InícioRevistaInternacionalDe Gaza ao Líbano, agências relatam trauma infantil diário após cessar-fogo

De Gaza ao Líbano, agências relatam trauma infantil diário após cessar-fogo

Resumo

Entidades humanitárias expressaram preocupação com os impactos duradouros da violência no Oriente Médio, destacando que a situação atual tornou o conceito de cessar-fogo numa "ilusão cruel e mortal" para civis, especialmente crianças. No território de Gaza, a violência persiste apesar das pausas nos combates, com 265 crianças palestinas mortas nos últimos oito meses. O Unicef alerta que até 1,1 milhão de crianças em Gaza estão em risco de contrair doenças, enquanto no Líbano mais de 770 mil crianças sofrem de estresse psicológico severo. A destruição causada por ataques recentes levou a 1,9 milhão de deslocados em Gaza, com falta de abrigo, água limpa e serviços de saúde. A instabilidade também atingiu o Líbano, com novas vítimas e impactos humanitários de longo prazo.

Nesta sexta-feira, entidades humanitárias expressaram preocupação com os sofrimentos físico e psicológico “que deixarão marcas por gerações no Oriente Médio” por causa da violência e dos confrontos na região.

O Fundo da ONU para a Infância, Unicef, aponta um cenário regional onde “as palavras da diplomacia parecem desconectadas da realidade prática” no terreno.

“Ilusão cruel e mortal”

A agência realça que aquilo que o mundo convencionou chamar de “cessar-fogo” transformou-se, na verdade, em uma “ilusão cruel e mortal” para milhares de civis, especialmente os mais jovens.

Em Gaza, desde que a pausa dos combates foi anunciada, em outubro de 2025, a violência não cessou, segundo o porta-voz do Unicef.

O torso de uma pessoa apresenta múltiplas lesões cutâneas vermelhas, compatíveis com uma doença de pele que se espalha entre os deslocados internos em Gaza.
ONU News
Até 1,1 milhão de crianças estão em risco de contrair doenças em Gaza

James Elder, revelou que 265 crianças palestinas foram mortas nos últimos oito meses, uma média de uma por dia. Outras 400 foram feridas, muitas com “lesões graves que mudarão suas vidas para sempre”.

Credibilidade

Para Elder, com esses números “o debate não deve ser mais sobre a qualidade do cessar-fogo, mas sobre a credibilidade de chamá-lo por esse nome”

O relatório aponta que o perigo não está mais restrito às linhas de frente. Crianças são sendo mortas onde deveriam estar protegidas: casas, escolas, abrigos, ou enquanto jogavam futebol e pescavam. Elas são “vítimas de bombardeios, tiros e ataques drones armados”.

Em Gaza, o Unicef afirma que o trauma deixou de ser um “episódio” na vida dessas crianças para se tornar parte do próprio tecido de suas infâncias.

Um médico da Unicef examina uma criança em um centro de saúde em Beirute, com a presença de sua família.
Foto: © UNICEF
Em território libanês, o Unicef estima haver mais de 770 mil crianças sofrendo de estresse psicológico severo

Nesse estado de alerta constante os mais jovens não conseguem dormir, interagir e comer de forma adequada, gerando um ciclo vicioso que amplifica a crise de desnutrição crônica. O sofrimento se estende aos pais: mães relatam o desespero de ouvir gritos de dor por infecções na pele, sem água limpa sequer para banhá-los.

População forçada a fugir 

Na destruição, após os ataques de 7 outubro de 2023, liderados pelo Hamas contra Israel, foram registrados 1,9 milhão de deslocados, ou quase toda a população forçada a fugir, grande parte por repetidas vezes.

No território existem 1,2 milhão de famílias sem teto por terem perdido suas habitações. Nesse cenário não há hospitais completamente operacionais, num sistema que segundo a Organização Mundial da Saúde ruiu.

Até 1,1 milhão de crianças estão em risco de contrair doenças num contexto em que o acesso à água potável continua sendo uma incerteza diária.

Os novos dados são revelados horas depois de uma apresentação do subsecretário-geral da ONU para os Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, ao Conselho de Segurança. 

Ele enfatizou que se os palestinos continuam privados do básico que qualquer pessoa exigiria para sua própria família: segurança, abrigo, água limpa, saúde e educação.

O drama no Líbano

A instabilidade estendeu-se para o Líbano, com a escalada de violência e novas vítimas entre as forças israelenses e o grupo Hezbollah na região sul. Ataques aéreos recentes deixaram pelo menos 18 mortos.

O porta-voz do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, Ocha, Jens Laerke, alertou nesta sexta-feira para o impacto de longo prazo desta dinâmica de guerra.

Para o representante, “é infinitamente mais fácil e rápido ferir pessoas e infligir danos do que restaurar os meios de subsistência, devolvê-las às suas casas e alimentá-las. Apenas um ou dois dias deste tipo de guerra traduzem-se em meses, por vezes anos, de operações humanitárias no terreno.”

Em território libanês, o Unicef estima haver mais de 770 mil crianças sofrendo de estresse psicológico severo devido à exposição repetida à violência, perdas de entes queridos e deslocamentos forçados.

Fonte: ONU

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