Resumo
A crise na educação técnica e profissional em Moçambique tem prejudicado a formação de mão-de-obra qualificada, afastando os jovens de uma formação prática que os preparava para o mercado de trabalho. Antes, os estudantes podiam ingressar numa escola técnica após a sétima classe e, em três anos, saíam preparados para uma profissão. Atualmente, muitos completam o ensino secundário sem adquirir competências práticas essenciais, regressando depois para uma formação técnica. O país prolongou a educação sem aumentar a sua utilidade prática, levando à necessidade de repensar a política de formação nacional, com a inclusão de componentes técnicas e profissionais nas escolas secundárias. O sistema educativo moçambicano é criticado por estar demasiado focado em exames, sem preparar os estudantes para a produção económica.
A crise silenciosa da educação técnica e profissional em Moçambique tem vindo a comprometer, ao longo dos anos, a capacidade do país de formar mão-de-obra qualificada e transformar os seus próprios recursos em desenvolvimento económico sustentável. O enfraquecimento das escolas técnicas, industriais, comerciais e profissionais afastou milhares de jovens de uma formação prática que, durante décadas, serviu como ponte directa entre a escola e o mercado de trabalho.
Houve um período em que o percurso educacional permitia ao estudante concluir a sétima classe e ingressar imediatamente numa escola técnica industrial, comercial ou profissional. Em apenas três anos de formação, o jovem saía preparado para exercer uma profissão concreta. Carpintaria, serralharia, electricidade, mecânica, contabilidade, agricultura técnica e operação industrial eram algumas das áreas que garantiam não apenas um certificado académico, mas sobretudo um ofício.
Actualmente, o cenário é substancialmente diferente. Em muitos casos, o jovem percorre todo o ensino secundário geral até à décima segunda classe sem adquirir uma competência produtiva concreta. Ao longo desse percurso, acumula conhecimentos teóricos, prepara-se para exames e memoriza conteúdos curriculares, mas termina a formação sem dominar actividades essenciais para uma economia produtiva. Muitos concluem o ensino médio sem saber reparar equipamentos, operar máquinas, transformar madeira, trabalhar metais, instalar sistemas eléctricos, conservar alimentos, explorar tecnicamente os recursos locais ou desenvolver actividades produtivas básicas.
Paradoxalmente, depois de doze anos de escolaridade geral, grande parte desses estudantes regressa aos institutos técnico-profissionais para iniciar uma formação de nível médio que poderia ter começado muito antes. O país, nesse contexto, prolongou o percurso educativo, mas nem sempre aumentou a utilidade prática dessa formação para a vida económica do cidadão.
Importa esclarecer que o problema não está no facto de o jovem estudar até à décima segunda classe. O cerne da questão reside em atravessar mais de uma década no sistema educativo sem sair dele com uma habilidade prática que lhe permita produzir, transformar ou criar valor económico. Escolaridade sem competência prática transforma-se numa promessa incompleta: oferece esperança, mas não oferece instrumentos; entrega diplomas, mas não garante ofícios; produz discursos, mas não necessariamente produção.
Diante desta realidade, cresce o entendimento de que Moçambique precisa repensar profundamente a sua política nacional de formação. Sendo que a maioria das escolas secundárias deveria ser gradualmente transformada ou pelo menos complementada com componentes técnicas, profissionais e produtivas. A lógica seria aproximar a educação das necessidades reais das comunidades e da vocação económica de cada região.
A crítica central é que o sistema escolar moçambicano continua excessivamente orientado para exames académicos, enquanto negligencia a preparação prática o trabalho, a produção e o aproveitamento dos recursos existentes no território nacional. A escola não pode limitar-se a formar jovens para responder testes escritos; deve igualmente prepará-los para construir, reparar, transformar, explorar recursos de forma responsável e gerar riqueza local.
Essa desconexão entre educação e território torna-se evidente em sectores estratégicos da economia nacional. Um dos exemplos frequentemente apontados é o sector de petróleo e gás. Apesar de regiões como Pemba, Palma, Vilankulo e Inhambane possuírem ligação directa com recursos energéticos e costeiros, a maior parte da formação especializada continua concentrada nos grandes centros urbanos.
Na prática, o país forma profissionais longe das zonas onde o recurso existe e, posteriormente, obriga esses técnicos a deslocarem-se para áreas de exploração económica. Em vez de utilizar a educação como mecanismo de fixação de desenvolvimento local, Moçambique acaba por formar quadros para mobilidade territorial, aprofundando desigualdades regionais.
O mesmo fenómeno repete-se na agricultura, um dos sectores com maior potencial económico nacional. Regiões como Chókwè, Manica, Zambézia, Nampula e Niassa possuem forte tradição agrícola e condições naturais favoráveis para expansão da produção. No entanto, nem sempre as escolas locais estão estruturadas para formar técnicos especializados em irrigação, mecanização agrícola, conservação alimentar, agro-indústria ou processamento local de produtos.
