Resumo
A AD Sports, projeto pioneiro em Portugal dedicado à narração desportiva para adeptos cegos, prepara-se para transmitir o Portugal-Nigéria. Fundado por Miguel Jorge, o projeto visa proporcionar uma experiência sensorial completa através da audiodescrição, permitindo que os adeptos cegos vivenciem os jogos ao máximo. Com equipamentos como um emissor FM e pequenos rádios, a transmissão é em tempo real, sem atrasos, no estádio e online. A equipa, composta por Miguel Jorge, Bruno Silva, Pedro Fonseca e Carlos Ferreira, destaca detalhes como a posição das equipas, cores dos equipamentos e números dos jogadores. O objetivo é incluir os adeptos cegos na celebração do desporto, tanto no estádio como em casa.
Em Leiria, a propósito do último particular da Seleção antes do Mundial 2026, o Maisfutebol cruza caminho com a AD Sports, projeto pioneiro em Portugal dedicado à narração desportiva para adeptos cegos, sobretudo para aqueles presentes no estádio.
«As pessoas perguntam se o relato radiofónico tradicional não é suficiente. A audiodescrição é algo mais, porque reforça a descrição sensorial. Uma pessoa cega não tem opção sobre o que observar, muitas vezes nem tem essa informação automatizada. Por isso, a nossa missão é traduzir as imagens em palavras, permitindo que estas pessoas consigam vivenciar o momento ao máximo.»
O pontapé de saída é dado por Miguel Jorge, portuense de 32 anos e cofundador da AD Sports. Formado em Gestão de Património, este apaixonado pela rádio aventurou-se na audiodescrição em 2019, quando a UEFA se viu obrigada a formar pessoas em Portugal, a pensar na final-four da Liga das Nações.
Dois anos volvidos, o portuense foi convocado pela UEFA para dar voz à audiodescrição da final da Liga dos Campeões, entre Chelsea e Manchester City.
«Foi a peça final para desenhar a AD Sports». O projeto arrancou no princípio de 2022 e estreou-se em fevereiro desse ano, num FC Porto-Sporting (2-2). A par de Miguel esteve Carlos Ferreira – ou «RoboCop» – o técnico de som.
Tendo os adeptos no estádio como prioridade, a AD Sports investiu em equipamentos como um emissor FM e pequenos rádios, para que a emissão seja acompanhada em tempo real. Ao contrário dos relatos radiofónicos “tradicionais”, esta transmissão não sofre qualquer atraso, uma vez que o emissor está no estádio.
Para tal ser possível, a AD Sports pagou uma licença junto da Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM), que designa uma frequência FM de curto alcance (um quilómetro).
«Queremos que o adepto cego possa celebrar ao mesmo tempo que os restantes adeptos. São das pessoas mais esquecidas nos estádios. E também nos podem acompanhar em casa, via online, com ligeiro atraso, mas possível de sincronizar com a televisão.»
Em Leiria, a comitiva da AD Sports vai para o “Ar” a 15 minutos do Portugal-Nigéria. Sem intervalo, sem publicidade. Uma emissão feita a três vozes e para lá das duas horas. Junto ao narrador Miguel Jorge está outro narrador, Bruno Silva, e o comentador Pedro Fonseca. Em silêncio, mas atarefado, está o «mestre do som», Carlos Ferreira.
Nesta missão, todos os detalhes contam, conforme explica Miguel.
«Descrevemos a nossa posição no estádio, referimos que equipa entra à direita e à esquerda, e detalhamos as cores e o padrão dos equipamentos: frente da camisola, calção, meias e costas da camisola. E é importante lembrar os números dos jogadores. Durante a partida devemos ser pragmáticos, referindo detalhes como a cor da bola, das bandeiras de canto, fitas e adereços dos jogadores. Até os passos para trás numa bola parada, ou o braço que se levanta.»
«Uma pessoa cega de nascença disse-me, após um jogo, que não fazia ideia de que a bola ia ao centro do relvado depois de um golo. Noutra ocasião, uma criança disse-me que ficou sem perceber se um canto foi à esquerda ou à direita. E isso marcou-me.»
Quanto ao comentador, Pedro Fonseca aproveita o arranque da emissão para «mapear os jogadores» e informar sobre as estruturas táticas. O detalhe tem palco durante o intervalo, pois deve ser simples e conciso durante a partida.
A AD Sports cresceu e conta com sete elementos – três narradores (Bruno Silva, Miguel Jorge e Pedro Pereira), dois comentadores (Luís Perfeito e Pedro Fonseca) e dois técnicos (Carlos Ferreira e Paulo Silva) – mas ninguém vive do projeto. Conforme conta Miguel Jorge, o dinheiro amealhado é «reinvestido, para o projeto se torne sustentável no longo-prazo».
Aquele FC Porto-Sporting em fevereiro de 2022 serviu de mote para percorrer o país. No mês seguinte, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) convidou à narração audiodescritiva dos jogos da Seleção no play-off para o Mundial 2022. Em janeiro de 2023, a Liga Portugal convocou a AD Sports para a final-four da Taça de Liga – elo que prevalece. Entretanto, as narrações no Dragão são imagem de marca e em Alvalade são cada vez mais frequentes.
«Esta época, pela primeira vez, estivemos em todos os momentos altos. Estivemos na Supertaça (Algarve), na Taça da Liga (Leiria), na Taça de Portugal – de forma inédito no Jamor – e no jogo que deu o título ao FC Porto. No futebol feminino estamos a dar os primeiros passos.»
Para Miguel, a próxima conquista deveria ser a implementação da audiodescrição nos estádios da Liga, conforme acontece em Inglaterra e na Alemanha. Até para servir de exemplo a outras indústrias.
Ainda que critique o desmedido investimento em influencers e dinâmicas bacocas, o entrevistado do Maisfutebol garante que há países vizinhos mais atrasados. De tal forma que, em novembro, a AD Sports foi chamada ao estádio do Real Madrid para cobrir um jogo de NFL.

No princípio de junho, a Fundação FPF lançou a app “Sentido”, plataforma que reúne funcionalidades como língua gestual, audiodescrição e legendagem descritiva. Nessa app, a AD Sports vai narrar os jogos de Portugal no Mundial 2026 a partir de um estúdio no Porto.
Sobre os próximos meses, a inserção das emissões em mais estádios e noutras modalidades está na agenda. Mais importante, Miguel Jorge e companhia procuram complementar a narração com tabuleiros táteis que permitem acompanhar o rumo da bola. Já foi possível no passado, mas de forma efémera.


Já lá vão quatro anos, quatro épocas e meia, mais de 160 jogos, 82 equipas e 11 estádios.
À margem desta aventura, cada elemento tem uma vida profissional – ao fim do dia, o verdadeiro sustento. Por agora. Em todo o caso, a gratidão que recebem dá alento e tem valor distinto. Antes do Portugal-Nigéria em Leiria, a comitiva almoçou na casa de Leonel Soares, um amigo da AD Sports.
«É um ouvinte que se tornou próximo. Ficou cego em três meses. Desde então, trata de reunir grupos de adeptos cegos e respetivos acompanhantes para irem aos estádios, ou a eventos que envolvam a audiodescrição. Está sempre presente e tem muita força nesta comunidade. É uma inspiração.»
«O nosso grande trabalho acontece nos estádios, junto das pessoas, para percebermos como melhorar», remata Miguel Jorge.
Fonte: TVI







