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Petróleo E Juros Derrubam Bolsas E Elevam Custo Do Capital Global

O fim do cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão levou o Brent acima de US$ 91, pressionou as obrigações soberanas e retirou força às principais bolsas. A combinação de inflação energética, juros elevados e dados económicos fracos aumenta os riscos para as economias emergentes.

Os mercados financeiros globais entraram nesta terça-feira, 18 de Agosto, sob uma combinação de aversão ao risco, subida dos preços do petróleo e forte pressão sobre as obrigações soberanas, depois de se reduzirem as perspectivas de um entendimento entre os Estados Unidos e o Irão.

A expiração do cessar-fogo e o anúncio iraniano de uma postura militar “totalmente ofensiva” voltaram a colocar o Estreito de Ormuz no centro das decisões dos investidores. O Brent avançou pelo terceiro dia consecutivo, superando US$ 91 por barril, enquanto o número de navios que atravessam aquela rota permanece reduzido.

A principal preocupação dos mercados já não se limita à disponibilidade de petróleo. O prolongamento das perturbações pode alimentar a inflação, manter as taxas de juro elevadas, encarecer o crédito e reduzir o crescimento económico.

Esta transmissão entre energia, inflação e juros afectou simultaneamente as bolsas, as obrigações, as moedas, o ouro e os activos digitais.

Wall Street Recua Dos Máximos

O S&P 500 encerrou a sessão anterior com uma queda de 0,52%, para 7.745,06 pontos, afastando-se dos níveis históricos alcançados recentemente.

O Nasdaq Composite recuou 0,3%, pressionado pela subida dos rendimentos das obrigações. As empresas de tecnologia e outros negócios de crescimento elevado são particularmente sensíveis às taxas de juro, porque uma parte significativa do seu valor depende de lucros esperados no futuro.

Quando o custo do capital aumenta, esses resultados futuros passam a valer menos em termos actuais. Este mecanismo tende a pressionar empresas com avaliações elevadas, mesmo quando os seus resultados operacionais permanecem sólidos.

O Dow Jones Industrial Average perdeu cerca de 300 pontos, ou 0,6%, na sessão de segunda-feira. A queda foi relativamente generalizada: aproximadamente 350 empresas do S&P 500 terminaram em baixa.

Os sectores da energia e algumas empresas ligadas aos semicondutores estiveram entre as excepções. As petrolíferas beneficiaram do aumento do crude, enquanto determinados fabricantes de componentes continuaram apoiados pelas expectativas de investimento em inteligência artificial.

O índice de volatilidade VIX subiu ligeiramente para 15,19 pontos, permanecendo abaixo dos níveis normalmente associados a situações de tensão extrema. A leitura indica maior prudência, mas não uma retirada desordenada dos investidores.

Resultados Das Empresas Ainda Oferecem Suporte

A correcção de Wall Street ocorre depois de três semanas consecutivas de ganhos no S&P 500 e no Nasdaq, sustentadas pelos resultados empresariais e pelo desempenho das grandes empresas de tecnologia.

Segundo dados da LSEG citados pela Reuters, os lucros agregados das empresas do S&P 500 cresceram 52% no segundo trimestre. Uma parte considerável do avanço esteve concentrada em grupos como Amazon, Microsoft e outras empresas ligadas à inteligência artificial.

O índice negoceia em torno de 20 vezes os lucros esperados, abaixo das aproximadamente 22 vezes observadas no início do ano, mas acima das 19 vezes registadas no final de Julho.

A avaliação deixa o mercado vulnerável a alterações nas taxas de juro e a resultados que não correspondam às expectativas. Mesmo empresas que apresentam crescimento podem sofrer quedas quando as projecções já incorporadas nos preços são demasiado elevadas.

Os investidores aguardam agora os resultados de grandes retalhistas norte-americanos, que poderão fornecer indicações sobre o consumo das famílias. A divulgação assume maior importância depois de as vendas a retalho de Julho terem ficado abaixo das previsões.

Ásia Absorve Choque Energético

As bolsas asiáticas inverteram os ganhos iniciais, à medida que o petróleo e os rendimentos das obrigações aumentaram.

O índice MSCI das acções da Ásia-Pacífico, excluindo o Japão, caiu 0,3%. Taiwan e China estiveram entre os mercados que mais pressionaram o indicador regional.

O Nikkei 225 japonês recuou mais de 2%, para cerca de 67.823 pontos, depois de ter atingido níveis históricos nas semanas anteriores. A bolsa japonesa foi pressionada pelas taxas de juro internas, pelo petróleo e pela possibilidade de uma política monetária menos expansionista.

O rendimento das obrigações japonesas a dez anos subiu para 2,94%, o nível mais elevado em três décadas. A subida encarece o financiamento das empresas e aumenta a atractividade relativa dos títulos de dívida face às acções.

Na Coreia do Sul, o KOSPI chegou a subir mais de 3% no regresso de um feriado, mas eliminou os ganhos e passou a negociar próximo da estabilidade.

