Resumo
A Total Graphite está a acelerar os seus planos para os projetos de grafite em Moçambique, com foco em Cabo Delgado, visando tornar-se relevante no mercado global de minerais críticos. A empresa pretende atrair parceiros e financiamento para transformar os ativos moçambicanos numa plataforma de fornecimento de grafite para baterias, veículos elétricos e armazenamento de energia. Após reorganização em Madagáscar, a Total Graphite iniciou uma revisão estratégica do seu portefólio, com destaque para os projetos moçambicanos Montepuez e Balama Central. A empresa considera esses ativos cruciais para a sua estratégia de integração vertical e planeia atualizar estudos técnicos e económicos, visando um desenvolvimento otimizado. A Total Graphite, anteriormente Tirupati Graphite, é especializada em grafite natural e não deve ser confundida com a TotalEnergies.
A Total Graphite está a acelerar os seus planos para os projectos de grafite em Moçambique, numa movimentação que coloca Cabo Delgado no centro da estratégia de crescimento da empresa no mercado global de minerais críticos. A companhia pretende actualizar os estudos económicos dos projectos Montepuez e Balama Central, avaliar mecanismos de financiamento e atrair parceiros capazes de transformar os activos moçambicanos numa plataforma relevante para o fornecimento de grafite à indústria de baterias, veículos eléctricos e armazenamento de energia.
A decisão surge depois de a empresa ter concluído uma fase de reorganização operacional em Madagáscar, onde aumentou a capacidade nominal do projecto Vatomina de 12 mil para 18 mil toneladas por ano. Com essa etapa concluída, a Total Graphite iniciou uma revisão estratégica do seu portefólio, procurando identificar formas de acelerar o desenvolvimento dos activos de maior escala, entre os quais se destacam os projectos moçambicanos.
A empresa avalia várias alternativas para financiar e estruturar esta nova fase, incluindo acordos estratégicos, joint ventures, entrada de parceiros, venda parcial de activos ou eventuais transacções de desinvestimento. A administração indicou ter recebido manifestações preliminares de interesse relativamente a alguns activos do grupo, embora reconheça que as discussões ainda se encontram numa fase inicial e sem garantia de conclusão.
Moçambique Passa Para O Centro Da Estratégia
Os projectos Montepuez e Balama Central estão localizados em Cabo Delgado, uma das regiões africanas mais relevantes para a grafite natural. A Total Graphite considera estes activos fundamentais para a sua ambição de construir uma plataforma integrada de grafite, ligando recursos minerais de alta qualidade, processamento e produtos de maior valor acrescentado destinados aos mercados da transição energética.
A empresa, que anteriormente operava sob a designação Tirupati Graphite, adoptou a nova identidade Total Graphite em 2026, num reposicionamento que procura reflectir melhor a sua estratégia de integração vertical. Importa sublinhar que a Total Graphite não deve ser confundida com a TotalEnergies; trata-se de uma empresa distinta, cotada em Londres, especializada em grafite natural e materiais associados à cadeia de baterias.
Segundo a informação divulgada pela companhia, os activos de Montepuez e Balama Central concentram recursos significativos de grafite e apresentam potencial de exploração adicional. A estratégia agora anunciada passa por revalidar os estudos técnicos e económicos existentes, incorporando novos pressupostos de mercado, tecnologia, custos operacionais, preços internacionais e opções de desenvolvimento com menor intensidade de capital.
No caso de Montepuez, a empresa pretende actualizar o Estudo Definitivo de Viabilidade e o Estudo de Engenharia de Valor, ambos originalmente elaborados em 2017. O objectivo é avaliar um plano de desenvolvimento mais optimizado, potencialmente faseado, com menor investimento inicial e maior capacidade de atrair financiamento. Para Balama Central, a empresa prevê iniciar trabalho semelhante ainda este ano.
De Projectos Mineiros A Cadeia De Valor
A movimentação da Total Graphite em Moçambique não se limita à extracção. A empresa procura posicionar-se numa cadeia de valor mais ampla, que vai da mina ao fornecimento de materiais para ânodos de baterias de iões de lítio.
Neste quadro, a companhia está também a actualizar um estudo de pré-viabilidade para uma unidade nos Estados Unidos destinada à produção de grafite esférica purificada, material usado em ânodos de baterias. O estudo original, elaborado em 2017, previa uma instalação com capacidade para produzir 20 mil toneladas por ano de grafite esférica purificada, com pureza de 99,99%, além de subprodutos destinados a outros usos industriais.
A ligação entre Montepuez e o projecto norte-americano é estratégica. Quando actualizados, os estudos poderão permitir à Total Graphite apresentar uma proposta integrada: produção de concentrado de grafite em Moçambique, processamento avançado em mercados consumidores e fornecimento de materiais para a indústria global de baterias.
Esta abordagem responde a uma tendência mais ampla no mercado dos minerais críticos. Cada vez mais, os investidores procuram activos que não sejam apenas reservas minerais, mas plataformas integradas, com capacidade de fornecer materiais qualificados, rastreáveis e alinhados com as exigências de fabricantes de baterias, veículos eléctricos e sistemas de armazenamento de energia.
