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Peter Zalmayev percorre o mundo a defender a Ucrânia: "Sempre que alguém assume o poder, o poder corrompe. Claro que Zelensky quer continuar no poder, continuar popular"

Peter Zalmayev está hoje na Madeira, de férias.

Já não se parece muito com o homem que, antes de a guerra lhe mudar também a geografia, apresentava programas de atualidade internacional na televisão ucraniana — e aparecia regularmente na CNN, BBC ou Al Jazeera para explicar a Ucrânia, a Rússia e o espaço pós-soviético.

A barba cresceu e ganhou cinzento, as camisas ganharam cores, ao pescoço há colares e nos pulsos acumulam-se pulseiras, fios e contas. Também já não passa os dias apenas entre Kiev e Nova Iorque. Atravessa África, a Ásia, a Oceânia, entra em televisões e rádios, encontra políticos e jornalistas, escuta sociedades que não olham para a Ucrânia com os olhos da Europa.

Já o trataram como uma espécie de "ministro dos Negócios Estrangeiros não oficial" e ele próprio já se apresentou como uma espécie de "embaixador itinerante".

A viagem nasceu com 40 países no mapa e, entretanto, ultrapassou o próprio plano. Já passou por 44, 22 deles em África — e pelo caminho foi recolhendo muitas das pulseiras, fios e contas. Não fixou publicamente um novo ponto final. Zalmayev explica que tenta ocupar um espaço que a diplomacia ucraniana, pela dimensão do país e da sua rede externa, não consegue preencher. Em muitos dos lugares por onde passou, Kiev nem sequer tinha embaixada, enquanto Moscovo levava décadas de avanço.

E faz questão de sublinhar que não fala em nome do Governo nem recebe dinheiro dele: apresenta a viagem como uma iniciativa privada, financiada em grande parte com as próprias poupanças. Uma espécie de diplomacia sem credencial, portanto, feita precisamente onde a Ucrânia chegou tarde.

Antes disso houve Donetsk. Uma Donetsk maioritariamente russófona onde nasceu e que Vladimir Putin viria a invocar como uma das razões para a guerra. Peter Zalmayev rejeita a história inteira. "Acho que tudo está a ser falsificado." Saiu da cidade em 1994 para os Estados Unidos com uma Bíblia e a intenção de se tornar pregador, pregou durante algum tempo, abandonou a religião organizada, mas não completamente a maneira de olhar o mundo. "Nunca me afastei verdadeiramente dessa dicotomia nem dessa visão moralista."

Vieram Nova Iorque, os direitos humanos. David e Golias, o certo e o errado, Deus e o diabo — mesmo quando desconfia dessas divisões porque também Moscovo chama Deus para o seu lado da trincheira.

A 11 de setembro de 2001 trabalhava perto das Nações Unidas quando viu as Torres Gémeas na televisão. Comprou uma máquina fotográfica e caminhou na direção do desastre enquanto quase toda a gente vinha no sentido contrário. Em fevereiro de 2022 repetiu, de outra maneira, o movimento. Levou a mulher e os filhos para uma zona mais segura e regressou em direção a Kiev. "Era onde eu tinha de estar. Era ali que tudo estava a acontecer."

Não oferece a decisão como heroísmo. Reconhece antes uma atração antiga pelo risco e a obrigação de estar suficientemente perto para contar.

Quatro anos e meio depois há menos certezas. Zalmayev admite que expulsar todas as forças russas é hoje "irrealista" e que a vitória teve de encolher no mapa para continuar a existir como ideia: sobreviver como Estado soberano, escolher a própria política externa, entrar na União Europeia, conservar a bandeira, o hino, a língua. "Isso, para mim, é uma vitória."

Vladimir Putin, acredita, continua a querer o "prémio inteiro". Donald Trump é um Presidente "situacional" — e a possibilidade de Kiev confiar a própria sobrevivência ao seu capricho leva-o a repetir a palavra. "Capricho. É uma boa palavra: capricho."

Nem Volodymyr Zelensky atravessa a entrevista sem escrutínio. Peter Zalmayev reconhece-lhe inteligência na aproximação à Europa, mas acusa-o de transformar potenciais rivais em inimigos, de alimentar a popularidade daqueles que procura afastar e de se ter tornado "muito mais divisivo e controverso do que poderia ter sido".

Defender a Ucrânia, para ele, não significa suspender a crítica a quem a governa.

Nas viagens encontrou, sobretudo em África, simpatia pela Ucrânia nas ruas e governos para quem Moscovo oferece segurança, armas, negócios e uma memória ainda poderosa da União Soviética ao lado das lutas anticoloniais. Zalmayev viaja para convencer, mas também para ouvir. E para descobrir que, longe da Europa, nem todos reconhecem imediatamente David de um lado e Golias do outro.