Como consequência, surgem situações consideradas contraditórias por diversos observadores: jovens formados em Direito em zonas agrícolas acabam por migrar para os centros urbanos, enquanto técnicos agrícolas formados nas cidades precisam posteriormente regressar ao campo para exercer funções. Esta desorganização entre formação e vocação territorial representa um desperdício de recursos humanos e financeiros.
Defende-se, por isso, que a formação profissional deve obedecer à vocação produtiva de cada território. Em regiões com abundância de madeira, por exemplo, deveriam existir escolas técnicas vocacionais para carpintaria, marcenaria, construção em madeira, mobiliário, estruturas pré-fabricadas, design industrial e tratamento técnico da madeira.
Apesar do vasto potencial florestal do país, Moçambique ainda não desenvolveu uma forte indústria local de construção moderna em madeira, adaptada ao clima nacional e baseada em tecnologia segura e sustentável. Enquanto isso, grande parte da matéria-prima continua a ser exportada em estado bruto ou desperdiçada, ao mesmo tempo que o país importa modelos de construção mais caros.
Nas zonas mineiras, há necessidade de escolas técnicas dedicadas à geologia aplicada, mineração responsável, metalurgia, lapidação, segurança mineira, manutenção de equipamentos e gestão ambiental. Embora Moçambique possua ouro, grafite, carvão e outros minerais estratégicos, muitos jovens continuam a ser formados como se o único objectivo nacional fosse o ingresso universitário, independentemente das potencialidades económicas existentes à sua volta.
O mesmo princípio aplica-se às regiões costeiras. Onde há pesca, deve haver formação técnica em conservação de pescado, frio industrial, construção e manutenção de embarcações, motores marítimos, redes de pesca e gestão costeira. Já nas zonas turísticas, a aposta deveria recair sobre hotelaria, culinária, línguas, guias turísticos, manutenção e gestão de pequenos empreendimentos.
Assim, áreas com produção de carvão, gás natural, grafite, areias pesadas, madeira, algodão, chá, arroz, castanha de caju, mel ou café deveriam possuir escolas articuladas directamente com essas cadeias produtivas. A intenção seria transformar a educação num instrumento efectivo de dinamização económica regional.
Contudo, um dos grandes obstáculos para essa transformação continua a ser a percepção social negativa em relação ao ensino técnico-profissional. Durante anos, consolidou-se a ideia de que as escolas técnicas seriam destinadas aos estudantes que “não conseguiram” seguir o percurso académico tradicional.
E essa mentalidade representa um dos maiores erros estratégicos do país. Uma sociedade que desvaloriza quem sabe produzir, reparar e construir acaba inevitavelmente dependente de quem lhe vende produtos acabados, tecnologia e conhecimento técnico.
Consequentemente, o país passa a importar equipamentos, contratar técnicos estrangeiros e consumir bens produzidos noutras economias, enquanto chama esse processo de modernização. Entretanto, reduz-se internamente a capacidade de criar uma base industrial própria.
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o saber académico não é necessariamente superior ao saber técnico. Um carpinteiro altamente especializado, um serralheiro certificado, um electricista industrial, um técnico de frio, um mecânico ou um operador de máquinas podem gerar impacto económico directo superior ao de muitos licenciados sem competências práticas.
Em várias economias desenvolvidas, sobretudo na Europa, profissões técnicas são altamente valorizadas e bem remuneradas. Países industrializados compreenderam, há muito tempo, que profissionais capazes de executar tarefas concretas são indispensáveis para o funcionamento da economia.
Neste contexto, cresce a convicção de que Moçambique precisa deixar de formar jovens apenas para procurar emprego formal. A prioridade, segundo diversos sectores, deveria ser a formação de cidadãos capazes de criar, produzir, transformar, construir e empreender.
A escola técnico-profissional surge, neste debate, como elo fundamental entre juventude, industrialização e soberania económica. Sem uma rede sólida de formação técnica, discursos sobre reindustrialização, fábricas e desenvolvimento produtivo tendem a permanecer incompletos.
De recordar que as fábricas não funcionam apenas com decretos governamentais ou investimentos financeiros. A industrialização depende sobretudo de mão-de-obra qualificada, disciplina produtiva e conhecimento técnico aplicado.
Diante disso, a reforma do sector educacional deveria começar com uma pergunta estratégica: que tipo de profissional cada distrito precisa formar para aproveitar os seus próprios recursos?
A lógica é simples: aproximar escola, território e economia local. Segundo esta visão, a educação só se transforma em desenvolvimento quando conversa directamente com as necessidades produtivas da região onde está inserida.
O objectivo seria garantir que o aluno termine a formação não apenas com notas e certificados, mas igualmente com uma competência prática concreta capaz de gerar rendimento e autonomia económica.
Moçambique possui recursos naturais diversificados e necessidades económicas urgentes. O país também possui mercados internos por desenvolver e sectores produtivos por expandir. O que falta, é um sistema educativo capaz de ligar todos esses elementos.
No centro deste debate permanece uma questão decisiva para o futuro do país: Moçambique pretende continuar a formar jovens apenas com certificados à procura de vagas ou pretende formar cidadãos com competências capazes de construir, produzir e transformar a economia nacional?






