Resumo
O autor do texto endereça uma carta a Roberto Martínez, expressando o desejo de sucesso para o treinador, visto como um sucesso para Portugal. Destaca a evolução do futebol português ao longo dos anos, mencionando a qualidade de jogadores de diferentes gerações e a importância das condições de trabalho e mentalidade. Aborda a influência de Cristiano Ronaldo na seleção, referindo a responsabilidade de gerir o seu impacto. Critica a falta de evolução da mentalidade no futebol português em relação ao talento existente. Destaca a importância da gestão desportiva ao longo dos anos e o peso das críticas sobre o jogador em momentos menos positivos da seleção.
Caro Roberto Martínez,
Quero muito o seu sucesso porque o seu sucesso será o sucesso de Portugal. E, após tantos anos a seguir a Seleção Portuguesa, nomeadamente através das seleções de base, este Mundial tem para mim, como observador, e certamente para muitos portugueses que adoram a seleção que é considerada “de todos nós”, um significado especial.
Porque, em quantidade, nunca reuniu tantos jogadores de qualidade e porque o trabalho feito por outros, nas décadas de 80 e 90, e que presenciei, nalguns momentos, praticamente sozinho, ajudou a dar os frutos que o Roberto e outros selecionadores mais recentes puderam (des)aproveitar.
O Roberto provavelmente não sabe com detalhe mas o futebol português sempre teve jogadores de imenso talento e quando se fala que, hoje por hoje, dispõe do melhor meio-campo de sempre, eu tenho muitas dúvidas porque já tivemos um meio-campo com Carlos Manuel, António Sousa, Frasco e Chalana e ainda Jaime Pacheco; já tivemos um meio-campo com Luís Figo, Rui Costa, Paulo Sousa e João V. Pinto (mais adiantado), e já tivemos jogadores como Costinha, Maniche e Deco, para não salientar outros “miolos” de outras gerações.
Quer dizer: o futebol português a nível de seleções sempre teve jogadores de qualidade, mais dispersos ou mais compactados, mas sem nunca chegar ao binómio quantidade-qualidade de hoje.
Creia, Roberto Martínez, que nenhum seleccionador dispôs alguma vez das condições que hoje você usufrui.
A FPF teve uma fase em que só tinha praticamente o Estádio Nacional para se treinar; os equipamentos às vezes não chegavam para as seleções mais jovens, os jogadores queixavam-se das chuteiras, não havia Academias nem centros de estágio nos clubes, havia muita carolice e lembro-me o que me esforcei para passar a mensagem de que o nosso problema não era de talento; era fundamentalmente de condições de trabalho e de… mentalidade.
Aliás, quando começou este Campeonato do Mundo voltei a dizer que o nosso maior problema poderia ser o da…. mentalidade. Que nunca evoluiu na proporção certa do nosso talento natural.
Já lá vamos. E já lá vamos porque, entretanto, surgiu no Euro-2004, Cristiano Ronaldo, que conheceu vários ciclos na Seleção, correspondentes com a sua fase evolutiva nos clubes que entretanto foi representando até se fixar num plano de topo do futebol mundial e até se tornar num jogador-marca, que suscitou — como dizer? — uma “explosão de poder”, praticamente impossível de controlar, considerando a tal… mentalidade portuguesa (e não só).
E não deixa de ser interessante que, nos ciclos menos virtuosos da Seleção, e com o tempo a pensar; com Cristiano Ronaldo neste momento com 41 anos de idade, as culpas são despejadas invariavelmente sobre o jogador-marca e não sobre quem tinha a responsabilidade de gerir os condicionalismo da existência desse jogador-marca.
É que não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. Desde 2004, a FPF teve três presidentes: Gilberto Madail, Fernando Gomes e agora Pedro Proença. Alguma vez vimos alguns dos presidentes a preparar a sucessão de Cristiano Ronaldo? É mais do que evidente que a FPF sempre esteve mais interessada no valor da “marca” do que nas questões da gestão desportiva. Deixava isso para os selecionadores. E quem, entre os selecionadores, tentou assumir um supra poder em relação a Cristiano Ronaldo? Scolari não entra no imbróglio porque CR ainda estava na sua fase de afirmação e ainda não era uma marca. Todos os outros, a seguir, tiveram problemas. Porquê? Porque a FPF lutava (com interesse próprio) pelo crescimento da “marca” e os treinadores só queriam fazer a compatibilização técnico-desportiva.
Em conclusão: a FPF esquivou-se a gerir uma questão global e quando percebeu que Cristiano Ronaldo tinha, naturalmente, o apoio e suscitava a atração dos patrocinadores, deixou que a situação global fosse gerida dia a dia, mês a mês, campeonato a campeonato. Como acontece agora consigo, caro Roberto.
Caro Martínez,
Toda a gente já percebeu que, sendo você um diplomata e sabendo nós que Jorge Mendes está em quase tudo o que sejam decisões macro de clubes e da seleção, você foi contratado por Fernando Gomes para exercer o seu sentido de diplomacia. Desculpe a expressão prosaica, mas sendo certo que, aqui e ali, já lhe “saltou a tampa” uma vez ou outra, você tenta manter esse sentido de diplomacia intacto.