O Hang Seng de Hong Kong recuou 0,65%, para cerca de 25.287 pontos. Na Índia, o Sensex perdeu 0,37%, para aproximadamente 77.443 pontos, num mercado particularmente sensível ao aumento do petróleo devido à elevada dependência do país das importações energéticas.

O banco central indiano intensificou as intervenções no mercado cambial para limitar a depreciação da rupia provocada pela pressão sobre a factura petrolífera.

Europa Entra Sob Pressão Das Obrigações

Os mercados europeus iniciaram a sessão em terreno negativo. O Euro STOXX 50 recuou 0,14%, para 6.530,45 pontos, enquanto o FTSE 100 britânico perdeu 0,28%, para 10.720,30 pontos.

Na sessão anterior, o índice pan-europeu STOXX 600 tinha avançado 0,1%, para 658,51 pontos, apoiado pelas empresas mineiras e tecnológicas. O Goldman Sachs elevou a sua previsão de 12 meses para o indicador de 660 para 695 pontos, citando resultados empresariais resilientes e fluxos de investimento para a Europa.

A subida dos rendimentos, porém, introduziu uma pressão contrária. A taxa das obrigações alemãs a dez anos atingiu 3,234%, enquanto a equivalente britânica subiu para 5,088%.

Os bancos podem beneficiar de taxas mais elevadas através de margens financeiras mais amplas. Empresas imobiliárias, de serviços públicos, consumo e outros sectores intensivos em dívida enfrentam, em sentido inverso, custos de financiamento superiores.

As empresas europeias de energia e defesa poderão encontrar suporte na conjuntura geopolítica, enquanto transportadoras, companhias aéreas, indústria química e actividades com elevado consumo energético ficam expostas ao aumento dos custos.

Venda De Obrigações Torna-Se O Principal Sinal De Alerta

O movimento mais significativo da sessão ocorreu no mercado obrigacionista. O rendimento das obrigações norte-americanas a 30 anos atingiu 5,321%, o valor mais elevado desde meados de 2007.

A taxa das obrigações a dez anos subiu para aproximadamente 4,73%, consolidando-se acima do nível de 4,65%, que anteriormente tinha motivado declarações da Administração norte-americana destinadas a acalmar os mercados.

A subida dos rendimentos significa que os preços das obrigações estão a cair. Os investidores exigem maior remuneração para financiar os governos, reflectindo preocupações com a inflação, a dívida pública, a emissão de novos títulos e a trajectória futura da política monetária.

O movimento não está limitado aos Estados Unidos. As taxas das obrigações alemãs, britânicas e japonesas também aumentaram, indicando uma reavaliação global do custo do dinheiro de longo prazo.

Taxas soberanas mais elevadas propagam-se ao crédito à habitação, financiamento empresarial, cartões de crédito, empréstimos ao consumo e dívida das economias emergentes.

Para as bolsas, este movimento eleva a taxa utilizada para calcular o valor presente dos lucros futuros. Para os Estados, aumenta o custo de refinanciamento. Para as empresas, reduz a viabilidade de projectos que dependem de crédito.

Reserva Federal Entre Inflação E Actividade Fraca

Os mercados aguardam a publicação, na quarta-feira, das actas da reunião de Julho da Reserva Federal.

O banco central manteve a taxa dos fundos federais entre 3,50% e 3,75%, mas três membros defenderam um aumento de 25 pontos base. A divergência mostra que parte do Comité considera necessário responder à inflação ainda elevada.

Os dados mais recentes apontam, contudo, para alguma perda de dinamismo da economia. Os Estados Unidos registaram uma redução inesperada do emprego em Julho, inflação ao consumidor abaixo do previsto, vendas a retalho fracas e deterioração da confiança dos consumidores.

Os operadores atribuem uma probabilidade próxima de 65% à manutenção das taxas em Setembro. Esta expectativa limita a subida do dólar, mas não foi suficiente para impedir o avanço dos rendimentos de longo prazo.

O mercado está a distinguir a taxa de curto prazo, directamente influenciada pela Reserva Federal, das taxas longas, que incorporam expectativas sobre inflação, défice orçamental e oferta de dívida ao longo de vários anos.

Dólar Recupera, Mas Permanece Vulnerável

O índice do dólar avançou 0,1%, para 99,60 pontos, recuperando de um mínimo de dois meses. O Euro negociava próximo de US$ 1,1574, enquanto a Libra Esterlina se situava em torno de US$ 1,3536.

A moeda norte-americana encontra-se entre duas forças. A aversão ao risco e a subida dos rendimentos favorecem o dólar, mas a fraqueza dos dados económicos e a menor expectativa de aumento das taxas limitam a valorização.

Uma subida consistente do dólar tende a pressionar as moedas emergentes, aumentar o custo das importações e encarecer o serviço da dívida denominada em moeda estrangeira.

O Yen também permaneceu sob observação depois das recentes intervenções conjuntas destinadas a limitar a sua depreciação. A taxa de juro japonesa a dez anos em máximos de três décadas acrescenta complexidade à actuação do Banco do Japão.

