A crescente intersecção entre energia, geopolítica e mudanças climáticas está a redefinir o conceito de segurança nacional, transformando a sustentabilidade de uma agenda ambiental numa necessidade estratégica para os Estados.Numa análise publicada por Jordan Nann, da OMFIF, a que o O.Económico teve acesso, defende-se que a dependência de combustíveis fósseis constitui uma vulnerabilidade estrutural crítica, particularmente em contextos de conflito como o actual cenário no Médio Oriente.A instabilidade no Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial — surge como exemplo paradigmático desta fragilidade.Segundo Jordan Nann, o actual contexto geopolítico está a provocar fortes oscilações nos preços do petróleo e do gás natural, com impactos directos sobre a inflação e o crescimento económico global.A análise aponta que o mercado poderá perder volumes significativos de crude e produtos refinados, agravando o desequilíbrio entre oferta e procura e pressionando os preços.Este cenário tende a colocar os bancos centrais perante decisões difíceis, podendo ser forçados a manter políticas monetárias restritivas mesmo em ambiente de desaceleração económica.A autora destaca ainda que as alterações climáticas funcionam como um “multiplicador de ameaças”, ao intensificar instabilidade económica, tensões sociais e riscos políticos.De acordo com a análise, cada aumento de um grau Celsius na temperatura global pode traduzir-se numa redução significativa do produto interno bruto mundial, ilustrando a dimensão económica do problema.Além disso, fenómenos como escassez de recursos, migrações e degradação ambiental tendem a amplificar conflitos existentes, criando ciclos de instabilidade.Jordan Nann sublinha igualmente que a crise actual não afecta apenas o fornecimento de energia, mas também cadeias globais de abastecimento de matérias-primas críticas, essenciais para a indústria e para a transição energética.A interrupção de fluxos comerciais em regiões estratégicas está a afectar sectores como produção industrial, agricultura e tecnologias emergentes, com impactos mais severos nas economias em desenvolvimento.Perante este cenário, a análise conclui que a sustentabilidade deve ser encarada como um pilar de segurança nacional.A redução da dependência de combustíveis fósseis e o investimento em fontes renováveis surgem como caminhos essenciais para reforçar a soberania energética e a resiliência económica.A autora cita ainda responsáveis internacionais que defendem que a segurança energética passa, necessariamente, pela redução da dependência externa e pela diversificação das fontes de energia.Apesar desta evidência, muitos países continuam a privilegiar soluções de curto prazo, como o aumento da produção de carvão e outros combustíveis fósseis, para responder a crises imediatas.Segundo Jordan Nann, esta abordagem pode agravar os problemas estruturais, criando um ciclo em que crises energéticas e climáticas se reforçam mutuamente.A análise conclui que o mundo caminha para um novo paradigma, em que sustentabilidade, segurança energética e estabilidade económica são dimensões inseparáveis.Num contexto de crescente incerteza, a capacidade de integrar estas dimensões nas estratégias nacionais será determinante para a competitividade e segurança dos países.A sustentabilidade deixa, assim, de ser uma opção política para se afirmar como uma exigência estratégica incontornável.
Fonte: O Económico






