InícioEconomiaPEQUENOS NEGÓCIOS NÃO BASTAM PARA DESENVOLVER MOÇAMBIQUE

PEQUENOS NEGÓCIOS NÃO BASTAM PARA DESENVOLVER MOÇAMBIQUE

Resumo

Moçambique apostou em programas de financiamento para pequenos beneficiários visando estimular o empreendedorismo juvenil e dinamizar as economias locais, como o "Fundo dos 7 Milhões". No entanto, os resultados ficaram aquém das expectativas, com pouca transformação económica. A dependência de importações e a fraca capacidade industrial persistem, levantando a questão de concentrar fundos em unidades produtivas para gerar impacto duradouro. Exemplos em Maputo mostram que investir em holdings municipais de desenvolvimento industrial poderia ser mais eficaz do que dispersar recursos em microprojectos. Unidades produtivas bem geridas poderiam criar empregos estáveis e impulsionar cadeias económicas locais, como fábricas de uniformes escolares, carpintarias industriais e unidades de reciclagem de plástico. Este modelo de investimento estrutural difere do tradicional microcrédito, promovendo o desenvolvimento económico sustentável em Moçambique.

Por: Gentil Abel

Durante muitos anos, Moçambique apostou em programas de financiamento distribuídos por pequenos beneficiários como forma de estimular o empreendedorismo juvenil, combater a pobreza e dinamizar as economias locais. O exemplo mais conhecido foi o chamado “Fundo dos 7 Milhões”, criado para apoiar iniciativas económicas nos distritos. A intenção era legítima. No entanto, na prática, os resultados ficaram muito aquém da transformação económica que o país necessita.

Sendo que, os pequenos financiamentos ajudaram milhares de cidadãos a iniciar actividades de sobrevivência: bancas, pequenos comércios, prestação de serviços ou compra de equipamentos básicos. Alguns projectos resistiram, outros desapareceram pouco tempo depois. Houve circulação de dinheiro e algum movimento económico, mas não houve mudança estrutural. Assim, o país continuou dependente de importações, com fraca capacidade industrial e poucos empregos formais.

Perante este cenário, Moçambique precisa de fazer uma reflexão séria: continuar a dispersar recursos por centenas de microprojectos ou concentrar parte desses fundos em unidades produtivas capazes de gerar impacto duradouro?

Na verdade, a experiência mostra que financiar apenas pequenos negócios não basta para construir uma economia forte. Um país cresce quando produz, transforma matérias-primas e cria indústrias capazes de gerar emprego estável e riqueza sustentável.

Neste contexto, o caso da cidade de Maputo ajuda a perceber melhor esta discussão. Se cada um dos sete distritos municipais recebesse 10 milhões de meticais para iniciativas juvenis, o valor total chegaria a 70 milhões de meticais. Contudo, distribuído em pequenos apoios individuais, esse dinheiro ajudaria algumas famílias, mas dificilmente alteraria a estrutura económica da capital.

Por outro lado, se o mesmo montante fosse canalizado para uma holding municipal de desenvolvimento industrial, os resultados poderiam ser mais consistentes. Com gestão profissional e fiscalização séria, seria possível criar pequenas unidades produtivas com capacidade de gerar empregos directos e impulsionar cadeias económicas locais.

Por exemplo, uma fábrica municipal de uniformes escolares, batas hospitalares e equipamentos de protecção poderia empregar centenas de jovens. Da mesma forma, uma unidade de montagem e manutenção de drones civis abriria espaço para inovação tecnológica em áreas como agricultura, fiscalização ambiental e monitoria de infraestruturas. Afinal, há jovens moçambicanos com talento nesta área. O que falta é estrutura, investimento e continuidade.

Além disso, o mesmo modelo poderia incluir carpintarias industriais para produção de carteiras escolares e mobiliário público, pequenas metalomecânicas para estruturas urbanas e até unidades de reciclagem de plástico. Aqui, a diferença entre este modelo e o sistema tradicional de microcrédito está na lógica do investimento.

Enquanto no modelo antigo o Estado entrega dinheiro a indivíduos e espera o reembolso, muitas vezes com retorno baixo e fiscalização frágil, numa holding industrial o Estado investe directamente na criação de capacidade produtiva. Consequentemente, o lucro gerado pelas fábricas seria reinvestido para expandir a produção e abrir novas unidades.

