InícioEconomiaDéfice Externo Agrava-Se Apesar do Gás e Expõe Fragilidades Estruturais da Economia

Défice Externo Agrava-Se Apesar do Gás e Expõe Fragilidades Estruturais da Economia

Resumo

O agravamento das contas externas de Moçambique em 2025, de acordo com o Boletim Anual da Balança de Pagamentos do Banco de Moçambique, revela um aumento do défice da Conta Corrente para USD 3,18 mil milhões, equivalente a 13,2% do PIB, devido à pressão das importações e serviços especializados associados aos investimentos no gás natural e indústria extractiva. As exportações diminuíram para USD 7,79 mil milhões, com uma queda de 7,1% nos Grandes Projetos, evidenciando a vulnerabilidade da economia moçambicana a oscilações e ciclos de investimento. Por outro lado, as importações aumentaram para USD 8,59 mil milhões, impulsionadas pelo setor energético, refletindo um padrão recorrente de pressão importadora em fases iniciais de investimento extractivo.

O agravamento das contas externas de Moçambique em 2025 confirma que o relançamento dos grandes investimentos ligados ao gás natural e à indústria extractiva continua a produzir efeitos ambivalentes sobre a economia nacional. Se, por um lado, o sector energético reforça a capacidade de atracção de capitais e dinamiza fluxos financeiros externos, por outro lado aprofunda igualmente a pressão sobre as importações, os serviços especializados e a própria estrutura do défice externo.

Dados do Boletim Anual da Balança de Pagamentos 2025, publicado pelo Banco de Moçambique, mostram que o défice da Conta Corrente agravou-se em 27,6%, passando de USD 2,49 mil milhões em 2024 para USD 3,18 mil milhões em 2025, o equivalente a 13,2% do Produto Interno Bruto (PIB).

Segundo o Banco Central, o agravamento foi influenciado sobretudo pela deterioração da conta de bens e da conta de serviços, num contexto em que os investimentos associados aos grandes projectos intensificaram a procura externa por equipamentos, assistência técnica especializada e serviços de investigação e prospecção.

Exportações Perdem Dinamismo Num Ano de Reconfiguração dos Grandes Projectos

O relatório mostra que as exportações de bens recuaram de USD 8,21 mil milhões em 2024 para USD 7,79 mil milhões em 2025.

De acordo com o Banco de Moçambique, a redução esteve particularmente associada ao desempenho dos Grandes Projectos, cujas exportações diminuíram 7,1%.

A evolução é relevante porque evidencia que, apesar da crescente centralidade do gás natural liquefeito e da indústria extractiva no discurso económico nacional, a trajectória exportadora do País continua vulnerável às oscilações operacionais, aos ciclos de investimento e às dinâmicas internacionais das commodities.

Na prática, o comportamento das exportações em 2025 sugere que Moçambique ainda enfrenta dificuldades para transformar os megaprojectos numa base sólida e amplamente diversificada de geração de receitas externas.

A própria composição da pauta exportadora continua altamente concentrada em poucos produtos e sectores, sobretudo alumínio, gás natural, areias pesadas e carvão mineral, reduzindo a capacidade de amortecimento perante choques externos ou variações nos mercados internacionais.

Importações Crescem Com Nova Intensidade do Sector Energético

Enquanto as exportações perderam dinamismo, as importações aumentaram para USD 8,59 mil milhões, contra USD 8,37 mil milhões registados em 2024.

O Banco de Moçambique refere explicitamente que os Grandes Projectos aumentaram as importações em 16,4%, numa trajectória associada ao reforço dos investimentos ligados ao petróleo e gás.

O fenómeno reflecte um padrão recorrente na economia moçambicana: os grandes ciclos de investimento extractivo tendem inicialmente a produzir forte pressão importadora, devido à necessidade de aquisição de maquinaria, equipamentos industriais, tecnologia, serviços especializados e infra-estruturas associadas.

Embora esse movimento possa representar expansão da actividade económica e preparação de futura capacidade produtiva, ele amplia simultaneamente as necessidades líquidas de financiamento externo, sobretudo num contexto em que a incorporação de conteúdo local ainda permanece limitada em vários segmentos estratégicos da cadeia de valor.

Conta de Serviços Reflecte Dependência Técnica Externa

Outro aspecto particularmente relevante do relatório é o agravamento da conta de serviços.

Segundo o Banco Central, o saldo negativo da conta de serviços deteriorou-se em 27,1%, impulsionado sobretudo pelo aumento das despesas com assistência técnica e investigação associadas à indústria extractiva.

O relatório refere que os custos líquidos relacionados com assistência técnica agravaram-se em 26,3%, “em linha com a entrada de capitais para fazer face aos investimentos da indústria extractiva, com destaque para o sector de petróleo e gás”.

Já as despesas relacionadas com investigação e desenvolvimento aumentaram 96,9%, associadas às actividades de pesquisa e prospecção.

Esta realidade evidencia que, apesar do crescente volume de investimentos, Moçambique continua fortemente dependente de conhecimento técnico, serviços especializados e capacidades externas para sustentar os grandes empreendimentos extractivos.

Economicamente, isso significa que uma parcela significativa dos fluxos financeiros associados aos megaprojectos continua a ser canalizada para o exterior através de pagamentos de serviços, consultoria técnica, engenharia especializada e investigação.

LNG Continua No Centro Da Reconfiguração Externa

O Banco de Moçambique observa igualmente que os últimos anos foram marcados por necessidades elevadas de financiamento externo, associadas à trajectória dos grandes projectos energéticos.

O relatório recorda que o agravamento extraordinário do défice em 2022 esteve ligado à chegada da plataforma Coral Sul FLNG, que impulsionou substancialmente as importações.

Ainda que 2025 apresente uma trajectória distinta, o documento demonstra que o sector do gás natural continua a moldar decisivamente a estrutura da balança externa moçambicana, influenciando exportações, importações, serviços, fluxos financeiros e necessidades de financiamento.

O desafio estrutural permanece o mesmo: transformar o actual ciclo extractivo numa plataforma efectiva de industrialização, diversificação produtiva e fortalecimento sustentável da capacidade exportadora nacional.

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p style="margin-top: 0in;text-align: justify;background-image: initial;background-position: initial;background-size: initial;background-repeat: initial;background-attachment: initial">Fonte: Banco de Moçambique — Boletim Anual da Balança de Pagamentos 2025.

Fonte: O Económico

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