Resumo
A transição energética em Moçambique está a focar-se em mobilizar investimento, estruturar parcerias e concretizar projetos, conforme discutido na RENMOZ 2026. A conferência reuniu mais de 500 participantes de 18 nacionalidades, destacando o papel do setor privado, do Governo e das instituições financeiras no desenvolvimento do setor energético moçambicano. O Ministro dos Recursos Minerais e Energia salientou a importância das energias renováveis para o acesso à energia, industrialização e competitividade económica do país, realçando o papel central do setor privado. Parcerias e investimentos públicos e privados são essenciais para alcançar as metas de eletrificação de Moçambique e promover a inclusão social e o desenvolvimento económico. A abordagem da RENMOZ visa passar "da oportunidade à implementação concreta", aproximando diferentes atores para impulsionar projetos no terreno e criar impacto duradouro.
A transição energética em Moçambique entrou numa fase em que o desafio central já não é apenas identificar o potencial do país, mas mobilizar investimento, estruturar parcerias e transformar oportunidades em projectos concretos. Esta foi uma das principais mensagens deixadas pela RENMOZ 2026 – 5.ª Conferência Empresarial Renováveis em Moçambique, realizada nos dias 11 e 12 de Junho, em Maputo.
A conferência reforçou o seu papel como plataforma de articulação entre o sector público, o sector privado, instituições financeiras, investidores e parceiros de desenvolvimento, num momento em que Moçambique procura acelerar o acesso universal à energia, expandir a capacidade de geração e transmissão, dinamizar soluções fora da rede e consolidar-se como mercado estratégico para as energias renováveis.
Com mais de 500 participantes, provenientes de 18 nacionalidades, e 30 reuniões realizadas, a RENMOZ 2026 confirmou a crescente mobilização em torno do sector energético moçambicano. A participação empresarial assumiu particular destaque, representando 45% dos participantes, seguida pelo Governo e instituições moçambicanas, com 39%, e pelas instituições financeiras, com 10%.
Sector Privado No Centro Da Nova Agenda Energética
Na sessão de abertura, o Ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estevão Pale, sublinhou que as energias renováveis são fundamentais para acelerar o acesso à energia, apoiar a industrialização, criar emprego e aumentar a competitividade da economia nacional.
“Alcançar o acesso a energia, industrializar o país, gerar emprego e aumentar a competitividade da economia implicam grandes investimentos, e para os alcançar o sector privado ocupa um lugar central na nossa visão para o país”, afirmou o governante.
A mensagem é particularmente relevante num contexto em que Moçambique mantém metas ambiciosas de electrificação e procura transformar a energia num factor de inclusão social, desenvolvimento territorial e produtividade económica. O desafio passa por combinar investimento público, capital privado, financiamento concessional, mitigação de riscos e modelos de negócio capazes de tornar viáveis projectos em diferentes escalas.
A mesma perspectiva foi reforçada pelo Embaixador da República Federal da Alemanha em Moçambique, Ronald Münch, que destacou a importância das parcerias e da abordagem Team Europe para acelerar a implementação de projectos. Segundo o diplomata, o foco da RENMOZ está em passar “da oportunidade à implementação concreta”, aproximando actores públicos, privados e financeiros para fazer avançar projectos no terreno.
Da Oportunidade À Implementação
A RENMOZ 2026 procurou afirmar-se menos como espaço de diagnóstico e mais como plataforma de decisão, continuidade e concretização. A Presidente da ALER, Mayra Pereira, sintetizou esta ambição ao defender que a conferência existe para criar condições para que as decisões aconteçam, para que as conversas continuem depois do evento e para que a confiança necessária ao investimento seja construída.
Este ponto é central para o sector energético moçambicano. O país dispõe de elevado potencial em energia hidroeléctrica, solar, eólica, biomassa, mini-redes, cozinha limpa e usos produtivos de energia, mas a transformação desse potencial em capacidade instalada, ligações efectivas e serviços sustentáveis depende de projectos bem estruturados, financiamento adequado e previsibilidade institucional.
Ricardo Pereira, Presidente da AMER, reforçou a leitura optimista sobre o futuro do sector, afirmando que “o melhor de Moçambique está ainda à nossa frente” e garantindo que a associação continuará ao lado dos actores que trabalham para fazer avançar as energias renováveis no país.
Projectos De Mais De 7,7 Mil Milhões De Dólares Em Destaque
Um dos pontos mais relevantes da conferência foi a apresentação de oportunidades concretas em geração, transmissão, mini-redes, usos produtivos de energia e cozinha limpa.
A Electricidade de Moçambique apresentou 16 projectos de geração e 11 projectos de transmissão, num volume superior a 4,6 mil milhões de dólares. Estes projectos são essenciais para reforçar a capacidade do sistema eléctrico, melhorar a segurança de abastecimento, reduzir défices de infra-estrutura e apoiar a integração de novas fontes renováveis.
A Hidroeléctrica de Cahora Bassa apresentou igualmente projectos estratégicos, incluindo a Nova Central Norte, com capacidade prevista de 1.245 MW, uma central solar de 400 MW e a modernização da Central Sul. No conjunto, as oportunidades apresentadas pela HCB ultrapassam 3,1 mil milhões de dólares.
Somadas, as oportunidades destacadas pela EDM e pela HCB ultrapassam 7,7 mil milhões de dólares, evidenciando a escala do investimento necessário para modernizar, expandir e diversificar o sistema energético nacional.
