

Essa combinação surge numa altura em que a inflação já acelerou.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a inflação homóloga nacional atingiu 7,51% em Junho de 2026, enquanto a inflação acumulada desde o início do ano chegou a 5,40%.

A FAO estima que a transmissão de aumentos das commodities agrícolas para os preços finais dos alimentos ocorre normalmente com uma defasagem aproximada de três a seis meses.

Isso significa que a variável relevante para Moçambique não é apenas aquilo que o consumidor paga hoje.

É aquilo que acontece neste momento com petróleo, fertilizantes, fretes, arroz, trigo e óleos vegetais e que poderá chegar progressivamente às cadeias domésticas no final do ano.

A Conjuntura Também Cria Oportunidades Para a Agricultura Nacional

A leitura, porém, não deve limitar-se aos riscos.

Preços internacionais mais elevados podem criar incentivos à produção doméstica, substituir importações e melhorar receitas dos produtores de culturas comercializáveis, desde que o aumento dos custos de fertilizantes, combustível e financiamento não absorva esses ganhos.

No caso do algodão, por exemplo, a referência do Banco Mundial estava em 1,90 dólares por quilograma em Junho, cerca de 11% acima da média de 2025, embora abaixo do nível de Maio.

Para países agrícolas, volatilidade internacional não significa apenas inflação importada. Pode representar uma janela para investimento em produção, armazenagem, irrigação, agro-processamento e cadeias logísticas.

É aqui que a conjuntura internacional se transforma numa questão de política económica.

Quanto maior for a capacidade de Moçambique produzir arroz, milho, oleaginosas e outras culturas competitivamente, menor será a exposição da economia às oscilações externas e maior poderá ser a transformação dos preços internacionais em rendimento rural.

O Mundo Ainda Tem Alimentos; O Problema Está na Próxima Colheita

A principal conclusão da actual conjuntura é, portanto, menos alarmista e simultaneamente mais exigente.

O mundo não enfrenta actualmente falta generalizada de cereais.

A produção permanece elevada e os stocks funcionam como importante amortecedor. A perspectiva de médio prazo da OCDE e da FAO continua, inclusivamente, a apontar para preços agrícolas reais globalmente estáveis ou inferiores aos níveis actuais ao longo da próxima década.

Mas a estabilidade de longo prazo não elimina a volatilidade de curto prazo.

A actual combinação de El Niño, fertilizantes caros, energia, Mar Negro, Hormuz e políticas comerciais está a aumentar simultaneamente o custo e a incerteza da produção agrícola.

É por isso que a FAO considera provável uma nova aceleração dos preços dos alimentos no final deste ano e em 2027.

A diferença relativamente a 2022 é importante: desta vez, o sistema começa com stocks mais confortáveis.

A semelhança também merece atenção: novamente, energia, geopolítica, agricultura e comércio começam a produzir choques que se reforçam mutuamente.

Para Moçambique, acompanhar as commodities agrícolas deixa, por isso, de ser apenas observar aquilo que acontece nas bolsas internacionais. É antecipar o que poderá acontecer à inflação, à factura de importação, à segurança alimentar e, igualmente, às oportunidades de investimento numa agricultura nacional que precisa de produzir mais precisamente quando o mercado internacional se torna menos previsível.

Fonte: O Económico

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