Donetsk, essa, ficou a 40 quilómetros de distância uma tarde de 2019 e pareceu-lhe mais longe do que Nova Iorque.

Peter Zalmayev estava debaixo de uma macieira em Kurakhove, olhou através dos campos e soube que havia distâncias que já não se mediam em quilómetros. Hoje admite que talvez nunca volte. Quando volta, é enquanto dorme. "Regresso a Donetsk com bastante frequência nos meus sonhos. Literalmente." Às vezes tenta convencer as pessoas de que precisam de acordar. Nos sonhos. Outras vezes é ele quem caminha pela cidade com medo de ser preso. Ainda nos sonhos.

A guerra ainda não acabou e Zalmayev já conhece uma das coisas que ela pode fazer a um homem: deixar a casa no mesmo lugar e torná-la inalcançável.

Peter, nasceu e cresceu numa Donetsk maioritariamente russófona. Quando Putin afirma que entrou no Donbas para proteger pessoas como aquelas com quem cresceu, que parte da sua própria história sente que está a ser falsificada?

Acho que tudo está a ser falsificado, claro. A começar pela alegação russa de que entraram para proteger a população russófona, que é maioritária naquela região. 

Se eu lhe disser que, mais de uma década depois da agressão inicial da Rússia, em 2014, ainda encontra ucranianos a falar russo nas ruas de Kiev e até de Lviv, percebe que aquilo não era apenas um argumento espúrio. Foi uma fabricação completa para tentar justificar algo que, na essência, é outra coisa: um projeto imperial na Ucrânia, uma tentativa de trazer, essencialmente, uma antiga colónia de volta ao controlo de Moscovo. Para mim, é um argumento ridículo. Mas isso não significa que não tenha sido eficaz.

Em todo o mundo existem conflitos relacionados com etnia, identidade e língua e, por isso, fazer essa afirmação, e continuar a fazê-la de forma tão categórica, tem impacto junto de pessoas que não conhecem bem esta parte do mundo. 

E, como sou ucraniano-americano, tenho dupla nacionalidade, vejo que isto infelizmente também penetrou em determinadas comunidades epistémicas, digamos assim, nos Estados Unidos, através de figuras mediáticas importantes como Tucker Carlson [comentador conservador norte-americano], por exemplo. Desde que começou a invasão em grande escala da Ucrânia, decidiu assumir esta posição de contestação à decisão do Governo norte-americano de apoiar a Ucrânia. E baseia os seus argumentos em alegações de que a Ucrânia persegue a minoria russa, de que persegue minorias religiosas, quando, na realidade, acontece precisamente o contrário.

Quando a Rússia invadiu inicialmente, em 2014, e instigou a guerra no Donbas, no meu Donbas natal, houve pessoas e religiosos protestantes, incluindo batistas, que foram assassinados na região de Donetsk. Foram casos amplamente divulgados. [NdR — Organizações de direitos humanos documentaram em 2014 raptos, tortura e mortes de protestantes por forças separatistas na região.] 

Portanto, isto não é apenas uma fabricação. É virar a realidade completamente ao contrário. E a audácia com que isso é feito é extraordinária. Para mim, enquanto pessoa de Donetsk, é particularmente revoltante.

Saiu de Donetsk em 1994 para estudar a Bíblia e tornar-se pregador. Ainda existe alguma coisa desse pregador na forma marcadamente moral como fala da guerra, separando a verdade da mentira, a resistência da capitulação, as vítimas dos responsáveis?

Sem dúvida. Acho que acertou em cheio com essa pergunta. 

Nunca me afastei verdadeiramente dessa dicotomia nem dessa visão moralista, apesar de já não pertencer a nenhuma religião organizada. No início dos anos 2000, fui trabalhar para uma organização de direitos humanos em Nova Iorque e fiquei responsável pelos países da antiga União Soviética. E muito daquilo que são os direitos humanos seculares, tal como são "pregados", por assim dizer, por organizações como a Amnistia Internacional ou a Human Rights Watch, ou pela organização onde trabalhei, a Liga Internacional para os Direitos Humanos, tem muitas influências cruzadas com a religião. Os direitos humanos e a democracia eram coisas que, no Ocidente, costumávamos dar por garantidas e que podíamos apresentar a outras nações como princípios inquestionáveis.

O Departamento de Estado [norte-americano] costumava publicar — e já nem tenho a certeza de que continue a fazê-lo da mesma forma — relatórios anuais sobre os direitos humanos em todos os países do mundo. Bem, com o novo Governo nos Estados Unidos, já nem sei se os Estados Unidos continuam a defender esses princípios. Mas isso é outro tema de conversa. 

