O Reino Unido lançou, em parceria com a FSD Africa e o Governo moçambicano, o programa RAIZ, uma iniciativa destinada a criar novas formas de financiamento para pequenas empresas que possuem potencial de crescimento, mas permanecem fora do alcance dos instrumentos tradicionais oferecidos pela banca.
RAIZ significa Resilience, Adaptation and Innovation in Mozambique — Resiliência, Adaptação e Inovação em Moçambique — e procura estabelecer no País um mercado de financiamento para empresas em fases iniciais, combinando capital catalítico, assistência técnica e apoio ao desenvolvimento do ecossistema.
Segundo informações apresentadas durante o lançamento e recolhidas pelo Semanário Económico, o programa parte de um investimento inicial de quatro milhões de libras e pretende mobilizar aproximadamente 20 milhões de libras adicionais ao longo de uma primeira fase de três anos.
A comunicação institucional da FSD Africa confirma que a iniciativa foi concebida para testar e ampliar novos modelos de financiamento, desenvolver a capacidade dos investidores nacionais e atrair, progressivamente, recursos públicos, privados e de instituições de desenvolvimento para pequenas empresas em crescimento. A nota oficial, porém, não detalha os montantes nem a duração divulgados nas intervenções realizadas durante o lançamento.
RAIZ Não É Uma Nova Linha Convencional De Crédito
A principal diferença do programa está na sua natureza. O RAIZ não foi apresentado como um fundo que receberá candidaturas e concederá directamente empréstimos às empresas.
O ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Miro Albino, explicou que a iniciativa pretende encontrar soluções para pequenas e médias empresas que já demonstram potencial, mas não conseguem obter financiamento na fase inicial de crescimento.
“O RAIZ não é uma linha de financiamento. É um projecto orientado para encontrar soluções de financiamento para as pequenas e médias empresas naquela fase inicial de crescimento”, afirmou o governante durante o lançamento.
A distinção é importante. Uma linha de crédito distribui recursos através de condições previamente definidas. Uma iniciativa de construção de mercado procura identificar por que razão o financiamento não chega às empresas, testar novos produtos, reduzir riscos, desenvolver intermediários e demonstrar aos investidores que determinados segmentos podem tornar-se comercialmente financiáveis.
Neste modelo, os quatro milhões de libras não correspondem necessariamente a dinheiro que será integralmente entregue às empresas. Parte dos recursos poderá financiar assistência técnica, preparação de negócios, desenvolvimento de instrumentos, recolha de dados, apoio aos investidores e absorção de determinados riscos iniciais.
Capital Catalítico Deve Atrair Recursos Que Hoje Não Entrariam No Mercado
A FSD Africa caracteriza o RAIZ como uma iniciativa baseada em capital catalítico.
Este conceito refere-se a recursos públicos ou de desenvolvimento utilizados para assumir riscos que investidores comerciais não aceitariam inicialmente, criando condições para atrair capital adicional.
O objectivo anunciado de mobilizar cerca de 20 milhões de libras adicionais significa que o programa pretende transformar cada libra inicial em aproximadamente cinco libras provenientes de outros financiadores.
A lógica está alinhada com as boas práticas internacionais de financiamento combinado. A OCDE recomenda que os recursos concessionais sejam utilizados apenas quando conseguirem mobilizar financiamento comercial adicional, responder a uma falha de mercado comprovada e produzir resultados de desenvolvimento mensuráveis. (OECD)
O capital catalítico poderá assumir diferentes formas, incluindo garantias parciais, cobertura das primeiras perdas, assistência técnica, financiamento subordinado, participação no capital ou apoio à estruturação de fundos.
Os instrumentos concretos do RAIZ ainda deverão ser definidos através do diálogo entre Governo, instituições financeiras, investidores e empresas. O programa funcionará, assim, como uma plataforma de experimentação e não como um produto único estabelecido antecipadamente.
Financiamento Às PME Continua A Perder Espaço Na Economia
O lançamento ocorre num contexto em que o financiamento bancário ao sector privado permanece limitado.
Segundo o Banco Mundial, o crédito ao sector privado em Moçambique diminuiu de 19,3% do Produto Interno Bruto, em Novembro de 2023, para 16,5% em Novembro de 2025. A redução indica que empresas e famílias passaram a receber uma parcela menor dos recursos financeiros disponíveis relativamente ao tamanho da economia.
Um diagnóstico anterior do Banco Mundial e da Corporação Financeira Internacional estimou que a lacuna de financiamento das pequenas e médias empresas correspondia a aproximadamente 10% do PIB. O mesmo estudo indicava que cerca de três quartos das PME permaneciam financeiramente excluídas. Os números referem-se a estimativas anteriores, mas ajudam a demonstrar a dimensão estrutural do problema.
As empresas de menor dimensão enfrentam taxas de juro elevadas, insuficiência de garantias, fraca qualidade das demonstrações financeiras, reduzido histórico bancário e limitada capacidade para preparar projectos de investimento.
Uma empresa pode possuir clientes, mercado e capacidade produtiva, mas continuar sem acesso ao crédito porque não dispõe de património para oferecer como garantia ou porque o banco não possui informação suficiente para avaliar o risco.
