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HOSPITAIS SEM MÉDICOS E VIDAS EM ESPERA

Por: Gentil Abel

Num contexto em que o acesso aos cuidados de saúde continua a ser um dos maiores desafios para muitas comunidades rurais, a existência de infraestruturas sanitárias prontas, mas sem funcionamento, levanta uma série de inquietações. É uma realidade que expõe, de forma silenciosa, as fragilidades de um sistema de saúde que ainda luta para responder às necessidades básicas da população. É neste cenário que, segundo notícia divulgada pelo Jornal Domingo, dois centros de saúde no distrito de Mossurize, província de Manica, permanecem encerrados desde janeiro, apesar de estarem concluídos e devidamente equipados. Trata-se das unidades de Changulo e Mabendane, que deveriam aliviar as dificuldades históricas de acesso à assistência médica, mas continuam de portas fechadas devido à alegada falta de pessoal.

Perante este cenário, impõe-se uma reflexão: como explicar que unidades sanitárias completas, com bloco operatório, maternidade e laboratório, permaneçam inoperantes por ausência de profissionais? As autoridades apontam para a “insuficiência de recursos humanos” No entanto, esta justificação perde força quando confrontada com a realidade da própria província, onde a formação de profissionais de saúde tem sido contínua.

Com efeito, Manica forma anualmente entre 200 a 250 novos técnicos de saúde, entre médicos e enfermeiros. Só na área de enfermagem, os números ultrapassam facilmente uma centena por ano, enquanto a medicina geral também contribui com dezenas de novos profissionais. Ou seja, existe uma base de quadros disponíveis, há jovens qualificados e há uma necessidade evidente nas comunidades. Ainda assim, o sistema revela dificuldades em articular estes elementos de forma eficaz.

Neste contexto, torna-se evidente que o problema não se resume à falta de profissionais, mas à forma como os recursos são geridos. Mais do que erguer infraestruturas, o que, neste caso, contou inclusive com o apoio de empresários locais, é fundamental assegurar o seu funcionamento pleno. Afinal, um hospital fechado não cumpre a sua função essencial: salvar vidas.

Entretanto, para as populações de Changulo e Mabendane, as consequências desta situação são reais e imediatas. Os residentes continuam a percorrer longas distâncias em busca de atendimento médico, enfrentando custos elevados e riscos que poderiam ser evitados. Em situações críticas, como partos ou doenças súbitas, cada minuto perdido pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

Por outro lado, observa-se também um fenómeno preocupante: a existência de jovens recém-formados que encontram dificuldades para ingressar no mercado de trabalho. Muitos aguardam por oportunidades que tardam a surgir, enquanto unidades de saúde permanecem à espera de profissionais. Esta contradição aponta para falhas claras na planificação, na articulação institucional e, possivelmente, na definição de prioridades orçamentais.

Ainda assim, a solução provisória apresentada, a deslocação de médicos e enfermeiros de outras unidades surge como um paliativo. Embora possa mitigar o problema a curto prazo, não resolve a questão estrutural. Pelo contrário, corre o risco de fragilizar ainda mais os serviços de origem, criando um ciclo de carências sucessivas.

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