E sim, tudo isso influenciou, claro, a minha forma de pensar quando se trata da Rússia e da Ucrânia. Faz-me lembrar a história de David contra Golias, no Antigo Testamento. O certo contra o errado, o diabo contra Deus. E, de facto, os dois lados recorrem a Deus como seu protetor supremo. É natural ouvir muitos ucranianos patriotas dizerem: "Deus está connosco, vamos vencer”. Mas depois olha-se para aquilo que os russos dizem e dizem exatamente a mesma coisa. Toda a gente tenta usar Deus como cobertura. Toda a gente pensa que a sua causa é justa e que há de prevalecer. E tem sido bastante perturbador ver a religião ser usada desta maneira, cinicamente. 

Além disso, Vladimir Putin também justificou esta guerra como uma guerra civilizacional, uma guerra pelos valores russos contra os valores corrosivos do Ocidente, as pessoas LGBT e todas essas coisas. 

Portanto, a religião também é utilizada para justificar aquilo que o nosso inimigo está a fazer contra um Estado soberano.

Gostava de voltar a fevereiro de 2022. Levou a sua mulher e os seus filhos para uma zona mais segura do país e depois regressou em direção a Kiev. Peter, porque voltou?

Bem, era onde eu tinha de estar. Sempre fui o tipo de pessoa que procura, ou pelo menos aceita, o risco. Sou uma pessoa que corre riscos. Por isso, sem sequer fazer grandes declarações de patriotismo, era ali que eu queria estar. Era ali que tudo estava a acontecer. Não quero que isto soe cínico. Para alguém tão envolvido como eu estava no comentário para os meios de comunicação internacionais, era onde tinha de estar para poder transmitir às pessoas, em todo o mundo, aquilo que estava realmente a acontecer no terreno.

E isso faz-me lembrar, claro, o 11 de Setembro. Eu trabalhava naquela organização de direitos humanos em Nova Iorque, a 11 de setembro de 2001. Tinha acabado de chegar ao trabalho e estava a ver na televisão aquilo que estava a acontecer. A partir da Rua 45, perto das Nações Unidas, comecei a caminhar para sul, em direção ao centro de Manhattan, enquanto a maioria das pessoas caminhava no sentido contrário. Comprei uma máquina fotográfica — ainda não havia smartphones, claro — e fui fotografando as pessoas na rua, caminhando diretamente para o lugar onde estava a acontecer uma das grandes catástrofes do início deste século.

Na Ucrânia aconteceu algo semelhante. Para muita gente, aquilo que aconteceu era tão inimaginável como a destruição do World Trade Center. 

E o paradoxo é que até o nosso Presidente e os seus assessores diziam diariamente aos ucranianos que a Rússia não iria invadir. Há muita coisa a dizer sobre isso e a História julgará o que realmente aconteceu. Zelensky disse que simplesmente não queria que as pessoas entrassem em pânico. Se tinha ou não toda a informação, não sei. 

Eu tive essa informação na própria noite da invasão. Quando fui dormir, disseram-me que uma invasão era muito provável. Mas já ouvíamos isso há algum tempo. Por isso, até ao último momento, as pessoas não acreditaram que fosse acontecer. E aconteceu.

Quando hoje soa uma sirene de ataque aéreo em Kiev, ainda provoca medo ou tornou-se apenas mais um ruído de fundo da cidade? E o que acontece a uma sociedade quando o excecional, o estado de exceção, dura quatro anos e meio?

Gostava de poder dizer que é apenas ruído de fundo. Apesar de se ter tornado o novo normal. 

Nos primeiros dois anos da guerra eu, como muitas outras pessoas, conseguia ignorar os alertas aéreos. Nunca entrei uma única vez num abrigo antiaéreo. Agora é diferente. A frequência e a capacidade destrutiva dos bombardeamentos russos contra as cidades ucranianas, sobretudo contra Kiev nos últimos meses, são de uma ordem completamente diferente daquilo que tínhamos naquela altura.

E é preciso juntar a isso o facto de termos praticamente esgotado os mísseis de defesa aérea, as reservas para os Patriot [sistema norte-americano capaz de intercetar mísseis balísticos]. Talvez alguns estejam guardados para proteger os edifícios governamentais. Mas vimos, nas últimas semanas, uma vaga de 27 mísseis balísticos passar praticamente sem oposição. É uma realidade diferente.

Por isso, o metro fica sobrelotado. Kiev tem uma das redes de metro mais profundas do mundo e as pessoas descem para lá. Vemos até figuras conhecidas, jornalistas conhecidos, apertados no meio da multidão, como toda a gente. Houve pessoas que morreram a caminho de um abrigo. 

Dito isto, as pessoas continuam a tentar manter uma aparência de vida normal em Kiev. Há poucos dias houve um conhecido festival de música eletrónica, com muita gente. Há música, a vida continua. As pessoas vão aos bares, vão aos cafés, simplesmente porque são seres humanos. Tentam ter uma espécie de vida normal e é isso que torna tudo tão surreal. No coração da Europa há mísseis balísticos a voar enquanto as pessoas procuram manter uma vida moderna.