Ouro E Criptoactivos Perdem Força

O ouro caiu cerca de 0,5%, para próximo de US$ 4.396 por onça. A subida dos rendimentos das obrigações aumentou o custo de oportunidade de manter um activo que não paga juros.

O movimento ocorreu apesar do agravamento da tensão geopolítica, que normalmente favorece o metal enquanto activo de refúgio. A pressão dos juros e do petróleo sobrepôs-se, nesta fase, à procura por segurança.

O Bitcoin recuou 0,3%, para aproximadamente US$ 64.160, enquanto o Ether caiu na mesma proporção, para cerca de US$ 1.899.

A descida simultânea do ouro e dos criptoactivos indica que os investidores não estão apenas a procurar protecção contra o risco. Estão também a reduzir a exposição a activos que enfrentam concorrência de obrigações com rendimentos mais elevados.

Energia Divide Vencedores E Perdedores

O aumento do Brent para mais de US$ 91 favorece produtores e empresas ligadas à extracção, serviços petrolíferos e transporte de energia.

Em sentido inverso, companhias aéreas, transportadores rodoviários, indústria química, construção, agricultura mecanizada e empresas com margens reduzidas enfrentam custos operacionais mais elevados.

O petróleo também influencia as expectativas de lucros dos retalhistas. Quando os consumidores gastam mais em combustível, electricidade e transporte, dispõem de menor rendimento para adquirir outros bens e serviços.

A persistência de preços elevados pode produzir uma combinação desfavorável para os mercados: inflação acima das metas, actividade económica mais fraca e taxas de juro prolongadamente elevadas.

Economias Emergentes Enfrentam Tripla Pressão

As economias emergentes estão expostas através de três canais principais: petróleo, juros e dólar.

Os países importadores de energia enfrentam deterioração da balança comercial e aumento da procura de divisas. A subida dos rendimentos norte-americanos pode atrair capitais para os Estados Unidos, reduzindo os fluxos disponíveis para mercados considerados de maior risco.

Ao mesmo tempo, um dólar mais forte aumenta o valor, em moeda local, da dívida externa e das importações.

Países exportadores de matérias-primas podem beneficiar de preços mais elevados, mas esse ganho depende da composição das exportações. Produtores de petróleo tendem a receber receitas adicionais, enquanto exportadores de minerais ou produtos agrícolas podem enfrentar procura global mais fraca se o crescimento desacelerar.

Moçambique Recebe Reflexos Pela Energia, Dívida E Fundo Soberano

Para Moçambique, o principal canal imediato é o petróleo. A subida do Brent aumenta potencialmente a factura de importação de combustíveis, a procura de dólares e os custos de transporte, produção e distribuição.

O efeito pode alcançar os preços dos alimentos e de outros bens, uma vez que o gasóleo é utilizado na agricultura, indústria, construção e transporte rodoviário de mercadorias.

A subida dos rendimentos internacionais também agrava o custo de financiamento externo. Num contexto em que o País enfrenta uma dívida pública elevada e acesso limitado aos mercados, o aumento das taxas de referência globais reduz ainda mais a possibilidade de obter recursos em condições sustentáveis.

O movimento possui igualmente implicações para o Fundo Soberano de Moçambique, que começou a investir em obrigações internacionais durante o segundo trimestre.

Quando os rendimentos das obrigações sobem, o valor de mercado dos títulos existentes tende a cair. A carteira poderá, por isso, registar perdas contabilísticas no curto prazo. Em contrapartida, os novos recursos e os títulos que atingirem a maturidade poderão ser reinvestidos a taxas mais elevadas.

A composição de 70% em activos denominados em dólares e 30% em euros introduz também exposição à evolução das duas moedas. O desempenho deverá ser avaliado separando juros recebidos, variações dos preços dos títulos e efeitos cambiais.

Mercados Passam A Exigir Maior Prémio Pelo Risco

A queda das bolsas permanece moderada quando comparada com a magnitude do movimento nas obrigações. O comportamento sugere que os investidores ainda encontram suporte nos lucros empresariais, mas começaram a exigir maior remuneração para assumir risco.

Se o petróleo permanecer entre US$ 80 e US$ 100 por barril e as taxas de longo prazo continuarem a subir, as avaliações bolsistas poderão enfrentar uma correcção mais ampla, sobretudo nos sectores com múltiplos elevados e forte dependência de financiamento.

Uma solução diplomática no Médio Oriente poderá reduzir o preço da energia, aliviar os rendimentos das obrigações e devolver suporte às acções. O prolongamento do impasse produzirá o cenário contrário: maior inflação, custos de capital superiores e menor espaço para os bancos centrais apoiarem o crescimento.

A evolução dos mercados nas próximas sessões será determinada pelas actas da Reserva Federal, pelos resultados das empresas de retalho e por qualquer sinal de retoma das negociações sobre o Estreito de Ormuz.

Fonte: O Económico

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