Resumo
Maputo acolhe a 4.ª Assembleia Anual e Conferência Internacional da The Welding Federation Africa, debatendo manufactura sustentável, qualificação técnica e desenvolvimento industrial em África. Organizado pela Associação Industrial de Moçambique e pela The Welding Federation, o evento reúne representantes da indústria, academia e instituições públicas de vários países africanos. Destaca-se a importância da soldadura, engenharia de materiais e formação técnica para a capacidade produtiva local e emprego qualificado. O Ministro dos Recursos Minerais e Energia realça a necessidade de transformar os recursos naturais em valor acrescentado interno, enfatizando a importância da formação, certificação e participação de empresas locais nas cadeias de fornecimento para impulsionar o desenvolvimento industrial em Moçambique e em África.
Maputo acolhe, entre esta segunda-feira e 24 de Junho, a 4.ª Assembleia Anual e Conferência Internacional da The Welding Federation Africa, uma iniciativa que coloca Moçambique no centro do debate continental sobre manufactura sustentável, qualificação técnica, conteúdo local e desenvolvimento industrial.
O encontro decorre na Universidade Eduardo Mondlane, sob o lema “Explorando a Manufactura Sustentável em África”, e é organizado pela Associação Industrial de Moçambique (AIMO) e pela The Welding Federation (TWF). A conferência reúne representantes da indústria, instituições públicas, academia, centros de formação, investigadores, especialistas e delegados provenientes de vários países africanos.
Mais do que um espaço de reflexão técnica, a Assembleia surge como uma plataforma para discutir como África pode transformar os seus recursos naturais, os investimentos em infra-estruturas e a expansão dos sectores extractivos em capacidade produtiva local, empresas competitivas e emprego qualificado.
A soldadura, a engenharia de materiais, a certificação profissional e a formação técnica assumem, neste contexto, uma importância que ultrapassa o domínio estritamente operacional. São competências críticas para a construção, manutenção e expansão de centrais eléctricas, gasodutos, parques solares, infra-estruturas portuárias, unidades mineiras, fábricas e outros activos industriais.
Soldadura Como Pilar Da Industrialização
Na abertura da conferência, o Ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estêvão Pale, destacou que a realização do evento em Moçambique representa um reconhecimento da trajectória que o País tem vindo a percorrer no domínio do desenvolvimento industrial e energético.
O governante sublinhou que Moçambique dispõe de recursos energéticos e minerais relevantes, desde o potencial hidroeléctrico, solar, eólico e hídrico às reservas de gás natural e aos recursos de carvão da Bacia de Moatize. Contudo, advertiu que a posse de recursos, por si só, não assegura desenvolvimento.
“O verdadeiro desafio está em transformar esses recursos em valor acrescentado que fique em Moçambique e sirva o nosso continente”, afirmou Estêvão Pale, ao enquadrar a importância do debate sobre manufactura sustentável.
A mensagem central é que os grandes investimentos só terão um impacto transformador se forem acompanhados por uma estratégia deliberada de formação, certificação, transferência de conhecimento e participação efectiva de empresas nacionais nas cadeias de fornecimento.
O Ministro observou que, em vários projectos de grande escala ligados ao petróleo e gás, mineração e energia eléctrica, uma parcela significativa do investimento é ainda canalizada para a importação de equipamentos e serviços produzidos fora do continente. Esta realidade reduz a capacidade de retenção de valor e limita as oportunidades de crescimento das empresas africanas.
É neste ponto que a soldadura e as actividades conexas ganham relevância estratégica. Para além de uma profissão técnica, a soldadura constitui uma base operacional para a construção de infra-estruturas, o fabrico industrial, a manutenção de activos e a prestação de serviços especializados.
Conteúdo Local Exige Competência E Certificação
A expansão dos projectos de gás natural, energia, mineração e infra-estruturas cria uma procura crescente por serviços de engenharia, fabrico, montagem, manutenção, inspecção e controlo de qualidade.
Mas a inserção das empresas nacionais nessas cadeias de valor depende da sua capacidade de responder a padrões técnicos, de segurança, certificação e desempenho exigidos por operadores de grande dimensão.
Segundo Estêvão Pale, o conteúdo local deve ser entendido precisamente como a capacidade de Moçambique produzir, fornecer e prestar, de forma competitiva, os bens e serviços que os grandes empreendimentos demandam.
“Queremos que as empresas moçambicanas participem activamente nas cadeias de valor da energia, do gás e da mineração como actores tecnicamente competentes”, afirmou o Ministro, defendendo maior investimento nas áreas de soldadura, fabrico e engenharia.
A abordagem coloca a qualificação da força de trabalho no centro da agenda industrial. A criação de oportunidades para jovens técnicos, soldadores, engenheiros e pequenas e médias empresas exige que os programas de formação estejam directamente ligados às necessidades concretas dos sectores produtivos e aos requisitos das cadeias de valor dos grandes projectos.
