Resumo
O dólar norte-americano manteve-se forte devido ao aumento dos rendimentos das obrigações do Tesouro e à expectativa de uma postura mais restritiva da Reserva Federal dos EUA. A pressão sobre as moedas internacionais é impulsionada pelos rendimentos das obrigações dos EUA, com previsões de subida das taxas de juro até Setembro. Uma Reserva Federal mais restritiva favorece o dólar, tornando os ativos em dólares mais atrativos. O euro e outras moedas sensíveis ao risco estão sob pressão, com o euro próximo de mínimos de três meses. O comportamento do dólar australiano e neozelandês reflete a preferência dos investidores pelo dólar, apesar do alívio das tensões geopolíticas.
O dólar norte-americano manteve-se firme esta terça-feira, sustentado pela subida dos rendimentos das obrigações do Tesouro e pelo reforço das expectativas de que a Reserva Federal dos Estados Unidos poderá adoptar uma postura mais restritiva ao longo do ano.
A valorização da moeda norte-americana ocorre mesmo num contexto de alívio parcial das tensões no Médio Oriente e de recuo dos preços do petróleo. Para os mercados cambiais, porém, o principal factor deixou de ser a evolução imediata do crude e voltou a ser a trajectória dos juros nos Estados Unidos.
Segundo a Reuters, o índice do dólar — que mede a evolução da moeda norte-americana face a um cabaz de divisas, incluindo o euro e o Yen — avançava ligeiramente para 101,06, mantendo-se próximo do máximo de aproximadamente um ano, de 101,12, alcançado na semana passada.
Juros Norte-Americanos Voltam Ao Centro Da Decisão
A pressão sobre as principais moedas internacionais está a ser alimentada pela subida dos rendimentos das obrigações norte-americanas. Os títulos do Tesouro a dois anos, particularmente sensíveis às expectativas de política monetária, permaneciam perto do nível mais elevado dos últimos 16 meses.
Os mercados de futuros sobre os fed funds passaram a incorporar uma probabilidade de 75% de uma subida das taxas de juro até Setembro. A mudança nas expectativas é significativa porque, há poucas semanas, os investidores ainda antecipavam maior estabilidade monetária ou até possíveis cortes de juros mais adiante.
A revisão foi reforçada por previsões de instituições como a BofA Global Research e o Deutsche Bank, que abandonaram cenários anteriores de manutenção das taxas e passaram a admitir um aumento ainda este ano. A leitura subjacente é que a economia norte-americana continua suficientemente resiliente para limitar a margem de flexibilização monetária, enquanto os riscos inflacionistas permanecem relevantes.
Uma Reserva Federal mais restritiva tende a favorecer o dólar por duas vias. Por um lado, eleva a remuneração dos activos denominados na moeda norte-americana. Por outro, torna os títulos do Tesouro mais atractivos para investidores globais, ampliando a procura por dólares.
Euro E Moedas Sensíveis Ao Risco Sob Pressão
O euro negociava em torno de 1,1422 dólares, próximo do mínimo de três meses, depois de a Presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, ter relativizado os receios de efeitos secundários mais persistentes sobre a inflação.
A libra esterlina mantinha-se relativamente estável, em torno de 1,3234 dólares, enquanto as moedas mais sensíveis ao risco registavam perdas. O dólar australiano recuava 0,5%, para 0,6966 dólares, o nível mais baixo desde o início de Abril, e o dólar neozelandês descia cerca de 0,3%, para 0,5693 dólares.
O comportamento destas moedas demonstra que a redução das tensões geopolíticas não está, por si só, a ser suficiente para inverter a preferência dos investidores pelo dólar. Num ambiente de juros norte-americanos elevados e de maior incerteza sobre a comunicação da Reserva Federal, a moeda norte-americana continua a beneficiar de uma posição de força.
Yen Aproxima-Se De Zona Sensível Para Tóquio
O caso mais sensível continua a ser o Yen japonês. A moeda negociava em torno de 161,62 por dólar, depois de ter enfraquecido temporariamente para 161,93 na segunda-feira. Uma ultrapassagem de 161,96 colocaria o Yen no seu nível mais fraco desde 1986.
A proximidade deste patamar voltou a alimentar especulações sobre uma possível intervenção das autoridades japonesas. Segundo a Reuters, a Ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, reuniu-se virtualmente com o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, numa altura em que as preocupações com movimentos cambiais excessivos voltam a intensificar-se.
A questão é particularmente relevante porque o Japão já realizou intervenções expressivas no mercado cambial este ano para apoiar a moeda. Contudo, a persistência da diferença entre as taxas de juro norte-americanas e japonesas continua a limitar a capacidade de uma intervenção isolada produzir efeitos duradouros.
A fragilidade do Yen aumenta o custo das importações, em especial de energia e matérias-primas, e pode pressionar os preços internos no Japão. Ao mesmo tempo, torna as exportações japonesas mais competitivas, criando um equilíbrio delicado entre os ganhos para o sector exportador e os custos para consumidores e empresas dependentes de importações.
Dados De Inflação Serão Próximo Teste
Os mercados cambiais deverão continuar atentos aos próximos indicadores de inflação norte-americanos, sobretudo aos dados das despesas de consumo pessoal, o indicador preferido da Reserva Federal para avaliar a evolução dos preços.
Uma inflação acima das expectativas poderá reforçar a ideia de que a Fed terá de manter ou elevar as taxas de juro por mais tempo, prolongando o suporte ao dólar. Pelo contrário, sinais de moderação dos preços poderão aliviar a pressão sobre outras moedas e reduzir as apostas numa nova subida de juros.
Por agora, o mercado permanece dividido entre dois movimentos: de um lado, a diminuição do prémio de risco ligado ao petróleo e às tensões no Golfo; do outro, a crescente convicção de que os Estados Unidos poderão manter uma política monetária mais restritiva do que inicialmente previsto.
É esta segunda força que, neste momento, está a definir a direcção do dólar e a colocar o Yen sob renovada pressão.
Fonte: O Económico






