Um estudo recente traz um dos argumentos mais fortes que já se viram a favor das leis antitabaco: na Hungria, o número de casos de cancro relacionados com o tabaco entre pessoas de meia-idade caiu para metade na década que se seguiu à proibição de fumo nos bares e restaurantes. É um daqueles números que mostram, em saúde pública, o efeito de uma medida aparentemente simples.
A proibição de fumar em espaços fechados de convívio entrou em vigor na Hungria em 2012. Mais de dez anos depois, um grupo de investigação analisou uma grande quantidade de dados e chegou a conclusões notáveis: entre 2011 e 2023, os casos de cancro ligados ao tabaco em pessoas de meia-idade desceram para metade.

Nalgumas faixas etárias, o efeito foi ainda mais expressivo. Segundo a diretora do Instituto Nacional de Pneumologia Korányi, Krisztina Bogos, na faixa dos 50 aos 59 anos a mortalidade diminuiu mais de 60 por cento e, tão importante quanto isso, o número de novos casos também desceu.
E não se trata apenas do cancro do pulmão. Falamos igualmente de tumores na cabeça e no pescoço, na laringe e no esófago, todos diretamente associados ao tabaco. Doenças que afetavam sobretudo os homens e onde, hoje, já quase não há diferença entre sexos.
Vale a pena ler estes dados com o cuidado devido. Trata-se de um estudo observacional, o que significa que mostra uma forte associação temporal, a lei entrou em vigor, os casos caíram, mas não isola a proibição como causa única. No mesmo período houve aumentos de preço, campanhas de sensibilização e mudanças de hábitos que também contribuíram como relata a Euronews.
Ainda assim, a direção é clara e alinha-se com décadas de evidência sobre os perigos do fumo passivo. Reduzir a exposição ao fumo dos outros, sobretudo em espaços fechados onde as pessoas passam horas, tem um efeito mensurável na saúde de uma população.
Há um alerta importante nesta história, e é transversal a todos os países. Com as proibições e os aumentos de preço, o consumo de tabaco não desapareceu, mudou de forma. Sobretudo os mais jovens migraram para os produtos de tabaco aquecido e para os cigarros eletrónicos aromatizados, muitas vezes na convicção de que são inofensivos.

Não são. Estes produtos são nocivos tanto para quem os usa como para quem está à volta, e é precisamente por isso que muitas leis recentes começaram a equipará-los ao tabaco convencional.
O caso húngaro é relevante para nós porque Portugal segue exatamente a mesma direção. A legislação nacional tem vindo a apertar o cerco: alargou a proibição de fumar a esplanadas cobertas ou delimitadas por paredes e junto de portas e janelas de restaurantes e bares, estendeu a proibição ao ar livre nas imediações de escolas e hospitais, restringiu os locais de venda e equiparou o tabaco aquecido e os cigarros eletrónicos ao tabaco tradicional.
O horizonte assumido é ambicioso: uma geração livre de tabaco até 2040. E o desaparecimento definitivo do fumo em áreas fechadas de restauração, incluindo os espaços de fumadores que ainda subsistem, está previsto até 2030.
Se as regras exatas dependem sempre da atualização mais recente da lei e vale a pena confirmá-las antes de assumir o que quer que seja, a tendência de fundo é inequívoca. E o que a experiência húngara sugere é que, ao fim de uma década, estas medidas podem traduzir-se em dezenas de milhares de doenças graves evitadas.
Fonte: Zero Zero