Você ficou, quer queira quer não, refém do presidente da altura (Fernando Gomes) e refém de Cristiano Ronaldo, o jogador-marca, o jogador que ainda joga mas que fundamentalmente atrai, por mérito, a atenção de cidadãos de todo o Mundo. Eu vi um Estádio cheio de camisolas de Portugal com o número 7 envergadas por cidadãos de múltiplas nacionalidades. Isso é um fenómeno praticamente inegociável, e poucos veem isso.
Ainda por cima, Fernando Gomes “queimou” todos os mandatos que poderia fazer, foi para o Comité Olímpico e deixou a batata-quente nas mãos de Pedro Proença, que sabia ter de lidar com uma situação que, à partida, não era a que mais desejava. Tê-lo a si como selecionador — e por isso se falou tanto da possibilidade de, com Proença, você poder ser substituído, primeiro, por Mourinho e, depois, por Jorge Jesus.
Proença não quis ser tão radical, você também há cerca de um ano acabava de conquistar a Liga das Nações para Portugal, mas também lhe digo com todo o respeito, como aliás não tive qualquer problema de o afirmar após a decepção do embate com o Congo: se se repetisse algo de parecido com o Uzbequistão, porque gosto mais de Portugal do que da sua diplomacia, acharia útil que fosse rendido por Jesus, que conhece melhor do que ninguém as dinâmicas de Cristiano Ronaldo e João Félix e não tem problemas nenhuns em meter quem quer que seja no seu lugar.
Caro Roberto Martínez,
Voltemos à questão da mentalidade. Diplomacia não rende com mentalidade. E, mais do que um diplomata, Portugal precisava de um treinador carismático, mandão, firme nas decisões, sem medos e que olhasse para a realidade.
E você não está a olhar para a realidade. Engana-se a si próprio. Diz aquilo que ninguém vê. Eu senti-me ofendido quando o ouvi dizer que Portugal fez uma “exibição fantástica” com a Colômbia. Senti-me ultrajado. O ultraje, em nenhum momento, pode atingir a honestidade intelectual.
Vamos lá colocar os pontos nos is, agora que Portugal está classificado para os oitavos-de-final do Mundial, com 5 pontos conquistados em 9 possíveis.
O apuramento não chega a ser notícia, porque entre 42 seleções participantes já se sabia que só 16 ficariam de fora e, entre essas, quem estará a braços com uma “crise existencial” serão os responsáveis do Uruguai (duas vezes campeão do Mundo) e talvez os da Escócia e da Turquia.
As minhas contas iniciais apontavam para 7 a 9 pontos na fase inicial. Fizemos 5. Achava que estávamos obrigados a fazer 6 pontos nos dois primeiros jogos (Congo e Uzbequistão) e admitia um empate frente à Colômbia.
Foi pouco, sobretudo qualitativamente, porque Portugal apenas jogou dentro dos parâmetros exigíveis frente ao Uzbequistão e deixa-nos numa posição desconfortável frente à Croácia, que não é um “papão”, mas que tem os seus créditos.
Muitos acreditam, até dentro da Seleção que, com o aumento das dificuldades teóricas, Portugal vai melhorar. Talvez. Mas só se introduzir a questão da mentalidade que você, Roberto, não tem conseguido fazê-lo. Porquê? Porque a sua voz no grupo não é ouvida, apesar das últimas declarações de João Félix, a dizer que os jogadores só têm de seguir o seu pensamento? Mas que pensamento? O pensamento de travar a Seleção e os jogadores como o fez frente aos colombianos? Não utilizar, em Miami, Francisco Conceição e Gonçalo Ramos, passando uma ideia (com Samu) que o importante era não perder?
Não perder?!!!
Caro Roberto Martínez,
Não nos diminua nem tire medidas mínimas a um fato que tem de se ajustar ao corpo de Portugal. Portugal tem se jogar com ambição, tem de levar o adversário para trás, não tem de ficar com os restos para as hienas devorarem. Não se ponha a jeito para as hienas. Faça o que tem de fazer frente à Croácia.
Já não sei quem boicota quem. Mas há no ar um cheiro quase irrespirável a boicote. Há inúmeras versões sobre um boicote a Cristiano Ronaldo. Interno? Externo? Seu não será certamente. Mas há a hipótese de se estar a boicotar a si próprio, porque não vê o essencial e, quando faz alterações, parece que está perdido (aliás, a sua cor de pele mudou muito nos últimos tempos e os esgares são diferentes). Quem boicota quem, afinal? Porque estes jogadores têm de jogar o dobro ou o triplo e isso é, neste momento, uma miragem.
Eu sei que o insucesso no futebol pode dar muito dinheiro. E que o seu futuro estará sempre salvaguardado, por quem sempre o patrocinou.
É uma questão de orgulho. Como está o seu orgulho? É que, se for igual ao litro, temo que possamos passar ao lado deste Mundial. E isso não é talvez tão gravoso para si mas para quem ama Portugal e o futebol português.
Seja você próprio, se conseguir, pelo menos uma vez na vida, e não se importe com salvo-condutos.
As outras coisas dir-lhe-ei no final da prova. Outra vez sem medo das palavras.
Fonte: CNN Portugal