E essa tentativa de normalidade convive com outra realidade: a mobilização. O que está isso a fazer à sociedade ucraniana?

Está a tornar-se cada vez mais difícil. Sobretudo para os homens jovens em idade de mobilização. 

Há pessoas que são levadas da rua para serem recrutadas para o Exército. A Ucrânia ainda tem um longo caminho a percorrer para normalizar este processo. Isso também alimentou a propaganda russa com as imagens de que precisava para retratar os ucranianos como pessoas que não querem combater. 

Mas a questão é que somos todos sociedades modernas. Europa, Rússia, Ucrânia: não creio que se encontrem em lado nenhum muitas pessoas desejosas de ir para a guerra. 

A maioria das pessoas que queria combater e defender a Ucrânia foi para a guerra nos primeiros meses. Agora, os dois países têm problemas de recrutamento. A diferença é que os russos têm dinheiro para pagar, muito dinheiro, grandes prémios de alistamento por contrato. A Ucrânia não tem. Essa é a diferença.

A Ucrânia recebeu este ano muito menos intercetores de defesa aérea, enquanto a Rússia aumentou os ataques com mísseis balísticos. Trata-se apenas de uma escassez de armamento ou os aliados poderão também estar a deixar Kiev mais vulnerável para a obrigar a aceitar concessões?

É uma leitura cínica, mas infelizmente talvez realista. 

Pode fazer parte dos cálculos: sangrar a defesa aérea da Ucrânia até ao limite para a obrigar a fazer essas concessões. Não creio que essa seja a posição dos europeus, mas suspeito que faça parte do pensamento existente na Casa Branca. E a Casa Branca não é, evidentemente, um bloco monolítico. Temos o homem que está no comando, Donald Trump. É um Presidente situacional. Toma decisões com base na última reunião que teve. O seu pensamento está permanentemente a oscilar. Mas depois existem pessoas no Departamento de Estado e noutros níveis que lhe vão apresentando perspetivas diferentes. E algumas são abertamente simpatizantes da Rússia. Já houve casos que se tornaram públicos. Algumas dessas pessoas são casadas com cidadãos russos, algo que, na minha opinião, não teria acontecido durante a Administração Biden.

É bastante extraordinário. Mas mostra que existe uma espécie de braço de ferro dentro do establishment norte-americano. E isso pode ter estado por trás do primeiro anúncio de Donald Trump de que daria à Ucrânia mísseis Patriot, ou pelo menos uma licença para os produzir, para depois mudar de posição antes sequer de chegarmos a essa fase e colocar essa possibilidade em causa. Ficamos a pensar: o que aconteceu realmente? Ainda não temos provas concretas. A História irá julgar e talvez um dia venhamos a saber. Neste momento, só podemos especular e tentar perceber exatamente o que está a acontecer.

Tem descrito Donald Trump como um homem demasiado confiante na sua capacidade de seduzir ou convencer Putin. Mas e se Trump não estiver a ser ingénuo? E se compreender Putin perfeitamente, mas considerar que os interesses dos Estados Unidos justificam um acordo prejudicial para a Ucrânia?

Acho que Donald Trump sabe exatamente o que é bom para a sua família. Nós vimos ao longo dos anos, e sobretudo neste segundo mandato, decisões serem tomadas em função daquilo que determinados países podem oferecer, não apenas aos Estados Unidos, mas à própria família. Isso talvez explique a participação nestas negociações de paz de um membro da sua família, Jared Kushner [genro de Trump], e de Steve Witkoff [amigo de longa data de Trump, empresário do imobiliário e enviado especial da Casa Branca]. São eles que negoceiam com os seus interlocutores, Kirill Dmitriev [dirigente do fundo soberano russo e interlocutor de Moscovo nas negociações] e outros, na Rússia.

E os russos estão constantemente a tentar atraí-los com propostas empresariais lucrativas e outras coisas do género. Eventualmente, quem sabe, até com a possibilidade de construir um grande hotel em Moscovo, uma coisa que Donald Trump procura desde os anos 1980. Mais uma vez, só podemos especular. 

Mas como é que se explica que, em vez de enviar diplomatas comprovados e experientes, sejam estas pessoas que lidam diretamente com Putin? Putin é extremamente experiente em negociações, é um homem do KGB. Conhece a psicologia dos seus interlocutores muito melhor do que estes indivíduos alguma vez conhecerão.

Está então a sugerir que, nestas negociações, Trump pode não estar apenas a pensar no interesse nacional norte-americano?

Acho que Donald Trump tem procurado retirar algum benefício pessoal de todas estas negociações. Mas os russos colocaram as exigências num nível tão elevado — vimos isso no encontro do Alasca, por exemplo — que ainda existe em Washington um consenso bipartidário de que são inaceitáveis.

