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Dólar Caminha Para A Melhor Semana Desde Maio Com Petróleo, Juros E Procura Por Refúgio A Reforçarem A Moeda

Questões – Chave

O dólar norte-americano encaminhava-se esta sexta-feira, 24 de Julho, para o melhor desempenho semanal desde Maio, sustentado pela procura de activos considerados seguros, pela subida das taxas das obrigações do Tesouro e pelo regresso dos receios de que o choque petrolífero obrigue os principais bancos centrais a manter uma política monetária mais restritiva.

A Bloomberg assinalou que os investidores estavam a regressar ao dólar como activo de refúgio perante o agravamento das tensões geopolíticas. O documento de mercado analisado pelo O.Económico mostra ainda que o movimento ganhou força depois de o Brent ultrapassar os US$100 por barril e de os dados laborais norte-americanos superarem amplamente as expectativas.

Segundo a Reuters, o dólar acumulava uma valorização semanal de aproximadamente 0,88%, enquanto o índice que mede o seu desempenho perante seis das principais moedas internacionais era negociado próximo de 101,35 pontos. Embora tenha recuado ligeiramente na sessão de sexta-feira, permanecia apoiado pelos movimentos observados ao longo da semana. 

A valorização não resulta apenas da aversão ao risco. Reflecte também a expectativa de que a economia norte-americana poderá suportar taxas de juro mais elevadas durante mais tempo do que as economias europeia e japonesa.

Petróleo Volta A Redefinir As Expectativas Monetárias

O principal factor de mudança nos mercados cambiais foi a forte recuperação do petróleo, depois de ataques contra petroleiros sauditas no Mar Vermelho terem ampliado o risco de interrupção do abastecimento energético para além do Estreito de Ormuz.

Na quinta-feira, o Brent subiu 7,59%, para US$101,21 por barril, enquanto o West Texas Intermediate avançou 6,81%, para US$92,75. A escalada levou os investidores a reconsiderarem a trajectória da inflação e das taxas de juro nas principais economias. 

O efeito sobre o dólar ocorre através de vários canais. Em primeiro lugar, a moeda norte-americana beneficia tradicionalmente da procura por liquidez e segurança em períodos de elevada incerteza. Em segundo, o petróleo é maioritariamente negociado em dólares, aumentando a procura da moeda quando os preços e os volumes financeiros associados ao comércio energético sobem.

Em terceiro lugar, os Estados Unidos são actualmente menos vulneráveis ao choque energético do que economias fortemente dependentes das importações, como o Japão e vários países europeus. A Reuters observa que esta diferença ajudou a reforçar o dólar perante o euro e, sobretudo, perante o Yen. 

O mercado voltou também a discutir o risco de estagflação — uma combinação entre crescimento económico fraco e inflação elevada. Um choque energético pode reduzir o consumo e a actividade industrial, ao mesmo tempo que aumenta os preços dos transportes, alimentos, produção e serviços.

Neste ambiente, os bancos centrais enfrentam um dilema. Reduzir as taxas pode apoiar o crescimento, mas também prolongar as pressões inflacionistas. Aumentá-las pode ajudar a conter os preços, mas eleva os custos de financiamento e enfraquece a procura.

Para o dólar, o segundo cenário tende a ser mais favorável, sobretudo quando as taxas norte-americanas permanecem acima das observadas noutras grandes economias.

Mercado Laboral Reforça A Posição Da Reserva Federal

A valorização da moeda norte-americana foi também apoiada por um dado laboral muito mais forte do que o previsto.

O Departamento do Trabalho dos Estados Unidos informou que os novos pedidos de subsídio de desemprego diminuíram em 22 mil, para 187 mil, na semana terminada a 18 de Julho. O mercado esperava aproximadamente 212 mil pedidos.

A média das últimas quatro semanas recuou para 207.500, enquanto o número de pessoas que continuavam a receber prestações de desemprego caiu para 1,796 milhão. 

A Reuters classificou os 187 mil pedidos como o nível mais baixo desde Setembro de 1969. Embora parte da redução possa estar associada a factores sazonais, incluindo alterações nos calendários de encerramento temporário das fábricas automóveis, o resultado mostra que as empresas norte-americanas continuam a evitar despedimentos em larga escala. 

O dado enfraqueceu a possibilidade de a Reserva Federal responder a uma eventual desaceleração económica com cortes imediatos das taxas.

Na sua última reunião, realizada em Junho, a Reserva Federal manteve a taxa dos fundos federais no intervalo entre 3,50% e 3,75%. O banco central reconheceu que a inflação continuava acima da meta de 2%, em parte devido aos choques de oferta e ao encarecimento da energia. 