Grafite Ganha Peso Na Geopolítica Da Energia
A grafite tornou-se um dos minerais mais estratégicos da transição energética. É usada em baterias de veículos eléctricos, sistemas de armazenamento de energia, telemóveis, aplicações industriais e componentes com relevância tecnológica. A sua importância resulta não apenas da procura crescente, mas também da elevada concentração da produção e do processamento em poucos países.
Para Moçambique, este contexto abre uma janela de oportunidade. O país já é reconhecido como um dos principais produtores mundiais de grafite e possui activos relevantes em Cabo Delgado e Niassa. A presença de empresas como Syrah Resources, Triton Minerals, AMG, DH Mining e Total Graphite mostra que o país está no radar da indústria global de minerais críticos.
A inauguração, em Janeiro, da unidade chinesa de processamento de grafite em Nipepe, na província do Niassa, reforçou esta leitura. Com capacidade anunciada de 200 mil toneladas por ano, o empreendimento sinaliza uma ambição mais ampla: deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e passar a produzir, processar e exportar materiais com maior valor económico.
Este ponto é decisivo. A transição energética está a criar uma nova geografia industrial, em que países com recursos minerais procuram evitar o antigo modelo de simples exportação de produtos em bruto. A disputa já não é apenas por reservas, mas por processamento, tecnologia, financiamento, logística, certificação e capacidade de integrar cadeias globais de valor.
Nova Lei Mineira Eleva A Exigência
A aceleração dos projectos da Total Graphite ocorre num momento em que Moçambique está a reforçar o seu quadro legal para o sector mineiro. A nova legislação estabelece uma participação mínima, gratuita, não diluível e de 15% do Estado em todos os projectos mineiros, através da Empresa Nacional de Mineração, em qualquer etapa da cadeia de valor.
A lei reforça igualmente a obrigação de processamento local dos minerais, proibindo a exportação de produtos minerais em bruto ou semi-processados, salvo mediante autorização ministerial específica e com base em planos aprovados de processamento local.
Este novo enquadramento altera a equação para investidores e operadores. Para empresas como a Total Graphite, a atractividade dos projectos moçambicanos passa agora também pela capacidade de alinhar os planos empresariais com as prioridades nacionais: maior retenção de valor, participação pública, desenvolvimento industrial, emprego qualificado e integração de empresas nacionais na cadeia de fornecimento.
A questão central será a forma como o novo regime será implementado e como se aplicará a projectos existentes ou licenciados em fases anteriores. Ainda assim, a orientação política é clara: Moçambique quer maior controlo estratégico sobre os seus recursos e pretende capturar uma parcela mais significativa do valor gerado pela procura global por minerais críticos.
Cabo Delgado E O Desafio Da Execução
A aposta em Montepuez e Balama Central pode reforçar o papel de Cabo Delgado como uma das principais plataformas africanas de grafite. A província já concentra activos minerais relevantes e está associada a projectos de grande escala no sector energético, mineiro e logístico.
Mas o potencial económico depende de condições concretas de execução. A segurança, a estabilidade operacional, a infra-estrutura logística, o acesso a energia, a previsibilidade regulatória e a capacidade de mobilizar financiamento serão factores determinantes para transformar estudos e intenções em investimento efectivo.
No caso da Total Graphite, ainda não há uma decisão final de investimento nem um calendário fechado para construção ou arranque de produção nos projectos moçambicanos. O que existe, nesta fase, é uma actualização estratégica: rever estudos, adaptar os modelos económicos às condições actuais do mercado, procurar parceiros e avaliar estruturas capazes de acelerar o desenvolvimento dos activos.
Esta distinção é importante. A notícia sinaliza confiança no potencial de Moçambique, mas não deve ser lida como confirmação imediata de entrada em produção. O processo ainda depende de estudos actualizados, financiamento, acordos comerciais, aprovações regulatórias e condições de mercado.
Oportunidade Para Uma Nova Política Industrial
A aceleração dos projectos de grafite em Moçambique deve ser analisada para além da mineração. O país tem oportunidade de transformar a grafite num eixo de política industrial, articulando extracção, processamento, formação técnica, energia, logística, investigação aplicada e participação de empresas nacionais.
A vantagem competitiva não estará apenas na existência de reservas. Estará na capacidade de criar um ecossistema que permita transformar recursos minerais em valor económico interno. Isso implica desenvolver competências, infra-estruturas, normas ambientais, mecanismos de certificação, ligações com universidades, serviços especializados e financiamento orientado para cadeias produtivas.
A Total Graphite procura integrar os seus activos moçambicanos numa cadeia internacional de fornecimento para baterias. Moçambique, por sua vez, procura garantir que essa integração não reproduza o modelo extractivo tradicional, em que a maior parte do valor é capturada fora do país.
É nesta intersecção que a notícia ganha relevância económica. A grafite moçambicana está a tornar-se mais importante num mercado global em transformação. Mas o verdadeiro teste será saber se o país conseguirá converter a atenção dos investidores em projectos concretos, empregos qualificados, processamento local, receitas públicas e desenvolvimento industrial.
Fonte: O Económico






