Resumo
Em 2025, a Aeroportos de Moçambique (ADM) enfrentou uma diminuição no tráfego aéreo, receitas e carga movimentada, interrompendo a recuperação pós-pandemia. A empresa movimentou 1.863.779 passageiros, 9,3% menos do que em 2024 e 14,9% abaixo de 2019. As receitas caíram 5%, ficando 23% abaixo do planeado e 9% menos do que antes da pandemia. A ADM atribui o desempenho desafiante a problemas operacionais da Linhas Aéreas de Moçambique e instabilidade social. O tráfego de passageiros atingiu apenas 82,2% da meta anual, com 54.492 movimentos de aeronaves, 10,9% menos do que em 2024. A redução de voos afeta a mobilidade empresarial, turismo, logística e outros setores. No transporte de carga, houve uma queda de 28,4%, com 7.842 toneladas processadas em 2025.
A Aeroportos de Moçambique (ADM) encerrou 2025 com uma contracção do tráfego aéreo, das receitas e da carga movimentada, numa trajectória que interrompeu a recuperação gradual registada depois da pandemia. O Relatório e Contas da empresa pública indica que o sistema aeroportuário nacional movimentou 1.863.779 passageiros no ano passado, menos 9,3% do que em 2024 e cerca de 14,9% abaixo do nível alcançado em 2019.
O desempenho traduziu-se num volume de negócios de MT 2.859,2 milhões, equivalente a uma redução de 5% face ao ano anterior, 23% abaixo do plano e 9% inferior ao registado antes da pandemia. Para uma empresa cuja receita depende directamente do número de voos, passageiros, carga e serviços associados à actividade aeroportuária, a redução de tráfego voltou a expor a vulnerabilidade financeira do sector aéreo moçambicano.
A ADM reconhece que 2025 foi um ano particularmente desafiante para a aviação. O recuo esteve associado aos constrangimentos operacionais da Linhas Aéreas de Moçambique, sobretudo à indisponibilidade de aeronaves da sua frota, e ao contexto de instabilidade social que se prolongou até Fevereiro, afectando a mobilidade de pessoas e bens, a procura por viagens e a regularidade de algumas operações.
Passageiros Atingem Apenas 82% Da Meta Anual
O tráfego de passageiros ficou em 1.863.779 unidades, correspondendo a 82,2% da previsão anual de 2.268.879 passageiros. Em 2024, os aeroportos nacionais tinham atendido 2.055.435 passageiros, enquanto em 2019, antes da pandemia, o sistema tinha movimentado cerca de 2,19 milhões de passageiros.
A quebra de passageiros foi acompanhada por uma redução ainda mais expressiva no movimento de aeronaves. Em 2025, a ADM registou 54.492 movimentos, abaixo dos 61.182 observados em 2024, representando uma redução de 10,9%. O número correspondeu a 81% da meta definida para o ano e ficou também abaixo dos níveis anteriores à pandemia.
A evolução revela que a recuperação do sector não depende apenas da procura dos passageiros. Depende, igualmente, da disponibilidade e estabilidade operacional das companhias aéreas, em particular da LAM, que continua a deter o maior peso na aviação doméstica e na conectividade entre Maputo, capitais provinciais, zonas turísticas e centros económicos regionais.
A redução das ligações domésticas tem um efeito económico que ultrapassa a actividade aeroportuária. Menos voos significam menor mobilidade empresarial, menor circulação de turistas, mais dificuldades para o transporte de quadros e equipamentos, menor integração territorial e custos mais elevados para actividades como turismo, comércio, logística, mineração, agricultura e serviços.
Carga Cai Mais De Um Quarto
A desaceleração foi ainda mais acentuada no transporte de carga. A ADM processou 7.842 toneladas em 2025, contra 10.958 toneladas no ano anterior, uma redução de 28,4%. O resultado correspondeu a apenas 64,8% da meta prevista para o exercício e ficou muito abaixo dos volumes registados antes da pandemia.
O movimento de correio também recuou, totalizando 275 toneladas, menos 43,5% do que em 2024 e apenas 53,5% do valor planificado para o ano. Já os sobrevoos apresentaram comportamento diferente: alcançaram 32.901 unidades, superando ligeiramente a meta e ficando acima do nível registado em 2024.
A contracção da carga é particularmente relevante porque limita a capacidade dos aeroportos de diversificarem as suas fontes de receita. Num mercado com menor densidade de passageiros e ligações regulares ainda insuficientes, a carga aérea pode desempenhar papel importante para produtos de maior valor, mercadorias urgentes, medicamentos, equipamentos, pescado, flores, produtos agrícolas perecíveis e componentes industriais.
A recuperação deste segmento exigirá, contudo, melhor ligação entre aeroportos, operadores logísticos, companhias aéreas, exportadores e serviços aduaneiros, bem como uma oferta mais regular e competitiva de voos de carga ou capacidade disponível nos voos comerciais.
Nacala Contraria A Tendência
O desempenho não foi uniforme entre as diferentes unidades de produção. Segundo o relatório da ADM, o Aeroporto de Nacala foi o único a superar, em 2025, o número de passageiros atendidos no ano anterior, com crescimento de 7,96%.
