Por: Alfredo Júnior
No Zimpeto, o medo não é novidade, há muito que se aprende a andar depressa, a guardar o telefone antes de tempo, a reconhecer o silêncio estranho das ruas que já foram assaltadas demasiadas vezes. O crime ali não chegou ontem, instalou-se devagar, com a mesma persistência com que as queixas foram sendo ignoradas.
Durante anos, houve relatos. Assaltos à luz do dia. Roubos repetidos. Mortes que mal ultrapassavam o murmúrio das esquinas. Algumas, dizem, mesmo diante da polícia. Nada que justificasse grande movimento. Nada que merecesse urgência.
Até que um nome começou a circular.
Gervásio, 23 anos, jovem. Um corpo que deixou de ser apenas estatística e passou a ser rosto, partilha, indignação. A notícia correu mais rápido do que as viaturas costumam correr quando o crime ainda está em curso, e de repente, o bairro acordou cercado. Polícias por todo o lado, um aparato que parecia novo, mas que afinal sempre existiu, apenas bem guardado para outras ocasiões.
É curioso como a segurança se torna visível quando o barulho cresce, quando as redes sociais inflamam, quando o caso já não cabe no silêncio. Antes disso, a criminalidade é tratada como hábito, depois transforma-se em emergência.
Quem vive no Zimpeto sabe que este filme não é exclusivo dali, o mesmo cenário repete-se noutros bairros, noutras histórias. A diferença está no momento em que o Estado decide aparecer, não quando o problema começa, mas quando já é impossível fingir que não existe.
Há também quem repare noutra coincidência difícil de ignorar: o aparato policial nunca falha em tempos de manifestações, de discursos partidários, de agendas políticas sensíveis. Nesses dias, não faltam homens, viaturas, prontidão. O país fica subitamente seguro, organizado e controlado.
Fica a pergunta que ninguém faz em voz alta: será que a vida quotidiana vale menos do que a estabilidade política momentânea? Ou será que o problema nunca foi falta de meios, mas sim de prioridades?
Gervásio apenas expôs o que já lá estava, o que incomoda não é a presença tardia da polícia, mas a certeza de que ela poderia ter vindo antes. Muito antes. Quando ainda não havia nome para chorar.
E talvez seja esse o verdadeiro drama: em Moçambique, a ordem não chega quando o perigo começa. Chega quando o silêncio já não aguenta mais.






