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Graduados Entram No Mercado, Mas Tarde E Nem Sempre Na Área De Formação

Resumo

Um inquérito em Moçambique revela avanços na empregabilidade de graduados universitários e técnicos, mas aponta desajustes de competências, desigualdades de género e desconexão entre formação e emprego. O estudo destaca a importância de ligar formação, competências e trajetórias profissionais para garantir estabilidade e progressão. Os dados mostram melhorias na empregabilidade ao longo do tempo, mas a transição para o mercado de trabalho continua lenta e desigual, com muitos a ocuparem cargos fora da sua área de estudo. Entre graduados universitários, a taxa de emprego subiu para cerca de 90% em 2023, sendo mais alta para homens do que para mulheres. Já no ensino técnico-profissional, a inserção é mais lenta e vulnerável, com taxas de emprego mais baixas e desigualdades de género evidentes.

Inquérito longitudinal sobre o início de carreira de graduados universitários e técnico-profissionais revela progressos na empregabilidade, mas expõe desajustes de competências, desigualdades de género e uma persistente distância entre formação, qualidade do emprego e procura empresarial.

O desafio do emprego qualificado em Moçambique não se resume à criação de vagas. Passa, cada vez mais, pela capacidade de ligar formação, competências, produtividade e trajectórias profissionais que ofereçam estabilidade, remuneração adequada e possibilidades reais de progressão.

É esta a principal leitura do novo Inquérito ao Início de Carreira dos Graduados Universitários e do Ensino Técnico-Profissional em Moçambique, elaborado no âmbito do programa Crescimento Inclusivo em Moçambique. O estudo acompanha, ao longo do tempo, dois grupos distintos: graduados universitários e diplomados do ensino técnico-profissional, permitindo observar não apenas se encontram emprego, mas em que sectores trabalham, em que condições, com que remuneração e até que ponto utilizam as competências adquiridas durante a formação.

Os dados mostram que a empregabilidade melhora à medida que os anos passam, mas a transição entre a escola e o mercado de trabalho permanece lenta, desigual e frequentemente marcada por ocupações que não correspondem à área de estudo. O problema, portanto, não é apenas de acesso ao primeiro emprego. É também de qualidade, adequação e aproveitamento do capital humano que o País forma.

Emprego Aumenta, Mas A Transição Continua Demorada

Entre os graduados universitários, a taxa de emprego subiu de cerca de 69% em 2019 para níveis próximos de 90% em 2023, demonstrando uma integração progressiva no mercado de trabalho. Em 2024, 91% dos inquiridos encontravam-se empregados, dos quais 72% em emprego fixo por conta de outrem, 12% em auto-emprego e 5% em trabalho ocasional.

A trajectória, contudo, não é homogénea. Os homens chegaram a uma taxa de emprego próxima de 94%, enquanto as mulheres se situaram em cerca de 86%. A taxa de desemprego entre graduadas universitárias foi de 12%, quatro vezes superior aos 3% registados entre os homens.

No ensino técnico-profissional, a inserção revela-se mais lenta e mais vulnerável. A taxa de emprego passou de aproximadamente 42% em 2020 para 77% em 2024, mas a estrutura ocupacional é menos favorável: apenas 39% dos diplomados tinham emprego fixo, enquanto 24% estavam em auto-emprego e 10% em trabalho ocasional. O desemprego atingia 17% desta coorte.

Também neste grupo a diferença de género é expressiva. Entre os homens diplomados do ensino técnico-profissional, 47% tinham emprego fixo e 9% estavam desempregados. Entre as mulheres, apenas 28% tinham emprego fixo, ao passo que 29% permaneciam desempregadas.

Estes números sugerem que o acesso à formação não elimina, por si só, as barreiras estruturais enfrentadas pelas mulheres no mercado laboral. A desigualdade prolonga-se na contratação, no tipo de vínculo, na progressão e nos rendimentos.

Formação Nem Sempre Se Converte Em Competência Utilizada

O desajuste entre a área de formação e a actividade profissional surge como uma das conclusões mais relevantes do estudo.

Entre os licenciados universitários, cerca de 31% trabalham fora da sua área de estudos. A incidência é maior entre mulheres, onde atinge 36%, contra 26% entre os homens. Os desajustes são particularmente elevados nas Ciências Humanas, com 49%, e na Agricultura, com 43%, mas também se tornam evidentes em sectores como comércio, turismo e transportes. Em contraste, Saúde e Engenharia apresentam maior correspondência entre formação e emprego.

No ensino técnico-profissional, o problema é ainda mais acentuado. Cerca de 43% dos diplomados trabalham fora da área em que se formaram, com uma diferença particularmente severa entre mulheres, 56%, e homens, 36%. Além disso, 32% afirmam que o trabalho que desempenham não requer as competências obtidas na sua qualificação; entre as mulheres, essa proporção sobe para 42%.

Este é um sinal de ineficiência económica que merece atenção. Quando um jovem investe tempo e recursos numa qualificação que não consegue utilizar de forma produtiva, o problema não é apenas individual. O País perde produtividade, as empresas deixam de aproveitar competências disponíveis e o sistema educativo recebe menos informação sobre o que precisa de ajustar.

A questão é particularmente sensível nos sectores que deveriam estar no centro da transformação económica, como agro-indústria, indústria transformadora, logística, tecnologias, construção e serviços empresariais. A formação deve preparar jovens para o mercado existente, mas também antecipar o mercado que o País pretende construir.