Donald Trump olha para isso e percebe que simplesmente não tem capital político. Agora está atolado no Irão e os seus índices de aprovação estão na casa dos 30 e poucos por cento. Não tem capital político para impor isto unilateralmente e alinhar com os russos contra os ucranianos. Isso tornou-lhe a vida muito mais difícil.

E Putin também não foi ao seu encontro, quando até algumas pessoas na Rússia começam a pensar que deveria tê-lo feito. Teve aquela oportunidade de ouro no Alasca. Quis tudo. Quis o prémio inteiro. E o prémio continua a ser, o objetivo continua a ser, toda a Ucrânia. Nada menos do que isso. Caso contrário, a guerra continuará. E continua.

Ainda assim, a Ucrânia continua dependente de um Presidente norte-americano que já suspendeu ajuda, pressionou Zelensky e depois voltou a aproximar-se dele. Pode um país organizar a própria sobrevivência em torno do humor político — ou do capricho — de Donald Trump?

Capricho. É uma boa palavra: capricho.

A Ucrânia já não está tão dependente dos Estados Unidos como estava. E talvez isso explique em parte o respeito renovado que Trump tem demonstrado por Zelensky. É um contraste enorme com aquela reunião de há cerca de um ano, em que estava a repreendê-lo e a criticá-lo diretamente, praticamente a provocá-lo, a insultá-lo, a dizer-lhe que não tinha cartas. 

Bem, a Ucrânia mostrou algumas cartas. Estou a falar dos ataques em profundidade dentro do território russo e de outras coisas que toda a gente está a ver com os próprios olhos.

Continuamos dependentes de algo que os Estados Unidos ainda fornecem à Ucrânia: informações militares, informações obtidas por satélite. Quanto ao resto, já não recebemos praticamente nada dos Estados Unidos gratuitamente. 

Quando existe armamento, é vendido aos europeus. São os europeus que o compram em nome da Ucrânia. Portanto, aquela dependência simplesmente já não existe da mesma maneira.

E, voltando à sua pergunta sobre se a Ucrânia pode dar-se ao luxo de depender de Donald Trump: Donald Trump é uma figura política muito pouco fiável, e também uma pessoa pouco fiável. Portanto, evidentemente que não. E Zelensky fez uma coisa inteligente: diversificou as apostas, por assim dizer. Aproximou-se muito mais dos europeus.

Mas o que é que a Ucrânia tem hoje para oferecer aos aliados que não tinha no início da guerra?

Foi ainda mais longe do que a Europa, o que é relativamente invulgar para a Ucrânia. Aproximámo-nos de África e isso também fazia parte da minha missão: complementar os esforços do Governo no relacionamento com os países africanos. Houve também um envolvimento importante com os países do Golfo, com a Arábia Saudita, com os Emirados.

É disto que falo quando falo das “cartas” que a Ucrânia tem. Hoje a Ucrânia consegue exportar, e já exporta, tecnologia e conhecimento no domínio dos drones. Há três anos eram os formadores e especialistas da NATO que treinavam ucranianos algures na Europa. Agora a situação inverteu-se. São os ucranianos que treinam europeus e representantes da NATO na utilização da tecnologia de drones que permitiu à Ucrânia resistir à Rússia de forma assimétrica.

Os ucranianos estão a atacar refinarias, portos, navios e outras infraestruturas dentro da Rússia. Estes ataques podem realmente alterar o curso da guerra ou servem sobretudo para mostrar aos ucranianos e aos aliados que Kiev ainda consegue atingir Moscovo?

Acho que complementam o esforço da liderança ucraniana para mostrar, mais uma vez, que a Ucrânia tem cartas. Para voltar a dar confiança aos nossos aliados, mostrar-lhes que a Ucrânia merece apoio e que tem muito para trazer para a mesa. Por si só, não creio que estes ataques sejam suficientes.

Basta olhar para aquilo que a Rússia tem feito à Ucrânia durante quatro anos e meio e a Ucrânia não cedeu, não se rendeu. A pergunta é: porque haveria a Rússia de se render, tendo um território muito maior, mais população, mais recursos e um controlo muito maior sobre a própria população? Provavelmente há ainda menos possibilidades de isso acontecer.

Existe sempre, claro, a possibilidade de uma revolta vinda de dentro daquele arranjo bizantino que é o poder russo e que muito pouca gente compreende verdadeiramente. Simplesmente não sabemos. 

Mas isso não é uma estratégia. Não se pode construir uma estratégia com base na ideia de: vamos tornar isto tão espetacular, vamos mostrar ao mundo que a Rússia ficou tão vulnerável, que as próprias pessoas em redor de Putin se vão voltar contra ele. Isso não é uma estratégia.