Deste modo, o retorno não seria apenas financeiro. Estaria igualmente nos empregos criados, nos salários pagos, nos impostos arrecadados e na redução das importações.

Aliás, esta lógica pode ser aplicada em várias províncias do país, respeitando as potencialidades locais.

Em Manica, por exemplo, seria possível iniciar a recuperação gradual da histórica Textáfrica de Chimoio, começando pela produção de uniformes e vestuário institucional. O objectivo não seria reabrir toda a fábrica de uma só vez, mas criar uma linha produtiva viável e crescer por etapas.

Da mesma forma, nas províncias produtoras de algodão, como Nampula, Cabo Delgado e Niassa, faria sentido apostar em fábricas de transformação de algodão em fio e tecido. Assim, em vez de exportar matéria-prima barata e importar roupa cara, Moçambique poderia desenvolver toda a cadeia de valor têxtil dentro do próprio país.

Por sua vez, a Província de Maputo, especialmente zonas como Matola, Boane e Marracuene, poderia liderar uma reindustrialização semi-pesada. Fábricas históricas como Mabor, Tudor ou Vidreira poderiam ser recuperadas de forma gradual, começando por auditorias técnicas, reabilitação de infraestruturas e parcerias estratégicas.

Entretanto, Gaza tem condições naturais para investir em agro-indústria, incluindo processamento de arroz, produção de rações, conservação de frutas e indústria de carne. Já Inhambane pode apostar no coco, pescado, café racemosa e produtos ligados ao turismo. Por outro lado, Sofala, graças ao corredor da Beira, reúne condições para se tornar um grande centro de processamento, logística e distribuição industrial.

Ao mesmo tempo, Tete, frequentemente vista apenas como província mineira, pode avançar para indústrias ligadas à metalomecânica, materiais de construção e transformação associada ao carvão, sempre com controlo ambiental rigoroso.

Na Zambézia, por exemplo, o chá, o arroz, o coco e até pequenas embarcações podem sustentar uma política industrial provincial. Enquanto isso, Nampula pode fortalecer a agro-indústria ligada ao algodão, caju, mandioca e amendoim. Já Cabo Delgado, além da reconstrução social, precisa criar oportunidades económicas reais para a juventude através da indústria e da transformação agrícola.

Por outro lado, Niassa possui forte potencial na apicultura, madeira, café e grãos. O mel, aliás, pode tornar-se uma indústria estratégica em várias províncias, com unidades de processamento, embalagem e exportação.

Inclusive, até o chocolate pode surgir como projecto-piloto em algumas regiões tropicais do país, desde que haja realismo e visão gradual de crescimento.

Importa ainda destacar que a proposta das holdings provinciais não elimina o pequeno empreendedor. Pelo contrário, cria um ecossistema onde os pequenos negócios passam a integrar cadeias produtivas reais. Assim, o jovem que hoje luta sozinho para manter uma pequena banca poderia amanhã fornecer matéria-prima, prestar serviços, operar máquinas ou criar uma pequena empresa ligada a uma fábrica local.

No entanto, para que isso funcione, estas holdings não podem transformar-se em espaços de interesses políticos. Precisam de gestão técnica, auditorias independentes, metas claras e participação de universidades, sector privado e comunidades.

Por isso, Moçambique deve parar de confundir empreendedorismo de sobrevivência com industrialização. Pequenos negócios são importantes, mas não substituem fábricas, produção nacional e empregos estruturados.

Felizmente, o país possui recursos naturais, juventude e capacidade técnica. Tem algodão, carvão, arroz, chá, café, mel, madeira, pescado, coco e caju. Portanto, o verdadeiro desafio não é falta de potencial, mas sim falta de organização produtiva e visão estratégica.

Diante disso, os programas de financiamento disperso mostraram os seus limites. Agora, o debate precisa de avançar para uma nova etapa: transformar fundos públicos em capacidade produtiva.

Em suma, o desenvolvimento económico não nasce apenas da circulação de dinheiro. Nasce da capacidade de produzir, transformar e gerar valor dentro do próprio país. Moçambique não precisa apenas de distribuir recursos. Precisa, acima de tudo, de voltar a produzir.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu nome aqui
Por favor digite seu comentário!

- Advertisment -spot_img

Últimas Postagens

- Advertisment -spot_img