Resumo
O dólar norte-americano atingiu o nível mais alto em 13 meses em relação a outras moedas, devido à fuga de investidores das ações tecnológicas, expectativas de subida de juros nos EUA e tensões entre Washington e Teerão. A valorização do dólar foi impulsionada pela procura de ativos seguros e pela possibilidade de aperto da política monetária pela Reserva Federal. A perspetiva de subida das taxas de juro torna os ativos em dólar mais atrativos. O yen japonês foi uma das moedas mais pressionadas, negociando em baixa face ao dólar. A Reserva Federal dos EUA e a resiliência da economia norte-americana levaram os investidores a rever em alta a probabilidade de subidas das taxas de juro.
O dólar norte-americano prolongou a trajectória de valorização e atingiu esta quarta-feira o nível mais alto em 13 meses face a um cabaz das principais moedas, num contexto marcado pela fuga dos investidores das acções tecnológicas, pelo reforço das apostas numa subida dos juros nos Estados Unidos e por renovadas tensões em torno da viabilidade do entendimento entre Washington e Teerão.
O índice do dólar, que mede o desempenho da moeda norte-americana face a divisas como o euro e o yen, avançou até 101,44 pontos, o nível mais elevado desde 13 de Maio de 2025. Segundo a Reuters, a combinação entre procura por activos de refúgio e a crescente convicção de que a Reserva Federal poderá voltar a apertar a política monetária está a reforçar a posição do dólar nos mercados globais.
A valorização ocorreu num dia em que as bolsas internacionais foram pressionadas por uma venda alargada de acções tecnológicas e de semicondutores, depois de uma prolongada fase de ganhos no sector. A correcção levou investidores a reduzir exposição a activos de maior risco e a procurar instrumentos tradicionalmente considerados mais defensivos, incluindo o dólar e as obrigações do Tesouro norte-americano.
Mercado Reavalia Trajectória Da Reserva Federal
O principal factor por detrás da nova escalada do dólar está nas expectativas em torno da política monetária dos Estados Unidos. Declarações mais firmes de responsáveis da Reserva Federal, combinadas com sinais de resiliência da economia norte-americana, levaram os investidores a reverem em alta a probabilidade de novas subidas da taxa directora.
Dados do CME FedWatch, citados pela Reuters, indicavam que os mercados passaram a atribuir 37% de probabilidade a uma subida de 25 pontos base na reunião de Julho, contra 8,5% uma semana antes. Para Setembro, a probabilidade de uma subida já se situava em 70%, face a 29,1% no mesmo período de comparação.
Esta mudança é relevante porque taxas de juro mais elevadas tendem a aumentar a atractividade dos activos denominados em dólar, sobretudo quando comparados com moedas de economias onde o ciclo monetário permanece mais acomodatício ou onde os bancos centrais revelam menor margem para apertar as condições financeiras.
Ray Attrill, responsável pela estratégia cambial do National Australia Bank, observou à Reuters que o dólar continua a ser o principal activo de refúgio em períodos de turbulência. Ainda assim, advertiu que parte importante do cenário de valorização já poderá estar incorporada nos preços, tornando a moeda mais vulnerável caso se verifique uma recuperação mais ampla do apetite por risco.
Yen Mantém Pressão Apesar Dos Alertas De Tóquio
Entre as moedas mais pressionadas esteve o yen japonês, que negociava em torno de 161,57 por dólar, depois de ter tocado 161,93 no início da semana. Uma quebra sustentada acima de 161,96 colocaria a moeda japonesa no nível mais fraco desde 1986.
Os repetidos alertas verbais das autoridades japonesas tiveram impacto limitado sobre a tendência, numa altura em que o diferencial entre os juros dos Estados Unidos e do Japão continua a favorecer o dólar. A possibilidade de uma intervenção directa de Tóquio no mercado cambial permanece no radar dos investidores, mas as dúvidas sobre a determinação das autoridades têm permitido que a pressão sobre o yen persista.
A antiga responsável do Banco do Japão, Sayuri Shirai, citada pela Reuters, admitiu que o yen poderá aproximar-se de 165 por dólar caso a Reserva Federal avance com novas subidas de juros ainda este ano. Em paralelo, alguns membros do conselho do Banco do Japão defenderam uma aproximação gradual da taxa directora a níveis considerados neutros para a economia japonesa.
Euro, Libra E Moedas Sensíveis Ao Risco Também Recuam
O euro era negociado próximo de 1,1375 dólares, perto do nível mais baixo em cerca de um ano, reflectindo a força generalizada da moeda norte-americana. A libra esterlina cedia para 1,3199 dólares, depois de um responsável do Banco de Inglaterra defender a manutenção prolongada das taxas de juro como resposta às pressões inflacionistas.
As moedas mais expostas ao sentimento de risco também mostraram fragilidade. O dólar australiano mantinha-se estável em torno de 0,6918 dólares, enquanto o dólar neozelandês descia para 0,5665 dólares, o mínimo em sete meses.
O ambiente de cautela foi reforçado pelas dúvidas em torno do entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, sobretudo em matérias relacionadas com o programa nuclear e o controlo do Estreito de Ormuz. A persistência destas divergências aumenta a percepção de fragilidade do acordo e acrescenta uma dimensão geopolítica à procura por activos considerados mais seguros.
Repercussões Para Os Mercados Emergentes
A subida do dólar é acompanhada de perto pelos mercados emergentes, onde uma moeda norte-americana mais forte pode agravar os custos de serviço da dívida externa, encarecer importações cotadas em dólar e exercer pressão sobre as moedas locais.
A evolução do câmbio nas próximas semanas dependerá, sobretudo, de três variáveis: a confirmação ou não de novos aumentos dos juros pela Reserva Federal, a amplitude da correcção nas bolsas tecnológicas e a evolução das tensões geopolíticas no Médio Oriente.
Por agora, o dólar beneficia da convergência destes factores. Mas, como sublinha a leitura de mercado, a continuidade da tendência exigirá sinais adicionais de deterioração do apetite global por risco ou uma revisão ainda mais acentuada das expectativas de aperto monetário nos Estados Unidos.
Fonte: O Económico