Ainda não aconteceu. Estivemos muito perto de uma situação dessas com a rebelião de Yevgeny Prigozhin, o então chefe do Grupo Wagner, que chegou a iniciar uma marcha sobre Moscovo em junho de 2023. Putin resistiu. Putin sobreviveu. É provável que também sobreviva a isto. Não sabemos.

E Prigozhin acaba morto, sim. Mas esses ataques ucranianos: também estão agora a matar civis russos. Onde coloca o limite?

No fim de contas, isto também se transforma numa questão de justiça. Sim, agora há civis russos a morrer em números maiores do que antes. E as pessoas levantam as mãos e dizem: "Meu Deus, vejam o que a Ucrânia fez”.

Enquanto estamos a falar, segundo os russos, morreram 13 pessoas no Tartaristão, na cidade de Nizhnekamsk [cidade russa a cerca de 800 quilómetros a leste de Moscovo; a Ucrânia afirmou ter atingido a refinaria TANECO no ataque]. Quer por danos colaterais, quer noutras circunstâncias — ainda não conhecemos todos os pormenores —, sim, a morte de civis é sempre uma tragédia.

Mas isto acontece na Ucrânia quase diariamente. Porque é que algo semelhante acontece na Rússia e se transforma imediatamente em notícia de primeira página? 

Quer dizer, voltemos ao básico: quem começou esta guerra? Quem começou a guerra? Quem é, em última análise, responsável pela morte tanto de civis ucranianos como de civis russos? Vladimir Putin. Está nas mãos dele. Não está nas mãos de Zelensky acabar com a guerra.

A progressão russa abrandou e a Ucrânia recuperou alguma iniciativa através dos drones e dos ataques em profundidade. Quem está hoje mais perto de impor as condições da guerra: Putin ou Zelensky? E, sobretudo, o que significa vitória em agosto de 2026? Em 2022, vitória significava expulsar todas as forças russas…

Expulsar todas as forças russas? 

Acho que é irrealista. Mesmo que alguns generais norte-americanos na reserva digam que é possível. Ben Hodges, por exemplo [antigo comandante do Exército dos Estados Unidos na Europa], que conheço e entrevistei várias vezes, considera que é possível. 

Eu acho que é uma tarefa extremamente difícil. Não creio que seja possível neste momento.

Então a vitória tem de ser redefinida?

Acho que sim. E suspeito que a Ucrânia estaria disposta a discutir determinadas concessões territoriais, desde que tudo o resto fosse razoável. 

Putin tem feito exigências completamente irrealistas no que diz respeito à soberania da Ucrânia. Por isso, acho que tivemos de redefinir a ideia de vitória, se não juridicamente, pelo menos de facto. Ainda que a recuperação dos territórios continue a ser o objetivo da Ucrânia e, no mínimo, continue a existir o não reconhecimento da ocupação russa.

Acho que toda a gente compreende que ainda não estamos lá. A Ucrânia não está em posição de recuperar uma grande parte desses territórios. Houve recentemente algum aumento na recuperação de território no Donbas, mas não foi muito significativo.

Para mim, se me pergunta qual é a definição de vitória para a Ucrânia neste momento, quatro anos e meio depois do início desta guerra, é a sobrevivência da Ucrânia enquanto Estado soberano, seja qual for a forma geográfica que venha a ter. 

Podemos discutir a geografia. Podemos negociá-la. Mas a capacidade de o Governo ucraniano definir a sua própria política externa, de entrar na União Europeia, mesmo que não entre na NATO, e de continuar a existir como um país com aquela bandeira azul e amarela, com o seu próprio hino, com a sua própria língua, isso, para mim, é uma vitória.

Defende que Putin não quer apenas território, mas o desaparecimento da Ucrânia enquanto Estado soberano. Ao mesmo tempo, admite que a Ucrânia possa ter de tolerar uma linha de cessar-fogo sem reconhecer juridicamente as anexações. Onde colocaria essa linha?

Pessoalmente, custa-me sequer considerar a possibilidade de Donetsk, a minha cidade natal, poder nunca mais voltar a ser ucraniana. 

Por isso, não quero especular sobre Donetsk ou até, imaginemos, sobre uma situação em que a Rússia conseguisse capturar Kramatorsk ou Sloviansk. Estamos a falar de pessoas que continuam lá, que podem não querer viver sob ocupação russa e que seriam obrigadas a partir para o exílio.

Falamos de centenas, de milhares de vidas e destinos. É muito fácil parecer cruel e insensível quando se fala disto. Mas a realidade é que a Ucrânia pode ter de prescindir de uma parte do território. A questão é que isso simplesmente não está em cima da mesa neste momento. Fala-se de controlo parcial, reconhecimento ou não reconhecimento dos territórios ocupados, de diferentes fórmulas. Por exemplo, deixar a questão da Crimeia para um futuro referendo. Tudo isso é extremamente especulativo nesta fase.

