No lançamento do seu mais recente livro, intitulado, “Repensar o Desenvolvimento Económico e o Papel do Estado: Dilemas, Desafios e Tendências, o autor e também Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, propôs uma abordagem conceptual densa para interpretar os desafios do desenvolvimento em Moçambique, estruturada em torno de seis “nervuras” — eixos fundamentais que moldam a trajectória económica do país.Segundo o autor, estas “nervuras” representam as lentes através das quais se pode compreender a realidade económica, social e institucional, num exercício que parte de “fé, dúvidas, interrogações, preocupações, convicção e inconformismo”.A primeira nervura aponta para uma crítica directa ao modelo de crescimento prevalecente.Valá alerta que “crescimento sem diversificação, sem inclusão e sem transformação estrutural, não leva ao desenvolvimento, mas pode conduzir a ilusões estatísticas” .A leitura é clara: indicadores macroeconómicos positivos podem mascarar fragilidades profundas na estrutura produtiva, na distribuição de rendimento e na qualidade do crescimento.A segunda nervura centra-se no papel do Estado e das instituições.Para o autor, “sem capacidade institucional, sem um Estado forte, empreendedor e meritocrático, qualquer estratégia de desenvolvimento pode ficar no papel” .Esta perspectiva recoloca o debate sobre desenvolvimento no domínio da governação, da qualidade das políticas públicas e da eficácia da implementação.Uma das rupturas mais relevantes no pensamento apresentado surge na terceira nervura, que desafia a narrativa dominante sobre recursos naturais.Valá sustenta que “a nossa vantagem competitiva não está no subsolo, mas na inteligência criativa do povo”, defendendo uma aposta estratégica no capital humano.Esta visão desloca o centro da estratégia económica dos recursos extractivos para as pessoas, com implicações profundas para as políticas públicas.A quarta nervura projecta o futuro da economia num contexto de crescente centralidade do conhecimento.Segundo o autor, “o futuro de prosperidade consiste numa aposta pesada na educação, inovação, tecnologia e juventude”, sublinhando a importância de explorar o dividendo demográfico .Este eixo introduz uma dimensão intergeracional no debate económico, associando crescimento a capacidades e competências.A quinta nervura introduz uma reflexão menos comum: a distinção entre disponibilidade de financiamento e qualidade da sua utilização.Valá observa que Moçambique dispõe de instrumentos relevantes — como FDEL, FGA, FRE e mecanismos do Banco de Moçambique — mas alerta para a necessidade de melhorar a qualidade da procura económica, através de melhor gestão, empreendedorismo e governação corporativa .A questão deixa de ser apenas “quanto financiar”, passando a ser “como e para quê financiar”.A sexta nervura sintetiza os riscos sistémicos enfrentados pelo país.O autor alerta para a necessidade de evitar uma armadilha caracterizada por “baixo crescimento, dívida elevada, baixa renda, poucos empregos e pobreza alta” .Neste ponto, a qualidade das instituições volta a assumir centralidade como factor de coordenação e inclusão.A reflexão de Salim Valá surge num contexto que o próprio descreve como de “ansiedade” e “economia anémica”, em que muitos cidadãos questionam a dificuldade do “parto para o desenvolvimento económico” .Ao recuperar a história de resiliência do país, o autor sublinha também os custos da complacência e a necessidade de reformas profundas, ancoradas em boas políticas, instituições sólidas e quadros competentes.Mais do que um exercício académico, as “nervuras” propostas configuram um verdadeiro chamamento estratégico à reorientação do modelo de desenvolvimento de Moçambique.Ao articular crescimento, instituições, capital humano e transformação estrutural, Salim Valá oferece uma grelha de leitura que transcende o momento e se posiciona como referência para o debate económico nacional.
Fonte: O Económico




