InícioRevistaSaúdeONU ALERTA PARA MAIOR QUEBRA DE FINANCIAMENTO AO HIV EM DÉCADAS E...

ONU ALERTA PARA MAIOR QUEBRA DE FINANCIAMENTO AO HIV EM DÉCADAS E RISCO DE RETROCESSO GLOBAL

Por: Alfredo Júnior

A resposta mundial ao VIH enfrenta a mais grave crise financeira das últimas décadas, depois de o financiamento internacional destinado ao combate à epidemia ter registado uma queda de 18% em 2025, alertou o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o VIH/SIDA (ONUSIDA), durante a 26.ª Conferência Internacional sobre SIDA (AIDS 2026), que decorre no Rio de Janeiro, Brasil. A organização adverte que a redução dos recursos ameaça inverter os progressos alcançados nos últimos 30 anos e compromete a meta de eliminar a SIDA como ameaça à saúde pública até 2030.

A vice-directora executiva do ONUSIDA, Angeli Achrekar, afirmou que a resposta global ao VIH está "completamente paralisada", descrevendo a actual situação como consequência da maior quebra de financiamento internacional registada em décadas. Segundo a responsável, os cortes afectam sobretudo programas de prevenção, serviços comunitários e assistência às populações mais vulneráveis, reduzindo significativamente a capacidade dos países de responder à epidemia.

De acordo com o relatório especial "Unidas e Unidos para Acabar com a AIDS", divulgado pelo ONUSIDA na conferência, o financiamento internacional caiu para 7,3 mil milhões de dólares em 2025, o nível mais baixo em quase duas décadas. A redução foi impulsionada, principalmente, pela diminuição da assistência externa, em particular dos Estados Unidos, tradicionalmente responsáveis por cerca de 75% do financiamento internacional destinado ao combate ao VIH. Embora alguns países tenham aumentado os investimentos internos, esse esforço não foi suficiente para compensar a quebra da ajuda externa.

Apesar de as novas infecções por VIH e as mortes relacionadas com a SIDA se encontrarem nos níveis mais baixos dos últimos 30 anos, o ONUSIDA considera que estes resultados permanecem extremamente frágeis. Em 2025, foram registadas cerca de 1,2 milhão de novas infecções e 570 mil mortes relacionadas com a doença, números que continuam acima das metas globais estabelecidas para esta década. A organização alerta que, sem uma recuperação urgente do financiamento, mais de três milhões de pessoas poderão contrair o vírus até 2030.

A África Subsaariana continua a concentrar quase metade das novas infecções por VIH registadas em todo o mundo e figura entre as regiões mais afectadas pelos cortes financeiros. Em vários países, programas de prevenção sofreram reduções superiores a 50%, limitando o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP), aos testes de diagnóstico e aos serviços comunitários de acompanhamento dos doentes.

Os impactos já são visíveis em programas específicos. Um estudo apresentado na conferência revelou que cerca de 77 mil crianças deixaram de receber tratamento apoiado pelos Estados Unidos entre Outubro de 2024 e Outubro de 2025, representando uma redução de 14% em relação ao período anterior. Investigadores atribuem o recuo às mudanças no financiamento internacional, embora o Departamento de Estado norte-americano sustente que parte da diminuição reflecte a redução das novas infecções pediátricas.

Perante este cenário, o ONUSIDA apelou aos governos, parceiros internacionais e organismos financiadores para restaurarem a solidariedade global que marcou as últimas décadas da resposta à epidemia. A organização defende que o reforço do financiamento deve ser acompanhado por investimentos sustentáveis nos sistemas nacionais de saúde, maior protecção das populações vulneráveis e políticas que assegurem o acesso universal à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.

Para as Nações Unidas, a actual crise demonstra que os avanços alcançados no combate ao VIH permanecem reversíveis. Sem um compromisso político e financeiro renovado, o mundo poderá assistir ao ressurgimento de uma epidemia que, durante décadas, mobilizou uma das maiores respostas globais em matéria de saúde pública.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu nome aqui
Por favor digite seu comentário!

- Advertisment -spot_img

Últimas Postagens

Picadas, queimaduras e ouvidos tapados: os erros que não deve cometer...

0
Picadas de peixe-aranha, queimaduras de alforreca, areia nos olhos ou ouvidos entupidos depois de um mergulho. Com as praias cheias em agosto, a médica...
- Advertisment -spot_img