InícioRevistaDesportoFC Porto-Sporting, 1-1 (crónica)

FC Porto-Sporting, 1-1 (crónica)

«Erros meus, má fortuna», escrevia Camões num soneto de uma altura em que o futebol e muito menos a forma atual do FC Porto eram sequer temas do dia.

Este clássico, que mais do que «amor ardente» teve paixão a transbordar das bancadas com 49 143 para o campo, parecia resolvido com um lampejo de génio de um dos dois prodígios de 17 anos que brilham em cada equipa.

Porém, havia ainda aqueles descontos que tudo podem mudar. E os cinco minutos de tempo extra tiveram tanta história como os restantes 90.

Houve muito Mora no clássico, mas a decisão parecia destinada aos pés de Quenda. No entanto, depois de exausto e exangue de tanta luta, o Dragão entrou em ebulição na hora em que Danny Namaso apareceu solto na área, para desviar após assistência de Samu.

Um caldeirão a ferver! Que aqueceu ainda mais quando Mattheus Reis e Diomande foram expulsos de seguida, no último lance de um jogo que terminou em confusão e com expulsões de elementos do staff das duas equipas.

Este, porém, é o fim da história.

O jogo começou com Gyökeres e Morita no banco, com Rui Borges a alterar apenas João Simões pelo lesionado Geny Catamo.

O 4-2-3-1 leonino encaixou-se no 3-4-3 de Anselmi – com Zé Pedro a entrar pelo castigado Otávio e Pepê titular em vez de Gonçalo Borges – e a pressão alta leonina colocou dificuldades de construção no primeiro terço aos dragões.

O FC Porto apenas sacudiu o jogo pouco antes da meia-hora de jogo. O Dragão soltou fumo com dois lances de quase golo. Primeiro, Eustáquio atirou de pé esquerdo à barra. Logo a seguir, Samu tentou do meio-campo um chapéu de aba larga a Rui Silva, que saiu centímetros acima do travessão.

A chama viva surgiria, porém, aos 42m, na outra baliza. O génio de Quenda soltou-se da lâmpada e fez magia: rompeu sobre a esquerda, deixou João Mário e Zé Pedro nas covas e deixou a bola de bandeja para Fresneda marcar pelo segundo jogo consecutivo (apesar do desvio em Moura ter traído Diogo Costa).

Ao intervalo, o Sporting estava na frente do marcador e com vantagem nos remates (7-3) e na posse de bola (53%-47%). O resultado era, ainda assim, penalizador para um FC Porto que voltaria para a segunda parte decidido a mandar no jogo.

«Perdido por 100, perdido por 1000», terá pensado Anselmi, que foi lançando peças e até estreou o reforço William Gomes.

O minuto 67, ainda assim, é exemplar no que toca às diferenças de profundidade de cada plantel: Rui Borges lançou em campo Gyökeres e Morita, ainda que limitados fisicamente, Anselmi recorreu a Gonçalo Borges.

Contudo, o FC Porto criou, encostou o leão às cordas e virou do avesso a estatística. 18-12 em remates, 56%-44% em posse de bola, 6-3 em cantos. O prémio viria no fim, em jeito de pontapé numa crise de confiança que não acabou com este empate.

Namaso salvou o dragão sobre o gongo. Um empate que quase soube a vitória, porque tudo isto tem um contexto.

Não há memória de o dragão ter entrado num clássico tão cabisbaixo. Apesar de o Sporting não vencer neste estádio desde 2016 – os últimos 11 jogos são sete vitórias e quatro empates para o FC Porto – o presente é que conta nestas coisas. Mesmo depois da saída de Amorim e do precalço com João Pereira, Rui Borges herdou um bloco sólido. Comparativamente, os jogadores leoninos têm mais certeza de passe e ocupam melhor os espaços, mas a tentativa de gerir o resultado terá traído a equipa leonina.

Ainda assim, o campeão mantém os oito pontos de vantagem sobre este rival e é o principal candidato ao título – apesar de o Benfica poder agora encurtar a distância para quatro pontos.

Por outro lado, não há grandes motivos para festejar no Dragão. Apenas para pôr tudo em perspetiva.

O FC Porto não vence há cinco jornadas. Nesse período, perdeu 12 pontos em 15 possíveis e tem uma das piores sequências da sua história – uma vitória nos últimos oito jogos em todas as competições.

Se o Sporting, campeão e líder, é uma equipa feita, o FC Porto é um projeto em construção – com uma clara aposta em jovens talentos, algo que o Sporting bem conhece da sua história recente.

Ressalva-se que Anselmi tem uma ideia de jogo clara e uma ambição de fazer de um conjunto de jovens jogadores descrentes uma equipa cheia de personalidade.  

O desafio é que, para estes lados, a paciência é inversamente proporcional ao palmarés de adeptos que têm memória de ganharem tudo o que havia para ganhar, cá dentro e lá fora.

Se esta noite há motivo para sorrir no Dragão é apenas por isto: há uma centelha de esperança.

O adeus ao título fica para depois.

Fonte: Mais Futebol

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