Depois da divulgação dos dados laborais e da subida do petróleo, os contratos de futuros passaram a incorporar uma probabilidade de 35,8% de uma elevação de pelo menos 25 pontos base na reunião da próxima semana, contra 11,8% sete dias antes. Para Setembro, a probabilidade subiu para 81,4%, de acordo com dados do CME FedWatch citados pela Reuters na quinta-feira. 

Estas probabilidades podem mudar rapidamente, mas a direcção do movimento é relevante: os investidores deixaram de discutir apenas quando ocorreriam os próximos cortes e passaram a considerar novamente a possibilidade de subidas.

Rendimentos Do Tesouro Ampliam A Vantagem Do Dólar

O ajustamento das expectativas monetárias transmitiu-se ao mercado obrigacionista.

Na sexta-feira, a taxa das obrigações do Tesouro norte-americano a dois anos encontrava-se próxima de 4,34%, o nível mais elevado desde Fevereiro de 2025, enquanto o rendimento das obrigações a 30 anos permanecia acima de 5%. 

Quando as taxas das obrigações norte-americanas sobem, os activos denominados em dólares tornam-se relativamente mais atractivos para os investidores internacionais. Esse movimento pode aumentar a procura da moeda, especialmente quando as taxas de outras grandes economias permanecem mais baixas.

O mecanismo não é automático. Uma subida demasiado rápida dos juros pode provocar quedas nas bolsas, aumentar o risco de recessão ou reduzir a confiança nos activos norte-americanos. Porém, nesta fase, o mercado está a interpretar os rendimentos elevados sobretudo como resultado da resiliência económica e do risco de inflação.

O dólar está, assim, a beneficiar simultaneamente da sua função de activo seguro e da remuneração oferecida pelos títulos norte-americanos.

Euro Recupera Ligeiramente, Mas Continua Condicionado Pela Energia

O euro era negociado próximo de US$1,1388 na sexta-feira, recuperando cerca de 0,1% depois das perdas da sessão anterior. 

Na quinta-feira, o Banco Central Europeu manteve inalteradas as suas três taxas directoras. A presidente da instituição, Christine Lagarde, afirmou que a evolução dos preços energéticos permanecia altamente volátil e que o impacto inflacionista completo do choque ainda não se tinha materializado.

O BCE decidiu manter uma abordagem dependente dos dados e sem comprometer-se antecipadamente com uma trajectória específica para as taxas. Lagarde revelou ainda que alguns membros do Conselho do BCE chegaram a questionar se uma subida não deveria ter sido considerada já nesta reunião. 

A inflação da Zona Euro recuou de 3,2% em Maio para 2,8% em Junho, enquanto a inflação excluindo energia e alimentos diminuiu de 2,6% para 2,4%. Contudo, o BCE advertiu que a subida acumulada dos custos energéticos deverá manter a inflação acima da meta de 2% durante a primeira metade de 2027. 

Esta combinação explica a reacção limitada do euro. Uma eventual subida das taxas do BCE pode favorecer a moeda europeia, mas o encarecimento da energia representa simultaneamente um choque negativo para o crescimento e para as contas externas da região.

O documento de base mostra que o par EUR/USD tinha recuado para a zona de suporte entre US$1,1350 e US$1,1365, após a decisão do BCE. Uma quebra sustentada daquele intervalo abriria espaço, na leitura técnica apresentada, para níveis entre US$1,1270 e US$1,1285.

Yen Aproxima-Se De Um Limite Político E Económico

A moeda japonesa continua a ser o principal reflexo da força do dólar e do choque petrolífero.

O Yen atingiu novos mínimos de cerca de 40 anos perante o dólar e caminhava para a maior queda semanal desde Maio. A Reuters indicou que a moeda japonesa perdeu perto de 5% desde o início de 2026. 

O par USD/JPY aproximou-se de 164 Yens por dólar, com o mercado a observar a possibilidade de avanço até à zona de 165. O documento analisado refere, contudo, que os indicadores técnicos se encontravam em território de sobrecompra, aumentando o risco de uma correcção de curto prazo.

A fragilidade do Yen resulta de três factores principais. O Japão importa uma parcela significativa da energia que consome, tornando-se vulnerável à subida do petróleo. As taxas japonesas permanecem relativamente baixas, incentivando investidores a financiar-se em Yens e aplicar em activos denominados em moedas com maior rendimento. Finalmente, o mercado duvida da capacidade das autoridades japonesas para alterar esta tendência apenas através de intervenções cambiais.

O Departamento do Tesouro norte-americano juntou-se aos apelos para que o Banco do Japão aumente as taxas mais rapidamente, considerando indesejável a volatilidade excessiva da moeda. Analistas citados pela Reuters defendem que uma intervenção directa poderá apenas ganhar tempo, sem inverter os factores estruturais que pressionam o Yen. 

Libra E Dólar Canadiano Reflectem Diferentes Exposições Ao Petróleo

A libra britânica era negociada perto de US$1,3335 na sexta-feira, recuperando ligeiramente depois de ter atingido um mínimo de três semanas. 

