InícioNacionalCrónicaA GUERRA DO AC NO ESCRITÓRIO

A GUERRA DO AC NO ESCRITÓRIO

Por: Sara Seda

Há duas verdades universais em qualquer escritório moderno: nunca há consenso sobre o horário da reunião… e nunca, em hipótese alguma, existe acordo sobre a temperatura do ar condicionado.

O AC do escritório não é apenas um aparelho, é uma entidade política, um mediador de conflitos, um gerador de microguerras silenciosas. Ele não refresca o ambiente, ele define alianças.

Tudo começa de forma inocente, como quase todas as tragédias corporativas. Alguém chega, olha para o termóstato e diz, com a naturalidade de quem está a comentar o tempo,“está quente aqui.” Cinco minutos depois, outro colega responde, envolto num casaco: “Quente? Isto aqui é a própria antártida.”

E pronto, a paz acabou e formam-se os dois blocos inevitáveis, de um lado, os “Suportadores conspiração contra a produtividade humana. Do outro, os “Sobreviventes do Frio”, que juram que o AC foi programado por alguém que nunca sentiu o sol.

O termóstato, no centro da sala, torna-se o objecto mais vigiado do escritório. Há quem passe por ele com “passos inocentes” e ajuste discretamente meio grau para cima ou para baixo, como quem comete um crime sem testemunhas, outros defendem que o aparelho deve ser protegido com senha.

As reuniões são o auge desta guerra fria (ou quente, depende do lado). Enquanto o gestor fala sobre “sinergias e objetivos trimestrais”, metade da sala está mentalmente ocupada com outra questão mais urgente: quem mexeu no AC? O conteúdo da apresentação perde completamente a importância quando alguém espirra pela terceira vez consecutiva.

O mais curioso é que ninguém está realmente confortável, quem quer frio acha que está um pouco quente, quem quer quente acha que está um pouco gelado e, o escritório inteiro vive num equilíbrio instável.

No fundo, a guerra do AC não é sobre graus Celsius, é sobre controlo de quem decide o ambiente colectivo, pequenas formas de poder disfarçadas de conforto térmico. E assim, entre ajustes secretos no termóstato, casacos estratégicos e olhares de julgamento silencioso, o escritório continua a sua rotina diária um grau de cada vez.

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