Temos de perceber que nada disto está realmente em cima da mesa para Vladimir Putin. É tão simples quanto isso. Toda essa conversa sobre as negociações de Istambul, em março de 2022, sobre regressar àquela fórmula ou ao chamado "espírito de Anchorage" [expressão usada em torno da cimeira Trump-Putin no Alasca, em agosto de 2025], é manipulação de Putin.

O objetivo dele é muito simples. Para Putin, a Ucrânia tem de regressar à órbita russa e funcionar como parte do sistema controlado por Moscovo, como acontecia durante a União Soviética. Na altura também tinha, nominalmente, alguma autonomia, tinha as suas próprias fronteiras e por aí fora. Tal como a Bielorrússia é hoje, nominalmente, um Estado soberano, mas está sob controlo russo. Essa é a fórmula que Putin está disposto a tolerar.

Pode permitir que a Ucrânia continue a ser um membro separado das Nações Unidas. E não nos esqueçamos de que a Ucrânia e a Bielorrússia já tinham assentos próprios nas Nações Unidas mesmo quando faziam parte da União Soviética [NdR — As repúblicas soviéticas da Ucrânia e da Bielorrússia foram membros fundadores da ONU em 1945]. 

Acho que Putin imagina hoje a mesma fórmula para a Ucrânia: uma entidade política nominalmente soberana, mas firmemente sob controlo político de Moscovo.

Peter, queria também falar de Zelensky. A demissão do ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, provocou protestos nas ruas de Kiev e, dias depois, Zelensky afastou Oleksandr Syrskyi do comando das Forças Armadas e nomeou Mykhailo Drapatyi. Essa capacidade de a sociedade pressionar o Presidente mostra que a democracia ucraniana continua viva. Mas qual foi o maior erro de Zelensky desde fevereiro de 2022? Não o erro que os inimigos da Ucrânia lhe atribuem, mas aquele pelo qual deverá verdadeiramente responder quando voltarem a realizar-se eleições.

Sempre que alguém assume o poder, o poder começa a corromper essa pessoa. E não estou a falar de corrupção no sentido literal. Estou a falar da velha ideia de que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Claro que Zelensky quer continuar no poder. Quer continuar a ser popular.

O erro dele tem sido dar ainda mais dimensão aos próprios concorrentes, às pessoas que identifica como potenciais rivais. Primeiro foi o general Valerii Zaluzhnyi [comandante-chefe das Forças Armadas até 2024 e atual embaixador ucraniano no Reino Unido], que foi afastado do comando e enviado para Londres. Agora é Mykhailo Fedorov.

Quando Zelensky sente que alguém pode tornar-se seu concorrente numa hipotética eleição futura, faz alguma coisa que acaba precisamente por aumentar a popularidade dessa pessoa. E, de facto, isso introduz discórdia na sociedade ucraniana e acaba por prejudicar a unidade da Ucrânia. Foi exatamente isso que aconteceu com Fedorov.

Fedorov tornou-se agora, segundo sondagens recentes, juntamente com Zaluzhnyi, uma das figuras capazes de derrotar Zelensky numa eleição presidencial livre. [NdR — Os dados públicos do Rating Group de julho colocavam Zelensky à frente numa primeira volta hipotética, com 22,3%, seguido de Zaluzhnyi, com 14,9%, e Fedorov, com 13,4%.] E isso é, em grande medida, obra do próprio Zelensky.

Há um elemento de desconfiança, um elemento de ciúme ou inveja política. E isso tornou Zelensky uma figura muito mais divisiva e controversa do que poderia ter sido nesta fase. Infelizmente.

Depois de viajar por dezenas de países em África, na Ásia e na Oceânia, que crítica à Ucrânia mais o incomodou por conter alguma verdade? E o que continua Kiev a não compreender sobre o chamado Sul Global?

No fundo, em muitos dos países por onde viajei, sobretudo nos países africanos, apesar de existir muita simpatia pela Ucrânia entre as pessoas comuns, os governos beneficiam da sua relação com os russos. Há muito cinismo nisso.

Há também os argumentos históricos: a Rússia apresenta-se como herdeira da União Soviética que apoiou a aspiração africana à independência, o Ano de África, em 1960 [ano em que 17 países africanos alcançaram a independência], apoiou o ANC [Congresso Nacional Africano] e Nelson Mandela, por exemplo. 

Claro que nós, ucranianos, temos de lhes recordar que a Ucrânia também fazia parte desse projeto. Era uma das repúblicas constituintes da União Soviética. Não era apenas a Rússia.

Mas, além desses argumentos históricos que a Rússia utiliza em África, alguns destes presidentes têm muito a ganhar numa relação direta com Moscovo. A Rússia exportou os seus próprios homens de segurança para vários destes países africanos. Membros do antigo Grupo Wagner chegaram praticamente a funcionar como guarda presidencial do Presidente da República Centro-Africana, por exemplo. [NdR — A presença militar russa no país continua atualmente através de estruturas que sucederam ao Wagner, incluindo o Africa Corps.]