O documento de mercado mostra que a moeda britânica caiu abaixo da região entre US$1,3335 e US$1,3350, pressionada pela menor procura por activos de risco e pelos receios de que os preços elevados da energia agravem a inflação e enfraqueçam a economia do Reino Unido.

O dólar canadiano apresentou um comportamento mais estável. O Canadá é um grande produtor e exportador de petróleo, pelo que a subida do crude tende a apoiar a sua moeda. Todavia, esse efeito foi compensado pela força geral do dólar norte-americano e pela redução da procura de outras moedas ligadas às matérias-primas.

O USD/CAD permaneceu próximo de 1,41 dólar canadiano por dólar norte-americano, apesar de as vendas a retalho do Canadá terem aumentado 0,4% em Junho, em linha com as expectativas.

Procura Por Refúgio Não Garante Uma Valorização Permanente

Apesar da actual força, o dólar enfrenta riscos que podem limitar ou inverter a valorização.

Uma redução das tensões no Médio Oriente, acompanhada pela queda do petróleo, poderia diminuir a procura de activos seguros e retirar parte do prémio de risco incorporado na moeda.

Um enfraquecimento súbito dos dados económicos norte-americanos também poderia restaurar as expectativas de cortes das taxas de juro. A descida dos novos pedidos de subsídio de desemprego mostra reduzidos despedimentos, mas não resolve inteiramente as dúvidas sobre a criação de novos empregos e o ritmo da actividade.

Existe ainda o risco de que os elevados rendimentos das obrigações sejam interpretados não como sinal de força económica, mas como reflexo de maiores preocupações fiscais e inflacionistas. Nesse cenário, uma subida das taxas poderia deixar de apoiar automaticamente a moeda.

No curto prazo, contudo, a combinação entre petróleo elevado, mercado laboral resiliente, rendimentos atractivos e incerteza geopolítica continua favorável ao dólar.

Moçambique Enfrenta Um Potencial Duplo Choque Externo

Para Moçambique, a valorização do dólar coincide com a subida do petróleo, criando um risco de dupla pressão sobre a economia.

Grande parte das importações de combustíveis, equipamentos, matérias-primas e serviços internacionais é facturada em dólares. Quando a moeda norte-americana se fortalece, os importadores necessitam de mais recursos em moeda nacional ou de maior disponibilidade de divisas para liquidar as mesmas obrigações.

No mercado doméstico, o Banco de Moçambique apresentava, a 23 de Julho, uma taxa de câmbio de referência próxima de MT63,91 por dólar, com cotações de compra e venda de MT63,27 e MT64,54, respectivamente. 

A estabilidade nominal da cotação não elimina o impacto externo. Um dólar globalmente mais forte pode elevar os custos dos fornecedores, fretes, seguros e produtos importados, mesmo quando a taxa USD/MZN sofre poucas alterações.

No caso dos combustíveis, os dois efeitos podem reforçar-se: o preço internacional do petróleo sobe e a moeda utilizada no pagamento também se valoriza perante outras divisas.

Para as empresas moçambicanas, esta conjuntura recomenda maior atenção às necessidades de fundo de maneio, prazos de pagamento, exposição cambial e cláusulas de revisão de preços nos contratos.

Para a política económica, a questão central será evitar que a combinação entre energia cara e maior procura de dólares se transforme em restrições adicionais no mercado cambial, pressão inflacionista ou redução das importações necessárias à produção.

Próxima Semana Será Dominada Pela Reserva Federal E Pela Geopolítica

A evolução do dólar na próxima semana dependerá principalmente da reunião da Reserva Federal, do comportamento dos preços do petróleo e de eventuais desenvolvimentos militares no Médio Oriente.

Uma mensagem mais preocupada com a inflação poderá manter os rendimentos das obrigações elevados e prolongar a valorização da moeda. Uma posição mais cautelosa quanto ao crescimento poderá, em sentido contrário, reduzir as expectativas de novas subidas.

O mercado acompanhará igualmente a possibilidade de intervenção das autoridades japonesas para conter a queda do Yen e os novos dados europeus que poderão influenciar a reunião do BCE em Setembro.

O dólar termina a semana fortalecido não por um único factor, mas pela convergência entre segurança, rendimentos, dados económicos e vulnerabilidade energética dos seus principais concorrentes.

Enquanto o petróleo permanecer próximo ou acima dos US$100 e os Estados Unidos continuarem a apresentar maior resiliência relativa, a moeda norte-americana deverá conservar uma vantagem importante. Para economias importadoras e dependentes de divisas, como Moçambique, essa vantagem traduz-se em custos externos mais elevados e numa necessidade acrescida de gestão cambial, financeira e empresarial.

Fonte: O Económico

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