Resumo
O surto de ebola na República Democrática do Congo completa um mês, com progressos na capacidade de testagem do vírus Bundibugyo. A OMS destaca a importância de conquistar a confiança da comunidade para vencer a doença, apontando "pontos cegos" na deteção de casos. A Federação Internacional da Cruz Vermelha destaca a necessidade de investir na construção de confiança, enfrentando o ceticismo e o medo que dificultam a resposta. O gerente de operações destaca que o estigma em torno do ebola leva as pessoas a esconder sintomas e evitar tratamento, sendo crucial escutar as preocupações das comunidades e adaptar medidas, como o uso de sacos para cadáveres com janela para permitir o luto. A confiança é considerada um elemento central na resposta ao ebola, essencial para detetar casos precocemente e garantir enterros seguros.
Falando a jornalistas em Genebra, o porta-voz da Organização Mundial da Saúde, OMS, Tarik Jasarevic, disse que progressos consideráveis foram feitos na capacidade de testagem.
Expansão do diagnóstico
Ele afirmou que os exames de diagnóstico para o vírus Bundibugyo, responsável pelo surto, estão disponíveis em seis localidades do país: Bunia e Mongbwalu, na província de Ituri; Bukavu e Lwiro, em Kivu do Sul; Goma, em Kivu do Norte; além da capital, Kinshasa.
Outros quatro laboratórios foram ativados em Uganda, onde casos foram importados da RD Congo.
Jasarevic explicou que mesmo com este reforço da testagem ainda existem “pontos cegos” na busca por pessoas infectadas.
Segundo o representante da OMS, pode haver cadeias de transmissão que não estão sendo detectadas, o que significa que “existem pessoas que correm o risco de infectar outras pessoas, e é preciso identificá-las”.
Um profissional de saúde examina um homem na entrada de uma instalação de saúde na Província de Ituri, República Democrática do Congo.
“Algumas pessoas ainda questionam se a doença é real”
Já o gerente de operações para o surto de ebola na Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, parceira da ONU, disse que, para conter a propagação, é necessário investir não apenas na resposta médica, mas também na construção de confiança, o que é demorado e difícil.
Falando de Bunia, o epicentro da crise, Bruno Michon, disse que “algumas pessoas ainda questionam se a doença é real” e acreditam que o surto pode ter sido “inventado” para atrair ajuda estrangeira.
Ele revelou que outras pessoas “veem os enterros seguros e dignos como um ataque à cultura e à tradição, em vez de uma medida para proteger famílias e comunidades”.
O especialista afirmou que o ceticismo, a dúvida e o temor estão dificultando a resposta, ressaltando que quando as pessoas estão com medo, podem não relatar os sintomas e evitar os centros de tratamento.
Escutando as preocupações das comunidades
Existe ainda a vergonha de contar à família que pessoas estão doentes, já que o ebola carrega um estigma significativo. Por isso, muitas delas preferem ficar em casa quando têm febre.
Outro desafio é o fato de que as famílias tentam enterrar seus entes queridos de acordo com as práticas tradicionais, sem conhecer o nível de risco envolvido.
O representante da Cruz Vermelha explicou que a confiança é conquistada por meio de medidas destinadas a apaziguar as preocupações da comunidade.
Elemento central
Após diálogos com a população, uma das adaptações foi começar a usar sacos para cadáveres com uma janela para que a família possa ver o rosto do falecido e iniciar o processo de luto, explicou Michon.
Ele afirmou que sem confiança, não é possível detectar casos precocemente, nem garantir enterros seguros e dignos.
Para o profissional humanitário, a confiança não é uma atividade secundária na resposta ao ebola, e sim um elemento central.
Fonte: ONU