Mini-Redes E Energia Fora Da Rede Ganham Relevância
A conferência deu também destaque às mini-redes e às soluções fora da rede, fundamentais para acelerar o acesso à energia nas zonas rurais e apoiar actividades económicas locais.
Foram identificadas oportunidades associadas a sete pré-clusters, 100 locais e nove potenciais usos produtivos de energia. Esta abordagem é relevante porque liga electrificação rural, desenvolvimento de pequenas actividades económicas, agro-processamento, serviços, comércio, educação, saúde e inclusão territorial.
As mini-redes permitem responder a contextos em que a extensão imediata da rede nacional pode não ser financeiramente viável, oferecendo soluções descentralizadas, adaptadas às necessidades locais e com potencial para gerar impacto económico directo nas comunidades.
No entanto, a expansão deste segmento exige modelos tarifários sustentáveis, financiamento adequado, mecanismos de garantia, clareza regulatória e maior envolvimento de operadores privados. Sem estes elementos, o potencial das soluções fora da rede pode continuar limitado pela dificuldade de mobilizar capital e assegurar viabilidade comercial.
Financiamento Continua A Ser O Principal Desafio
A 5.ª edição do “Resumo: Renováveis em Moçambique”, apresentada durante a conferência, confirma o forte potencial do país, mas também evidencia a dimensão do desafio financeiro.
A taxa de electrificação atingiu 66,4% em 2025, num contexto em que Moçambique mantém a meta de alcançar o acesso universal à energia até 2030. Ao mesmo tempo, a capacidade instalada deverá mais do que triplicar, passando de cerca de 2,9 GW em 2025 para cerca de 9,5 GW em 2032, mantendo-se as energias renováveis como componente dominante da geração eléctrica.
Para concretizar esta ambição, a Estratégia de Transição Energética estima necessidades de financiamento de 18,6 mil milhões de dólares até 2030 e superiores a 80 mil milhões de dólares até 2050.
Entre 2013 e 2024, foram investidos 755 milhões de dólares em energias renováveis em Moçambique. Contudo, apenas 20% desse montante teve origem no sector privado. Este dado mostra que o país precisa de reforçar instrumentos de mitigação de risco, financiamento estruturado, garantias, preparação de projectos bancáveis e maior participação de investidores privados nacionais e internacionais.
Anúncios Reforçam Caminho Para A Execução
A RENMOZ 2026 ficou marcada por vários anúncios e iniciativas destinados a acelerar a passagem da agenda estratégica para a implementação.
Entre os principais destaques estiveram a apresentação do PROMIR-MZ, o anúncio do lançamento de um concurso para mini-redes no segundo semestre de 2026, a assinatura do Subsidiary Agreement – PURE, os progressos do programa PROLER e o acordo de financiamento da ElectriFI à Source Energia, destinado a apoiar a mobilização de capital para projectos de energias renováveis em Moçambique.
Estes instrumentos são importantes porque respondem a um dos maiores obstáculos do sector: transformar intenções, planos e potencial técnico em projectos financiáveis, com capacidade de execução e impacto real no acesso à energia.
Biocombustíveis Entram Na Agenda De Implementação
No segundo dia, a conferência incluiu sessões dedicadas ao desbloqueio de investimento para um crescimento energético inclusivo, à cooperação regional em energia nos países da CPLP e à simulação de uma sala de negócios.
Destaque também para o Seminário Nacional de Biocombustíveis 2026, organizado pelo Ministério dos Recursos Minerais e Energia com apoio técnico da GreenLight Africa. O seminário procurou deslocar o debate da política para a implementação, discutindo dinamização do mercado, mobilização de investimento, coordenação institucional, financiamento, infra-estruturas, logística e desenvolvimento da cadeia de valor dos biocombustíveis.
A inclusão dos biocombustíveis na agenda reforça a ideia de que a transição energética moçambicana não será feita apenas pela expansão da electricidade renovável, mas também por soluções capazes de responder aos desafios dos transportes, da cozinha limpa, da agricultura, da indústria e da substituição gradual de combustíveis mais poluentes.
Uma Plataforma Para Ligar Visão, Capital E Projectos
Organizada pela AMER e pela ALER, em parceria com o programa europeu GET.invest, financiado pela União Europeia e pela Alemanha, a RENMOZ 2026 beneficiou do apoio das autoridades moçambicanas, da União Europeia, de parceiros internacionais no âmbito da abordagem Team Europe e da parceria estratégica da SNV.
A conferência confirmou que Moçambique dispõe de activos relevantes para se afirmar como pólo regional de energia, mas também deixou claro que o futuro do sector dependerá da capacidade de mobilizar capital, reduzir riscos, estruturar projectos e garantir execução.
Num país que procura acelerar o acesso universal à energia, reforçar a capacidade de geração e transmissão, dinamizar o sector fora da rede e criar condições para a industrialização, a transição energética terá de ser tratada como uma agenda económica, financeira e de desenvolvimento.
A RENMOZ 2026 mostrou que existe interesse, projectos e capital potencial. O próximo passo será transformar esta convergência em investimento efectivo, ligações eléctricas, capacidade instalada, emprego, serviços produtivos e maior competitividade para a economia moçambicana.
Fonte: O Económico