Na verdade, começaram a gerir muitas coisas por conta própria. Prestam todo o tipo de serviços de segurança, proporcionam oportunidades de negócio e provavelmente, por vezes, haverá subornos diretos. Não sabemos. Não quero especular sobre isso. 

Mas temos de perceber que a Ucrânia não consegue competir com a Rússia nesse nível. Temos a nossa narrativa. Temos a história de David e Golias, que ressoa junto das pessoas. Mas, no fim de contas, os políticos escolhem os seus próprios aliados. E, para muitos deles, a Rússia é um aliado conveniente.

Durante a minha viagem houve também as eleições norte-americanas. Eu estava nas Fiji, no Pacífico Sul, quando Donald Trump ganhou o segundo mandato. Quando esse segundo mandato começou, já estava em África, precisamente em alguns daqueles países que ele tem vindo a menosprezar.

Por exemplo, entrou em confronto com Cyril Ramaphosa, da África do Sul. E depois chamou ao Lesoto "um país de que ninguém jamais ouviu falar". Eu estava no Lesoto quando isso aconteceu. Esse tipo de retórica não ajuda, evidentemente.

E não foi apenas a retórica. A Administração Trump encerrou a USAID [a principal agência norte-americana de ajuda externa deixou de executar programas de assistência a 1 de julho de 2025, tendo parte das funções passado para o Departamento de Estado]. Era um instrumento extraordinário de soft power e de influência norte-americana junto destes países. Essa alavanca desapareceu.

Por isso, podemos realmente culpar as pessoas desses países e os seus governos quando decidem: "Bem, talvez tenhamos de procurar noutro lado. Talvez tenhamos de olhar para Pequim e Moscovo como os nossos novos aliados"?

Isso já começou a acontecer em países como a Tanzânia e o Quénia, que tradicionalmente eram neutros ou gravitavam mais em direção ao Ocidente. E, num país como o Níger, esse processo começou ainda antes da chegada de Donald Trump ao poder. 

De repente, olham para a Rússia como um parceiro muito mais próximo do que anteriormente. Estão a desenvolver relações militares com a Rússia. Portanto, uma parte disto, temos de admitir, é consequência da realidade que hoje existe em Washington.

Tenho uma última pergunta, mais pessoal. Donetsk continua ocupada e talvez já nem seja a cidade que deixou. Ainda imagina regressar a casa? E o que teria de encontrar lá para conseguir dizer que a guerra, mesmo sem recuperar tudo, não venceu?

Há um clássico da literatura norte-americana chamado You Can't Go Home Again [Não se Pode Voltar a Casa, romance de Thomas Wolfe]. E há também aquela expressão de que nunca conseguimos entrar duas vezes no mesmo rio. Quando partimos, mesmo que regressemos um ano depois, o lugar já mudou.

E aqui estamos a falar de uma mudança de paradigma na própria forma como a cidade existe. Provavelmente, a maioria das pessoas que eu conhecia em Donetsk já abandonou a cidade. Não vou lá há mais de dez anos. 

Mas regresso a Donetsk com bastante frequência nos meus sonhos. Literalmente. Há diferentes versões desses sonhos. Às vezes tento iniciar conversas com as pessoas sobre aquilo que está a acontecer, tento dizer-lhes que precisam de acordar para a realidade. Noutras vezes caminho pela cidade permanentemente com medo de ser detido e atirado para uma prisão, que é aquilo que aconteceria.

Se eu regressasse agora, provavelmente considerar-me-iam um traidor. Seria torturado e, provavelmente, morto. Estou a falar a sério. Já aconteceu a outras pessoas e é muito provável que me acontecesse a mim. Por isso, acho que prefiro regressar a Donetsk dessa forma, apenas nos meus sonhos, porque a cidade a que regressaria hoje seria uma cidade muito diferente.

E, mais uma vez, não sei se a Ucrânia conseguirá algum dia libertar Donetsk. Não sei se alguma vez poderei regressar.

Lembro-me de uma pequena história. Estava a visitar familiares meus numa pequena cidade chamada Kurakhove, que entretanto foi capturada pelos russos e ficou praticamente destruída. Estava sentado debaixo de uma macieira e Donetsk ficava a 40 quilómetros dali. Isto foi antes da invasão em grande escala, creio que em 2019.

Eu estava ali, com os meus familiares, a olhar através dos campos e a imaginar Donetsk. E senti que aqueles 40 quilómetros que me separavam de Donetsk eram uma distância muito maior do que os cerca de seis mil quilómetros que me separavam da minha cidade de adoção, Nova Iorque.

 

Fonte: TVI

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