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Vozinha é um de nós e aquelas lágrimas são também as nossas: obrigado, por isso!

Resumo

A espera na fila da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa é descrita como um verdadeiro purgatório, com mais de três horas de pé, sem bancos, numa experiência exaustiva. O autor destaca a calma e serenidade de Vozinha, guarda-redes de Cabo Verde, que aguardava na mesma fila, contrastando com a impaciência dos restantes. Após enfrentar a burocracia, Vozinha revelou-se como um herói ao brilhar no jogo contra Espanha, emocionando a todos. O autor reflete sobre como estrelas do futebol como Cristiano Ronaldo não passariam por esta situação, tornando Vozinha um exemplo de humildade e resiliência.

Há um purgatório na terra e quem já teve a infelicidade de passar por ele, sabe do que eu falo. Chama-se Embaixada dos Estados Unidos, na Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, e é um teste à resistência humana.

Pelo menos para quem não chega antes das sete da manhã.

Eu cometi esse erro e foram mais de três estoicas horas de pé, sem um banco, uma cadeira, um muro que fosse onde me sentar. De uma fila para a outra, de um controlo para outro, num ritual interminável de mostra papel, mostra passaporte, esvazia os bolsos.

Os telemóveis ficam à porta, o que nos obriga a mergulhar por três horas na Idade Média.

Não deixa de ser giro, durante dez ou quinze minutos: olhamos para o teto e interrogamo-nos como sobrevivemos aos anos oitenta. Depois torna-se um aborrecimento de morte.

Pois há umas semanas, como já disse, calhou-me a mim. Bufava, olha para o relógio, insultava mentalmente a burocracia americana.

Três ou quatro pessoas à minha frente na fila, estava um indivíduo alto, atlético, com umas mãos enormes. Mostrava uma serenidade que roçava o budismo zen. Identifiquei-o rapidamente: era Vozinha, o guarda-redes de Cabo Verde.

E fiquei a olhar para ele, com admiração.

Enquanto todos nós, as cerca de quinze ou vinte pessoas que entravam de cada vez, murmurávamos pragas, ele mantinha-se impávido. Sempre com a mesma expressão no rosto.

Depois de talvez uma hora na rua, ao frio porque daquele lado não bate o sol, após passar pelo primeiro controlo, após mais uma hora na segunda fila à entrada de uma parte antiga do edifício, fomos colocados num corredor. Onde apareceu um senhor, de caneta na mão, a perguntar o motivo da viagem e o que fazíamos na vida, antes de riscar o formulário DS-160.

Vozinha disse que ia em trabalho, por causa do Campeonato do Mundo. Que era jogador da seleção de Cabo Verde. O funcionário da embaixada desejou-lhe boa sorte.

E eu fiquei a imaginar Cristiano Ronaldo durante três intermináveis horas naquela fila. A explicar a um funcionário que era jogador da seleção de Portugal. Ou Ruben Dias. Ou João Félix, Bruno Fernandes, João Cancelo, Diogo Costa.

Impensável, não é?

Pois, impensável para eles, que são megaestrelas. Para Vozinha foi provavelmente mais um dia normal. Por isso o que ele fez ontem, frente à Espanha, deixou-me quase emocionado.

O primeiro herói do Mundial, não foi um jogador qualquer. Foi um de nós. Que, se for preciso, espera três horas de pé, ao frio, ao nosso lado.

Aquelas lágrimas que soltou no fim, quando caiu no relvado, foram as lágrimas de todos nós.

 

Fonte: TVI

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