Agronegócio Exige Produtos Diferentes Do Crédito Comercial Tradicional
O agronegócio surge entre as prioridades do RAIZ porque apresenta características pouco compatíveis com os produtos bancários convencionais.
A produção agrícola depende de ciclos sazonais, clima, disponibilidade de água, preços, armazenamento, transporte e acesso aos mercados. O rendimento não é gerado mensalmente e pode sofrer alterações significativas entre a plantação e a comercialização.
Empréstimos com prestações imediatas, prazos curtos e garantias imobiliárias tornam-se inadequados para grande parte dos produtores e das pequenas empresas rurais.
O financiamento poderá precisar de períodos de carência, pagamentos alinhados com as colheitas, seguros agrícolas, garantias parciais, leasing de equipamentos, financiamento de facturas e crédito baseado em contratos de fornecimento.
O RAIZ poderá ajudar a testar estes modelos e produzir informação sobre o seu desempenho. Caso os resultados demonstrem viabilidade, bancos, fundos e instituições de desenvolvimento poderão ampliar a sua aplicação.
O Banco Mundial identifica o agronegócio, florestas e pescas entre os sectores com potencial para impulsionar investimento privado, crescimento e emprego em Moçambique.
Economia Azul Precisa De Capital Compatível Com A Sua Estrutura
A economia azul também foi indicada como área prioritária, abrangendo actividades relacionadas com pescas, aquacultura, serviços costeiros, conservação, logística e utilização sustentável dos recursos marítimos.
Moçambique possui uma costa superior a 2.400 quilómetros, mas muitas empresas que operam nesta cadeia permanecem pequenas, informais e com reduzida capacidade de investimento.
Embarcações, equipamentos de refrigeração, processamento, conservação e transporte exigem capital que ultrapassa frequentemente a capacidade financeira dos pequenos operadores.
Ao mesmo tempo, a exposição a eventos climáticos, variação dos recursos pesqueiros e exigências ambientais aumenta a percepção de risco.
O programa poderá contribuir para identificar actividades que combinam viabilidade económica, criação de emprego e conservação dos ecossistemas, evitando que o conceito de economia azul se transforme numa categoria excessivamente ampla e sem critérios claros.
Resiliência Climática Precisa De Ser Convertida Em Modelo De Negócio
A FSD Africa considera que as pequenas empresas podem desempenhar um papel importante na adaptação de Moçambique às alterações climáticas.
Podem desenvolver sistemas de irrigação, sementes resistentes, previsão meteorológica, armazenamento, energias renováveis, seguros, gestão de resíduos, protecção costeira e outras soluções.
O desafio reside em transformar benefícios sociais e ambientais em receitas capazes de sustentar o negócio e remunerar os investidores.
A FSD Africa afirma que os seus programas de financiamento em fase inicial procuram apoiar empresas que desenvolvem soluções para os desafios de sustentabilidade do continente, combinando demonstração comercial e mobilização de capital.
A experiência internacional mostra que assistência técnica e preparação empresarial são particularmente importantes nestes sectores. O capital, isoladamente, não resolve deficiências na gestão, contabilização, certificação, tecnologia ou acesso aos compradores.
Mulheres E Jovens Precisam De Critérios Mensuráveis
O programa pretende dar atenção particular aos negócios liderados por mulheres e jovens, sobretudo nas zonas rurais.
A Alta-Comissária britânica em Moçambique, Helen Lewis, destacou o papel das mulheres na produção agrícola, segurança alimentar e resiliência das famílias, bem como a contribuição dos jovens para a inovação e transformação económica.
Para que esta prioridade produza resultados, será necessário definir critérios concretos.
O programa deverá esclarecer o que considera uma empresa liderada por mulheres ou jovens, que percentagem dos recursos lhes será destinada e que obstáculos específicos pretende remover.
A participação não deverá ser medida apenas pelo número de beneficiários. Importará acompanhar o valor médio do financiamento, sectores apoiados, sobrevivência das empresas, crescimento das receitas e presença das mulheres e jovens na propriedade e gestão dos negócios.
A nova estratégia do Grupo Banco Mundial para Moçambique, referente ao período 2026–2031, também coloca mulheres e jovens no centro da mobilização de investimento privado em sectores com elevado potencial de emprego, incluindo o agronegócio.
Moeda Do Financiamento Será Uma Questão Determinante
O programa é financiado em libras, mas a maior parte das pequenas empresas moçambicanas obtém receitas em meticais.
Financiamentos concedidos directamente em moeda estrangeira podem criar um risco cambial elevado. Uma empresa rural que vende no mercado nacional poderá enfrentar dificuldades se o Metical se depreciar, aumentando o valor das prestações sem que as suas receitas acompanhem a mesma evolução.
Os instrumentos deverão, por isso, procurar disponibilizar financiamento em moeda nacional ou criar mecanismos de protecção cambial.
O capital internacional poderá ser canalizado através de instituições locais, garantias e fundos capazes de assumir ou distribuir o risco da conversão monetária.