O documento assinala igualmente que Pemba, Vilankulo e Nacala ultrapassaram os volumes de passageiros registados em 2019. Este dado sugere que alguns mercados específicos continuam a demonstrar capacidade de recuperação, apoiados por actividades económicas locais, turismo, operações empresariais, procura institucional e ligações regionais.
Vilankulo beneficia da procura associada ao turismo de lazer e ao acesso ao arquipélago de Bazaruto. Pemba mantém importância estratégica por estar ligada às operações económicas e humanitárias em Cabo Delgado. Nacala, por sua vez, combina o potencial logístico do corredor norte, a presença portuária, actividades económicas na região e a possibilidade de servir uma área de influência mais ampla.
A leitura dos dados sugere que a recuperação da aviação nacional poderá ser desigual e territorialmente diferenciada. Enquanto os principais aeroportos dependem fortemente da regularidade dos voos domésticos e internacionais, alguns mercados podem ganhar dinamismo quando associados a turismo, logística, indústria, recursos naturais ou corredores de desenvolvimento.
LAM Continua Central Para A Recuperação
A LAM manteve-se como a maior transportadora de passageiros no sistema aeroportuário nacional, representando 54% do total movimentado em 2025. A empresa concentra a sua actividade sobretudo nas ligações domésticas, o que torna a sua estabilidade operacional determinante para o desempenho dos aeroportos e para a conectividade interna do país.
No segmento regional e internacional, a SA Airlink destacou-se com 14% dos passageiros transportados, enquanto outras companhias, incluindo Qatar Airways, Ethiopian Airlines e TAP, mantiveram um papel relevante na ligação de Moçambique aos mercados externos.
A estrutura do tráfego confirma um desafio central: a conectividade aérea nacional continua excessivamente dependente de uma companhia de bandeira que atravessa um processo de reestruturação operacional, financeira e societária. Qualquer redução de frota, cancelamento de voos ou limitação de rotas produz efeitos imediatos sobre a ADM, o turismo, os negócios e a mobilidade dos cidadãos.
A recuperação sustentável do sistema aeroportuário dependerá, por isso, não apenas da modernização das infra-estruturas, mas também de uma solução consistente para a operação da LAM, do reforço da concorrência, da entrada de novas rotas, do aumento da previsibilidade dos horários e da melhoria da articulação entre transporte aéreo, turismo e logística.
Alívio Contabilístico Não Resolve Pressão Operacional
Apesar da redução da actividade e das receitas, a ADM registou uma melhoria relevante nos resultados operacionais em 2025, impulsionada pelas reversões de perdas por imparidade associadas ao movimento de saneamento da dívida da LAM.
Segundo o Relatório e Contas, as reversões de imparidade atingiram MT 1.192 milhões positivos, contrastando com MT 583 milhões negativos registados em 2024. O efeito reflecte a regularização de valores em dívida da transportadora aérea à ADM, contribuindo para reduzir a pressão contabilística acumulada nos exercícios anteriores.
Este dado é importante, mas deve ser lido com prudência. A reversão de imparidades melhora a posição contabilística e reduz perdas reconhecidas anteriormente, mas não substitui o crescimento recorrente da actividade aeroportuária. A sustentabilidade financeira da empresa continuará a depender da recuperação do tráfego, da cobrança regular de taxas e serviços, do controlo de custos e de uma estratégia de receitas que reduza a dependência exclusiva do movimento de passageiros.
Os outros custos operacionais aumentaram para MT 367,4 milhões, contra cerca de MT 201,5 milhões no exercício anterior, pressionando a estrutura de custos num período em que o volume de negócios encolheu.
Recuperar Tráfego, Não Apenas Equilibrar Contas
Os resultados de 2025 colocam a ADM perante uma dupla exigência. Por um lado, a empresa precisa de preservar a segurança, a qualidade e a operacionalidade das infra-estruturas aeroportuárias, num país com grande extensão territorial e necessidades significativas de conectividade. Por outro, precisa de acelerar a recuperação da actividade comercial e encontrar novas fontes de receitas.
A prioridade passa por assegurar maior regularidade na aviação doméstica, reforçar a ligação entre aeroportos e destinos turísticos, atrair operadores regionais, melhorar as condições para o transporte de carga e tornar os serviços aeroportuários mais competitivos.
A recuperação também dependerá da evolução da economia nacional. Mais turismo, maior actividade empresarial, projectos de gás, mineração, agro-indústria, logística e comércio regional poderão elevar a procura por transporte aéreo. Mas este potencial só se converterá em movimento efectivo se houver companhias com frota disponível, rotas rentáveis, preços acessíveis e confiança dos passageiros.
A ADM fechou 2025 com um alívio contabilístico relevante decorrente do saneamento da dívida da LAM. O desafio de 2026 e dos anos seguintes será transformar esse alívio numa recuperação operacional mais sólida, capaz de devolver os aeroportos nacionais aos níveis de actividade anteriores à pandemia e de reforçar o seu papel como infra-estrutura estratégica para o crescimento económico do país.
Fonte: O Económico






