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África Instada A Canalizar Capital Interno Para Infra-Estruturas Face À Escassez De Financiamento Externo

África enfrenta um paradoxo estrutural: apesar do crescimento significativo do capital interno, a sua capacidade de transformação em investimento produtivo continua limitada. Segundo um relatório recente da Africa Finance Corporation (AFC), o volume de recursos financeiros detidos por instituições africanas aumentou cerca de 25% em 2025, ultrapassando os 2 biliões de dólares, impulsionado sobretudo pela valorização do ouro nos mercados internacionais .Contudo, este aumento não tem sido acompanhado por uma expansão proporcional do investimento em sectores estratégicos, particularmente nas infra-estruturas, consideradas essenciais para o crescimento económico e integração regional.O contexto global tem vindo a alterar-se de forma significativa. Choques externos, tensões geopolíticas e o aumento do endividamento soberano estão a reduzir a capacidade dos países africanos de captar financiamento internacional para projectos de desenvolvimento.De acordo com o relatório da AFC, esta realidade torna imperativo que os Estados africanos mobilizem e canalizem os seus próprios recursos para financiar infra-estruturas e projectos estruturantes .Este reposicionamento implica uma mudança de paradigma: de uma dependência histórica de financiamento externo para uma abordagem centrada na mobilização de capital doméstico.A insuficiência de infra-estruturas continua a ser um dos principais entraves ao desenvolvimento económico do continente. Limitações ao nível da conectividade, logística e energia reduzem a eficiência dos mercados, aumentam custos e comprometem a integração regional.“África não será moldada apenas pela esperança, mas pelo que construirmos”, afirmou o CEO da AFC, Samaila Zubairu, sublinhando a necessidade de transformar capital financeiro em activos produtivos que gerem emprego e crescimento .O relatório aponta ainda que muitos dos projectos já implementados não atingem o seu pleno potencial devido à falta de interligação entre infra-estruturas, evidenciando a necessidade de uma abordagem mais integrada e sistémica.Um dos principais desafios identificados reside na forma como o capital interno é alocado. Grande parte dos recursos detidos por instituições financeiras africanas continua a ser investida em activos de baixo risco, como títulos da dívida pública, em detrimento de investimentos produtivos de maior impacto económico.Esta tendência limita a capacidade do continente de transformar poupança em crescimento, reduzindo o efeito multiplicador que investimentos em infra-estruturas poderiam gerar.A fraca qualidade e cobertura das infra-estruturas tem implicações directas na integração económica africana. Segundo a União Africana, o comércio intra-africano continua limitado, a industrialização avança de forma desigual e a exposição a choques externos permanece elevada .Este diagnóstico reforça a ideia de que o investimento em infra-estruturas não é apenas uma questão de crescimento económico, mas também um elemento central na construção de resiliência económica e soberania estratégica.O relatório da AFC deixa claro que o problema de África não é apenas a falta de capital, mas sobretudo a sua mobilização e afectação eficiente. Com mais de 2 biliões de dólares disponíveis em instituições financeiras, o continente dispõe de uma base significativa para financiar a sua transformação.No entanto, transformar esse potencial em realidade exigirá reformas institucionais, novos instrumentos financeiros e uma maior articulação entre Estados, sector financeiro e parceiros de desenvolvimento.Num contexto global cada vez mais incerto, a capacidade de África financiar o seu próprio desenvolvimento poderá tornar-se um dos principais determinantes do seu futuro económico.

Fonte: O Económico

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