A produção de electricidade nas centrais hidroeléctricas em Moçambique registou uma queda significativa de cerca de 30% no último ano, num contexto marcado por condições climáticas adversas e limitações operacionais no sistema energético.Segundo dados reportados pelo jornal Notícias, o desempenho foi fortemente condicionado pelo fenómeno climático El Niño, que reduziu drasticamente os níveis de precipitação e, consequentemente, a disponibilidade de água nas principais albufeiras do país.Este impacto foi particularmente visível na Hidroeléctrica de Cahora Bassa, onde a escassez hídrica tem vindo a afectar a capacidade de geração desde 2023.A redução das chuvas na bacia do Zambeze — uma das principais fontes de abastecimento hídrico — resultou numa diminuição significativa dos níveis de água em barragens estratégicas como Cahora Bassa, Corumana, Massingir e Chicamba.De acordo com o Notícias, este cenário conduziu a uma produção anual de cerca de 11,2 milhões de megawatts-hora (MWh), abaixo dos níveis registados no período anterior.O impacto da seca evidencia a elevada dependência do sistema energético moçambicano em relação à hidroelectricidade, tornando-o particularmente vulnerável a choques climáticos.Para além dos factores climáticos, a produção foi igualmente afectada por medidas operacionais adoptadas para preservar a sustentabilidade das infra-estruturas.Entre estas destacam-se limitações nas descargas de água e ajustes na gestão das albufeiras, incluindo a coordenação com sistemas regionais como Kariba.Estas medidas, embora necessárias para garantir a viabilidade de longo prazo dos empreendimentos, tiveram como efeito imediato a redução da produção de energia.A quebra na produção teve repercussões económicas directas, incluindo uma redução na facturação do sector energético. Segundo o mesmo relatório citado pelo Notícias, a facturação registou uma queda de cerca de 3% em termos homólogos.Adicionalmente, o contexto operacional levou à implementação de medidas restritivas no fornecimento de energia, incluindo cortes de carga e revisão de contratos com grandes consumidores, particularmente nos sectores industrial e urbano.Estes desenvolvimentos evidenciam o papel crítico da energia como insumo fundamental para a actividade económica.Apesar da queda na produção hidroeléctrica, o sistema beneficiou de algum efeito de compensação através das centrais térmicas, que registaram um desempenho relativamente positivo.Segundo o Notícias, estas centrais produziram cerca de 3,1 milhões de MWh, correspondendo a uma execução de 97,6% do plano anual.Paralelamente, a rede eléctrica nacional continuou a expandir-se, com o aumento do número de ligações e melhoria dos níveis de acesso à energia, sinalizando avanços estruturais no sector.O episódio reforça uma realidade estrutural: a interdependência entre clima, energia e economia. A elevada dependência da hidroelectricidade torna o sistema energético moçambicano particularmente sensível a variações climáticas.Num contexto de alterações climáticas mais frequentes e intensas, esta vulnerabilidade tende a acentuar-se, exigindo uma reavaliação do modelo energético.A queda na produção hidroeléctrica coloca em evidência a necessidade de diversificar a matriz energética nacional. Investimentos em fontes alternativas, como gás natural, energia solar e eólica, surgem como elementos fundamentais para reduzir a dependência hídrica.Moçambique dispõe de recursos significativos nestas áreas, o que abre espaço para uma transição energética mais equilibrada e resiliente.Apesar dos avanços registados na expansão do acesso à energia, o sector enfrenta desafios estruturais que exigem respostas estratégicas. A combinação de crescimento da procura, limitações de oferta e vulnerabilidade climática coloca pressão adicional sobre o sistema.O momento actual exige não apenas respostas conjunturais, mas uma abordagem integrada que alinhe investimento, planeamento e sustentabilidade.A queda de 30% na produção hidroeléctrica deve ser encarada como um sinal de alerta. Mais do que um episódio isolado, trata-se de um indicador das fragilidades estruturais do sistema energético.A capacidade de aprender com este contexto e implementar reformas será determinante para garantir a segurança energética e sustentar o crescimento económico no médio e longo prazo.
Fonte: O Económico