A sustentabilidade não será determinada apenas pela taxa de juro nominal. Também dependerá de comissões, garantias, prazos, moeda, período de carência e previsibilidade do fluxo de caixa.
Programa Deve Trabalhar Com A Banca Sem Reproduzir As Mesmas Barreiras
A intenção de envolver instituições financeiras é central para que as soluções testadas permaneçam no mercado depois do encerramento da primeira fase.
Contudo, colocar os recursos exclusivamente nos bancos, mantendo os mesmos requisitos de garantias e avaliação, poderá reproduzir a exclusão que o programa pretende corrigir.
A IFC desenvolveu mecanismos de garantia de primeiras perdas destinados a incentivar bancos, instituições de microfinanças, empresas de leasing e financiadores digitais a ampliar o crédito a PME, empresas rurais, negócios de mulheres e projectos climáticos.
Este tipo de solução reduz uma parte do risco assumido pelo financiador, mas preserva a obrigação de avaliar a capacidade do negócio e recuperar o empréstimo.
O RAIZ poderá explorar estruturas semelhantes, adequadas à realidade moçambicana, sem substituir integralmente o risco privado por recursos públicos.
Alinhamento Com A Estratégia Nacional Evitará Uma Iniciativa Isolada
Moçambique lançou a Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031, que amplia o conceito de inclusão para abranger digitalização, financiamento verde, acessibilidade e sustentabilidade do sistema financeiro.
O RAIZ deverá articular-se com esta estratégia, com os programas de garantias, fundos existentes, instituições financeiras, iniciativas do Banco Mundial e o futuro Banco de Desenvolvimento.
A coordenação é necessária para impedir que diferentes parceiros financiem diagnósticos e projectos semelhantes sem escala suficiente para alterar o mercado.
O programa poderá ocupar um espaço específico: testar instrumentos, criar dados, preparar empresas e demonstrar modelos que posteriormente sejam adoptados por instituições financeiras permanentes.
Mobilizar Capital Não É O Mesmo Que Desembolsar Às Empresas
O objectivo de mobilizar 20 milhões de libras adicionais deverá ser acompanhado por uma definição rigorosa do que será contabilizado como capital mobilizado.
Um investidor pode assumir um compromisso sem realizar imediatamente o desembolso. Um fundo pode ser constituído, mas demorar a seleccionar empresas. Uma garantia pode permitir a aprovação de crédito, mas parte da carteira pode não chegar às actividades prioritárias.
As boas práticas da OCDE recomendam que os programas de financiamento combinado apresentem informação sobre os recursos públicos aplicados, capital privado efectivamente mobilizado, retornos comerciais e resultados de desenvolvimento alcançados.
No caso do RAIZ, será necessário divulgar quanto foi comprometido, desembolsado, recuperado e reinvestido, bem como a distribuição por sector, província, género e idade dos beneficiários.
Resultados Precisam De Ser Medidos Para Além Do Número De Empresas
A avaliação do programa não deverá limitar-se ao número de pequenas empresas participantes.
Entre os indicadores relevantes estarão o capital privado atraído, custo médio do financiamento, número de empresas que obtiveram crédito pela primeira vez, crescimento das receitas, empregos criados, sobrevivência dos negócios e capacidade de pagamento.
Também importará determinar se os modelos continuam a funcionar sem apoio concessionado.
Uma solução pode apresentar bons resultados durante a fase-piloto porque recebe subsídios elevados, assistência intensiva e garantias extraordinárias. A verdadeira demonstração ocorre quando investidores e instituições locais decidem continuar a utilizá-la com menor apoio externo.
Mudança Britânica De Doador Para Investidor Será Avaliada Pela Execução
Helen Lewis apresentou o RAIZ como parte de uma nova abordagem britânica para África, mais orientada para investimento e mobilização de capital privado.
“Estamos a transformar-nos de um doador para um investidor no povo e nas potencialidades de Moçambique”, declarou a diplomata.
A mudança representa uma tentativa de utilizar recursos públicos limitados para gerar investimentos de maior dimensão, em vez de financiar exclusivamente programas através de subvenções.
Contudo, a lógica de investimento exige maior disciplina: selecção transparente, empresas viáveis, responsabilização dos gestores, recuperação dos recursos e demonstração de impacto.
O financiamento ao desenvolvimento não pode tornar-se apenas uma nova designação para projectos assistenciais. Também não deve exigir retornos comerciais incompatíveis com os objectivos de inclusão e construção de mercado.
RAIZ Será Relevante Se Criar Um Mercado Que Permaneça Depois Do Programa
O investimento inicial de quatro milhões de libras é reduzido quando comparado com a dimensão das necessidades de financiamento das PME moçambicanas.
Entretando, se combiando com outras iniciativas, o valor fara uma diferenca relevante, o mesmo equivale dizer que, o programa poderá contribuir para construir uma nova base de financiamento produtivo. Caso permaneça concentrado em assistência técnica, eventos e compromissos não desembolsados, o impacto será limitado perante a dimensão da lacuna existente.
Fonte: O Económico





