Resumo
O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta que a economia mundial não está preparada para uma era de instabilidade permanente, com choques económicos, geopolíticos e sociais a tornarem-se uma característica estrutural. A Directora-Geral do FMI, Kristalina Georgieva, destaca a necessidade de governos, empresas e instituições adaptarem-se a esta realidade. Georgieva sublinha a importância de construir economias mais resilientes para absorver choques externos sem comprometer o crescimento e o bem-estar social. A responsável também aborda o impacto da inteligência artificial, alertando para a necessidade de políticas que garantam uma distribuição equilibrada dos benefícios desta tecnologia entre países, setores e grupos sociais, evitando repetir erros do passado com a globalização.
O alerta foi lançado pela Directora-Geral do FMI, Kristalina Georgieva, numa entrevista ao podcast Leaders with Francine Lacqua, da Bloomberg, onde defendeu que governos, empresas e instituições multilaterais precisam de adaptar as suas estratégias a uma realidade em que os choques económicos, geopolíticos e sociais deixarão de ser excepções para se tornarem uma característica estrutural do sistema internacional.
“Estou preocupada porque ainda não internalizámos completamente que é assim que o mundo vai funcionar”, afirmou Georgieva, citada pela Bloomberg. “Não vamos chegar a um ponto em que os choques desapareçam.”
A responsável lidera o FMI desde 2019 e tem estado à frente da instituição durante alguns dos períodos mais turbulentos da economia global recente, incluindo a pandemia, a crise energética, a guerra na Ucrânia, os conflitos comerciais e as mais recentes tensões no Médio Oriente.
Uma Nova Era De Vulnerabilidades
As declarações de Georgieva reflectem uma crescente preocupação entre as instituições financeiras internacionais relativamente à acumulação simultânea de riscos que ameaçam o crescimento económico global.
Segundo a Bloomberg, a Directora-Geral do FMI considera que a principal prioridade deve passar pela construção de economias mais resilientes, capazes de absorver choques externos sem comprometer o crescimento, a estabilidade financeira e o bem-estar social.
Neste contexto, o FMI procura reforçar o seu papel como plataforma de cooperação entre os seus 191 países-membros, numa altura em que o ambiente internacional se torna cada vez mais fragmentado.
“A melhor ferramenta que temos é a análise objectiva”, afirmou Georgieva, sublinhando a importância de decisões baseadas em evidências num período de elevada incerteza.
Inteligência Artificial Levanta Novos Desafios
Um dos temas centrais da entrevista foi o impacto da inteligência artificial sobre os mercados de trabalho e as economias nacionais.
Segundo a Bloomberg, Georgieva reconheceu que instituições internacionais, incluindo o próprio FMI, falharam no passado ao subestimar algumas das consequências sociais da globalização, particularmente nas comunidades afectadas pela deslocalização de empregos e pela transformação das cadeias produtivas.
A responsável alertou que o mesmo erro não pode repetir-se com a inteligência artificial.
“Uma das coisas que não quero ver repetir-se é exactamente o que aconteceu com a globalização”, afirmou, defendendo políticas que garantam que os benefícios da IA sejam distribuídos de forma mais equilibrada entre países, sectores económicos e grupos sociais.
A preocupação surge numa altura em que a inteligência artificial começa a transformar profundamente sectores como finanças, indústria, educação, saúde e serviços, alimentando simultaneamente expectativas de ganhos de produtividade e receios relacionados com emprego e desigualdade.
Economia Mundial Sob Observação
As declarações da Directora-Geral do FMI antecedem a divulgação da próxima actualização das perspectivas económicas globais da instituição, prevista para Julho.
Segundo a Bloomberg, o Fundo reviu em baixa as suas projecções de crescimento mundial em Abril, reflectindo os impactos da guerra no Médio Oriente, da volatilidade energética e das incertezas geopolíticas sobre a actividade económica global.
A nova actualização será acompanhada com particular atenção pelos mercados financeiros, numa altura em que os investidores procuram sinais sobre a capacidade da economia mundial resistir à conjugação de inflação persistente, juros elevados, tensões geopolíticas e desaceleração do comércio internacional.
Cooperação Continua A Ser Essencial
Apesar das divergências crescentes entre blocos económicos e potências globais, Georgieva insiste que a cooperação internacional continua a ser indispensável para enfrentar os desafios da actual conjuntura.
A dirigente recordou que muitos dos problemas contemporâneos — desde alterações climáticas até crises financeiras, segurança alimentar, migrações e transformação tecnológica — ultrapassam fronteiras nacionais e exigem respostas coordenadas.
A mensagem deixada pelo FMI é clara: o mundo entrou numa fase de maior complexidade e vulnerabilidade, na qual a capacidade de antecipar riscos, reforçar a resiliência económica e investir em instituições sólidas poderá ser tão importante quanto o crescimento económico em si.
Num cenário de choques cada vez mais frequentes e interligados, a preparação para a próxima crise poderá revelar-se tão determinante quanto a resposta à crise actual.
Fonte: O Económico