Por isso, a aproximação entre empresas, instituições de ensino, centros de formação e entidades certificadoras será uma das dimensões mais relevantes da conferência que decorre em Maputo.
Paulo Chibanga Defende Ligação Entre Academia E Indústria
O Presidente da Associação Industrial de Moçambique, Paulo Chibanga, defendeu que o desenvolvimento industrial africano dependerá da capacidade de transformar conhecimento em capacidade operacional, reforçando a ligação entre investigação, inovação, formação profissional e necessidades empresariais.
Para Paulo Chibanga, o continente vive uma fase marcada por investimentos estratégicos na energia, mineração, infra-estruturas, manufactura e novas tecnologias. Contudo, o verdadeiro alcance dessa transformação dependerá da capacidade de África investir nas pessoas, fortalecer as suas empresas e converter conhecimento técnico em competência industrial efectiva.
A realização da Assembleia na Universidade Eduardo Mondlane assume, neste contexto, um significado particular. Segundo o Presidente da AIMO, a presença da conferência numa instituição de ensino superior reforça a necessidade de aproximar a academia da indústria, criando uma relação mais forte entre produção de conhecimento, inovação, qualificação profissional e desenvolvimento económico.
Esta ligação é particularmente relevante numa fase em que África procura aprofundar a industrialização, aumentar a produção local e reduzir a dependência de importações de equipamentos, componentes e serviços especializados.
A manufactura sustentável, tema central da Assembleia, envolve não apenas a expansão da actividade industrial, mas também a adopção de tecnologias mais eficientes, a valorização dos recursos locais, a formação de competências, a segurança no trabalho e a construção de cadeias produtivas com maior impacto económico e social.
A aposta passa por criar condições para que os projectos de energia, mineração e infra-estruturas funcionem como plataformas de aprendizagem, produção, inovação e crescimento empresarial.
Campeonato Africano Valoriza Jovens Técnicos
Em paralelo com a conferência, decorre o Campeonato Africano de Soldadura, que deverá reunir cerca de 20 jovens concorrentes de diferentes países africanos no Centro de Formação Profissional em Metalurgia (CFPM).
A competição pretende valorizar a excelência técnica e destacar uma nova geração de profissionais preparados para responder aos desafios da indústria moderna. Para os organizadores, trata-se também de uma oportunidade para demonstrar que o futuro industrial do continente dependerá da qualidade das suas competências práticas e da capacidade de assegurar formação alinhada com padrões internacionais.
A presença de jovens técnicos no evento reforça a dimensão de futuro da Assembleia. O debate sobre industrialização não se limita às grandes decisões de investimento; exige igualmente uma resposta concreta à necessidade de preparar profissionais capazes de ocupar funções técnicas em sectores cada vez mais exigentes.
Paulo Chibanga dirigiu uma mensagem especial aos participantes da competição, considerando-os representantes de uma nova geração africana com talento e capacidade para responder às exigências da indústria contemporânea.
A AIMO assinalou ainda que a conferência deverá marcar o lançamento oficial da TWF Moçambique, iniciativa que pretende reforçar a cooperação entre a indústria, as instituições de formação e os profissionais do sector.
Está igualmente previsto o lançamento de um Programa de Mobilidade e Emprego, desenvolvido em parceria com a CS Wind, procurando estabelecer uma ligação mais directa entre formação profissional e oportunidades de trabalho na indústria internacional.
Moçambique Como Plataforma Industrial Regional
A escolha de Moçambique para acolher a 4.ª Assembleia Anual e Conferência Internacional da TWF traduz uma oportunidade para posicionar o País como espaço de cooperação técnica, formação profissional e intercâmbio industrial no continente.
A presença de representantes de diferentes países africanos permite discutir desafios comuns, identificar experiências replicáveis e construir parcerias que reforcem a capacidade das empresas e instituições de formação africanas.
Para Moçambique, o momento é particularmente relevante. Os investimentos em energia, gás natural, mineração, logística e infra-estruturas podem criar uma base importante para a industrialização, mas o seu impacto dependerá da capacidade de gerar fornecedores locais, melhorar a qualificação profissional e elevar os padrões de produção e certificação.
A conferência da TWF oferece, assim, um espaço para discutir uma questão decisiva: como fazer com que os recursos naturais e os grandes projectos deixem de ser apenas fontes de exportação e passem a funcionar como motores de conhecimento, indústria e oportunidades para os moçambicanos e para o continente.
O desafio não será apenas debater ideias durante os três dias de trabalhos. Será transformar os compromissos assumidos em programas de formação, redes empresariais, parcerias tecnológicas e soluções concretas capazes de ampliar a participação africana nos investimentos que estão a moldar o futuro económico do continente.
Fonte: O Económico



