Por: Sara Seda
"Se eu conseguir passar essa cadeira, terminei o curso." É uma frase repetida todos os finais de semestre, não importa a faculdade, o curso ou a cidade. Há sempre alguém que a diz com um misto de esperança, desespero e cansaço.
Nos corredores, nas paragens dos chapas, nos grupos de WhatsApp e à porta das salas de exame, circulam histórias quase épicas sobre o famoso docente que "não deixa ninguém passar". Há quem jure que corrige com uma lupa, outros garantem que reprova por uma vírgula fora do lugar, alguns afirmam, com toda a convicção do mundo, que é mais fácil defender uma tese de doutoramento do que obter dez valores naquela disciplina.
Perante tal reputação, o estudante transforma-se, uns estudam como nunca estudaram, outros recorrem às célebres cábulas, cuidadosamente dobradas, escritas em letra microscópica, verdadeiras obras de engenharia do papel, há quem reze, quem faça promessas e quem procure colegas que já sobreviveram à cadeira, como se fossem veteranos de uma guerra.
Chega o dia do teste, o docente distribui as provas com a serenidade de quem sabe o impacto que aquelas folhas terão nas próximas duas horas. Os estudantes folheiam a primeira página e, por instantes, instala-se um silêncio absoluto, não é concentração, é choque.
A primeira pergunta parece escrita numa língua que ninguém aprendeu, a segunda refere um conceito que todos juram nunca ter visto e a terceira começa com a frase mais temida da vida universitária: "Justifique a sua resposta."
É nesse momento que muitos descobrem que decorar apontamentos não é exactamente o mesmo que aprender. Claro que também existem os destemidos, os que tentam negociar com o olhar, os que levantam a mão apenas para perguntar se a pergunta tem mesmo aquele significado, os que escrevem três páginas sem responder a coisa nenhuma, convencidos de que a quantidade pode impressionar o docente durante a correção.
Nem sempre resulta, mas seria injusto colocar toda a culpa nos docentes. Também há docentes que passam verdadeiros testes de resistência. Encontram trabalhos copiados da internet com o mesmo tipo de letra, a mesma introdução e, por vezes, até o nome do autor original esquecido na capa. Recebem monografias entregues cinco minutos antes do prazo, acompanhadas da inevitável explicação: "O computador bloqueou."
Nas apresentações orais há estudantes que leem os diapositivos como se estivessem a descobrir o conteúdo naquele exacto instante, outros terminam a exposição e, quando o docente faz a primeira pergunta, respondem com uma honestidade hilariante: docente! essa parte foi o meu colega que fez.
Depois chegam as monografias, escolher o tema parece simples até chegar o momento de escrever. O supervisor pede revisão da fundamentação teórica, o estudante altera o índice, r pede revisão da metodologia, o estudante muda a conclusão, o supervisor devolve novamente o documento com mais comentários do que páginas.
O ficheiro passa a chamar-se: Monografia_Final, Monografia_Final2, Monografia_Final_AgoraSim, Monografia_Final_Definitiva, Monografia_Final_Definitiva_Versão Corrigida.
Há dias em que o estudante acredita que o supervisor acorda apenas para encontrar uma vírgula mal colocada, há dias em que o supervisor acredita exactamente o mesmo sobre o estudante. Todos reclamam durante o semestre e respiram de alívio quando termina e, alguns anos depois, todos contam as mesmas histórias... já com um sorriso que, na altura, parecia absolutamente impossível.





