InícioEconomiaCrédito à Economia Recupera, Mas Reservas Externas e Estrutura do Financiamento Revelam...

Crédito à Economia Recupera, Mas Reservas Externas e Estrutura do Financiamento Revelam Fragilidades Persistentes

Resumo

O "Resumo Mensal de Informação Estatística" do Banco de Moçambique revela uma economia com sinais mistos de recuperação e vulnerabilidade. Em março de 2026, o crédito à economia aumentou para 293,4 mil milhões de meticais, a massa monetária (M3) expandiu-se para 866,1 mil milhões de meticais e a base monetária atingiu 324,1 mil milhões de meticais. Apesar do crescimento do crédito, a estrutura do financiamento bancário revela limitações, com os particulares absorvendo a maior parte do crédito. Setores estratégicos como agricultura, turismo e indústria extractiva continuam subfinanciados. As Reservas Internacionais Líquidas reduziram-se para cerca de 3,47 mil milhões de dólares em março, com um fluxo líquido negativo de aproximadamente 787 milhões de dólares, mas ainda asseguram cobertura de 3,3 meses de importações totais.

O mais recente “Resumo Mensal de Informação Estatística” do Banco de Moçambique revela uma economia que continua a apresentar sinais mistos de recuperação e vulnerabilidade, combinando crescimento do crédito à economia, expansão monetária moderada e inflação relativamente controlada, mas igualmente expondo fragilidades relevantes nas contas externas e na estrutura do financiamento bancário.

Os dados referentes a Março de 2026 mostram que o crédito à economia aumentou para 293,4 mil milhões de meticais, acima dos 291,2 mil milhões registados em Fevereiro.

Ao mesmo tempo, a massa monetária (M3) expandiu-se para 866,1 mil milhões de meticais, enquanto a base monetária atingiu 324,1 mil milhões de meticais.

Os indicadores reflectem continuidade da dinâmica monetária observada nos últimos meses, num contexto em que o Banco de Moçambique mantém postura prudente na condução da política monetária.

Estrutura do Crédito Continua Pouco Virada Para Sectores Estratégicos

Apesar do crescimento global do crédito, a composição sectorial do financiamento bancário continua a revelar limitações importantes no apoio à transformação produtiva da economia.

Os particulares continuam a absorver a maior parcela do crédito bancário, com cerca de 90,5 mil milhões de meticais, representando aproximadamente 31% do total do crédito à economia.

Os sectores de transportes e comunicações receberam cerca de 25,9 mil milhões de meticais, seguidos pelo comércio, com 22,5 mil milhões, e pela indústria transformadora, com 22,1 mil milhões de meticais.

Entretanto, sectores considerados estratégicos para diversificação económica, geração de emprego e expansão da capacidade produtiva continuam relativamente subfinanciados.

A agricultura recebeu cerca de 4,4 mil milhões de meticais em Março, enquanto o turismo absorveu apenas 1,5 mil milhões de meticais.

Também a indústria extractiva registou uma redução significativa do crédito bancário, passando de mais de 12 mil milhões de meticais em Fevereiro para cerca de 8,2 mil milhões em Março.

O comportamento evidencia uma estrutura de financiamento ainda pouco orientada para sectores produtivos estratégicos, numa altura em que o país procura acelerar industrialização, diversificação económica e criação de emprego.

Reservas Internacionais Sofrem Redução Expressiva

Um dos aspectos mais relevantes do relatório é a deterioração das Reservas Internacionais Líquidas (RIL).

Segundo o Banco de Moçambique, o saldo das reservas reduziu-se de 4,26 mil milhões de dólares para cerca de 3,47 mil milhões de dólares no final de Março, correspondendo a um fluxo líquido negativo de aproximadamente 787 milhões de dólares.

As saídas diversas totalizaram cerca de 730,8 milhões de dólares, além de transferências associadas aos bancos comerciais e outras operações externas.

Apesar da redução, o nível actual das reservas continua a assegurar cobertura estimada de 3,3 meses de importações totais e cerca de 5,1 meses quando excluídos os grandes projectos.

Ainda assim, a trajectória evidencia a sensibilidade das contas externas moçambicanas às dinâmicas cambiais, importações e movimentos financeiros ligados aos megaprojectos.

Inflação Mantém-se Relativamente Controlada

No sector real, os indicadores continuam a revelar relativa estabilidade inflacionária.

A inflação anual nacional situou-se em 3,37% em Março de 2026, acima dos 3,20% registados em Fevereiro, mas significativamente abaixo dos níveis observados em igual período do ano passado.

Na Cidade de Maputo, a inflação anual fixou-se em 1,89%.

O comportamento da inflação continua a oferecer algum espaço de gestão à política monetária, embora o Banco Central permaneça atento aos riscos associados à liquidez bancária, volatilidade externa e comportamento cambial.

Taxas de Juro Permanecem Elevadas

Apesar da trajectória descendente da Prime Rate do sistema bancário, o custo do crédito continua elevado para famílias e empresas.

A Prime Rate fixou-se em 15,6% em Março de 2026, abaixo dos 18,5% observados um ano antes.

Ainda assim, as taxas médias de empréstimos acima de um ano continuam superiores a 22%, enquanto o crédito ao consumo permanece próximo dos 24%.

Os níveis continuam a representar um dos principais constrangimentos ao investimento privado, expansão empresarial e financiamento da economia produtiva.

Investimento Estrangeiro Continua Dependente dos Megaprojectos

No sector externo, o Investimento Directo Estrangeiro registou crescimento expressivo em 2025.

Os fluxos totais de IDE atingiram cerca de 5,69 mil milhões de dólares, acima dos 3,55 mil milhões registados em 2024.

A quase totalidade do investimento continua associada à indústria extractiva, particularmente aos sectores do petróleo, gás e mineração, responsáveis por mais de 5,2 mil milhões de dólares.

Os números confirmam a forte dependência da economia moçambicana em relação aos megaprojectos extractivos como principal motor de entrada de capitais externos.

Inclusão Financeira Digital Continua em Expansão

O relatório evidencia igualmente continuação da expansão dos serviços financeiros digitais em Moçambique.

O número de agentes de instituições de moeda electrónica ultrapassou 467 mil em Março de 2026, enquanto as contas activas aproximam-se de 25,3 milhões.

A evolução confirma a crescente centralidade dos serviços financeiros móveis na expansão da inclusão financeira, particularmente fora dos grandes centros urbanos e junto de segmentos tradicionalmente excluídos do sistema bancário convencional.

Fonte: O Económico

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu nome aqui
Por favor digite seu comentário!

- Advertisment -spot_img

Últimas Postagens

Fluxos de Capital Ligados ao Gás Sustentam Contas Externas, Mas Reforçam...

0
O agravamento do défice externo de Moçambique em 2025 acabou parcialmente compensado por uma forte expansão da conta financeira, impulsionada sobretudo pelos investimentos ligados aos grandes projectos de petróleo e gás, confirmando a crescente centralidade do sector extractivo na sustentação das contas externas nacionais.
- Advertisment -spot_img