Sector Privado Já É Relevante, Mas Pode Assumir Um Papel Mais Estruturante

O estudo revela que, entre os graduados universitários empregados acompanhados, as empresas privadas constituem o principal empregador, absorvendo 44% dos trabalhadores, acima da Administração Pública, com 34%. O auto-emprego representa 14%, enquanto as organizações não-governamentais respondem por 8%.

Este dado merece ser lido com atenção. Embora educação, saúde, Administração Pública e serviços continuem a desempenhar um papel relevante na absorção de mão-de-obra qualificada, o sector privado já se apresenta como uma plataforma central de entrada e valorização de competências para uma parte significativa dos graduados.

Entre os diplomados técnico-profissionais, a presença empresarial é ainda mais visível em áreas ligadas à indústria transformadora, construção, comércio e reparação, sectores que, em conjunto, absorvem quase metade dos graduados empregados desse nível de formação.

O desafio está em transformar esta presença num papel mais estruturante. Isto exige que as empresas não sejam apenas receptoras de mão-de-obra formada por terceiros, mas parceiras activas na definição de perfis profissionais, currículos, competências técnicas, competências comportamentais e requisitos de actualização tecnológica.

Uma economia que pretende industrializar-se, diversificar a produção e integrar mais empresas nas cadeias de valor precisa de criar pontes permanentes entre os locais de formação e os sectores produtivos. Sem isso, o risco é continuar a formar jovens para ocupações que já não existem, ou para segmentos onde a procura é insuficiente.

Estágios Ainda Têm Peso Insuficiente

Os dados sobre os mecanismos de entrada no mercado de trabalho reforçam esta preocupação. Entre graduados universitários, a procura de emprego depende sobretudo de anúncios nos meios de comunicação, contactos com amigos e familiares, internet e abordagem directa às empresas. Os estágios representam apenas uma pequena parte das portas de entrada, enquanto agências de recrutamento e centros de emprego têm expressão praticamente residual.

No ensino técnico-profissional, a dependência de redes pessoais é ainda maior. O recurso a amigos e familiares aparece como uma das principais estratégias de acesso ao emprego, o que evidencia a fragilidade dos mecanismos formais de intermediação entre procura e oferta de trabalho.

Num mercado laboral moderno, o estágio não deve ser tratado como uma experiência periférica ou meramente administrativa. Deve funcionar como uma ponte efectiva entre formação e emprego, permitindo que empresas conheçam antecipadamente os candidatos, avaliem capacidades práticas e participem na formação de futuros quadros.

A ampliação de estágios, programas de aprendizagem, bolsas de inserção profissional e parcerias de recrutamento entre empresas e instituições de ensino pode reduzir o período de espera depois da graduação e melhorar a correspondência entre competências e necessidades concretas dos empregadores.

Emprego Não Significa Necessariamente Satisfação

Outro dos alertas do relatório prende-se com a qualidade do emprego. Entre os graduados universitários, 65% declararam-se insatisfeitos com a ocupação actual e à procura de novas oportunidades. A insatisfação é mais elevada em sectores como turismo e restauração, indústria extractiva, comércio e construção.

No ensino técnico-profissional, a situação é ainda mais exigente. O factsheet associado ao estudo aponta que 82% dos diplomados manifestam insatisfação com o emprego, num ambiente marcado por contratos a prazo, informalidade, ausência de inscrição no INSS, falta de contratos escritos e reduzida utilização das competências adquiridas.

A leitura destes dados deve evitar uma conclusão simplista de que a criação de emprego perdeu relevância. Pelo contrário: criar postos de trabalho continua essencial. Mas a sustentabilidade do crescimento depende de empregos que também gerem produtividade, rendimentos, protecção social, aprendizagem contínua e perspectivas de carreira.

Quando a ocupação é precária, mal remunerada ou desconectada da qualificação, a rotatividade aumenta, as empresas enfrentam dificuldades de retenção de talentos e os jovens tendem a procurar alternativas fora da sua área profissional.

A Agenda Que Liga Educação, Empresas E Transformação Económica

O estudo recomenda o reforço das parcerias entre universidades, ensino técnico-profissional e sectores produtivos, com especial atenção à indústria, agricultura, agro-indústria e actividades emergentes. Defende também a expansão dos estágios, o fortalecimento dos serviços de intermediação laboral, a redução das desigualdades de género e a institucionalização de sistemas regulares de acompanhamento dos graduados.

Trata-se de uma agenda que deve ser assumida não apenas pelos sectores da educação e trabalho, mas também pelas empresas, associações empresariais, investidores, grandes projectos e entidades públicas responsáveis pela política industrial, conteúdo local e desenvolvimento territorial.

Para o sector privado, a oportunidade é clara. Participar mais activamente na formação e inserção de jovens qualificados pode reduzir custos de recrutamento, melhorar a adequação das competências, aumentar a produtividade e criar uma base mais sólida de talento nacional.

Para Moçambique, a pergunta decisiva não é apenas quantos jovens concluem os seus cursos. É quantos conseguem transformar a qualificação em trabalho produtivo, emprego digno, rendimento sustentável e participação efectiva na construção de uma economia mais diversificada e competitiva.

Fonte: O Económico

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