InícioNacionalCrónicaCOISAS DE FAMÍLIA MOÇAMBICANA

COISAS DE FAMÍLIA MOÇAMBICANA

Por: Sara Seda

Há coisas que só fazem sentido dentro de uma família moçambicana; quem vê de fora acredita que tudo funciona com uma organização impecável, mas quem vive por dentro sabe que existe um conjunto de regras invisíveis que ninguém escreveu nem ensinou, mas que todos seguem religiosamente.

Ora! Olhemos as festas familiares: há a crença de que faltar comida é uma tragédia nacional; não importa se foram convidados vinte, trinta ou quarenta pessoas, a quantidade preparada deve ser suficiente para alimentar uma aldeia durante uma semana. A tia experiente passa dias a fazer contas, mas todas terminam sempre na mesma conclusão: "é melhor fazer mais" em vez de ouvir alguém dizer "a comida acabou".

O mais interessante acontece no dia seguinte. Surgem recipientes misteriosos de todos os tamanhos, alguns tão antigos que ninguém sabe ao certo a quem pertencem. Então começa a distribuição; alguém se aproxima da porta com um recipiente cheio até à tampa e diz, com toda a naturalidade: "Leva um pouco”, mas nas famílias moçambicanas "um pouco" é uma unidade de medida muito particular. Pode significar um balde de arroz.

Os horários familiares seguem a mesma lógica peculiar: uma visita é marcada para as catorze horas e, milagrosamente, algumas pessoas até aparecem nessa hora; contudo, isso não significa que o encontro tenha começado. As primeiras horas são apenas aquecimento; a conversa séria só arranca por volta das 19 horas, quando já foram abordados todos os assuntos menos importantes. O jantar aparece por volta das 21h30, como se fosse a coisa mais normal do mundo, e, às 23h59, surge finalmente o momento mais enganador da noite: a despedida.

Alguém se levanta, pega a bolsa ou as chaves e anuncia solenemente: "Já vou." Aah! Quem não conhece a cultura acredita que a pessoa está realmente a ir. Grande erro: a frase "já vou" marca apenas o início da etapa mais longa da visita. Duas horas depois, o mesmo visitante continua exactamente na mesma cadeira, agora envolvido numa discussão aprofundada sobre política, futebol, o preço do tomate, os problemas do bairro e o comportamento suspeito dos vizinhos. Há pessoas que perderam o último chapa da noite por terem acreditado que aquela despedida era verdadeira.

E se existe um evento em que todas estas características atingem o seu auge, esse é o casamento. Oficialmente, os protagonistas são os noivos; na prática, o casal é apenas um detalhe num espectáculo protagonizado pela família. Durante meses, os noivos planeiam cada pormenor, escolhem a decoração, definem o menu, organizam a cerimónia e calculam o orçamento, porém, no grande dia, entram em cena os verdadeiros especialistas.

Há sempre uma tia encarregada de fiscalizar a decoração, mesmo sem nunca ter trabalhado na área, existe um tio cuja missão é avaliar a qualidade da comida com a seriedade de um inspector internacional. Não falta a avó que compara o casamento actual com todos os casamentos realizados desde a independência, concluindo quase sempre que antigamente era melhor, e inevitavelmente, aparece aquele primo que não ajudou em absolutamente nada durante os preparativos, mas que possui opiniões para tudo.

Ele observa, cruza os braços e declara: eu teria feito diferente.

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