Por: Lurdes Almeida
Num contexto de transformação económica, a informação tornou-se um instrumento cada vez mais importante para a economia moçambicana. Num contexto em que o país procura aumentar a competitividade, atrair investimento, diversificar a produção e melhorar o ambiente de negócios, a qualidade da informação tornou-se um elemento cada vez mais importante para orientar decisões públicas e privadas. Torna-se, por isso, necessário produzir, organizar e utilizar informação económica de forma sistemática para orientar as decisões do Estado, das empresas e dos investidores.
O Instituto Nacional de Estatística desempenha uma função central na produção das estatísticas oficiais e constitui uma referência indispensável para a análise económica nacional. No entanto, uma economia complexa exige também investigação aplicada, produção de indicadores sectoriais, estudos independentes e cruzamento de diferentes fontes de informação.
Neste percurso, a trajectória do sector empresarial moçambicano comprova que a disponibilidade de informação económica é uma condição para a qualidade das decisões económicas. Durante anos, a insuficiência de determinados indicadores dificultou a leitura mais precisa da realidade empresarial e económica do país, inclusive em processos com impacto directo sobre empresas e trabalhadores, como a definição do salário mínimo nacional. Uma economia que pretende estabelecer níveis salariais compatíveis com a inflação, a produtividade, o custo de produção e a capacidade financeira das empresas precisa de dispor de informação suficientemente robusta para medir essas variáveis e compreender as suas relações. Sem indicadores consistentes, aumenta o risco de decisões económicas baseadas em percepções, com consequências sobre emprego, custos empresariais, competitividade e poder de compra.
É neste contexto que a produção de indicadores económicos específicos ganha importância. A criação de instrumentos como o Índice de Emprego representa uma tentativa de aprofundar a leitura da economia para além dos grandes agregados macroeconómicos. O emprego, por exemplo, não deve ser analisado apenas pelo número de postos de trabalho existentes. É necessário acompanhar a sua evolução, a capacidade de absorção dos diferentes sectores, a qualidade dos empregos, a produtividade e a relação entre emprego e crescimento económico. Um indicador desta natureza pode contribuir para compreender se a expansão económica está efectivamente a gerar oportunidades de trabalho e em que segmentos da economia essas oportunidades estão a surgir.
A mesma lógica aplica-se à competitividade empresarial. Não basta afirmar que Moçambique possui potencial económico; é necessário medir as condições que permitem transformar esse potencial em produção. O acesso ao crédito, o custo do financiamento, a disponibilidade de terra, a qualidade das infra-estruturas, os custos logísticos, a energia, a carga regulatória e a produtividade são factores que determinam a capacidade das empresas de produzir e competir. Quando estes elementos são medidos de forma sistemática, torna-se possível identificar os constrangimentos que reduzem a competitividade e estabelecer prioridades para a política económica.
A questão da competitividade também não pode ser dissociada da produtividade. Uma economia pode possuir terra, recursos minerais, energia e uma população economicamente activa, mas esses factores, por si só, não garantem crescimento sustentado. É precisamente aqui que a diversificação económica passa a ser uma estratégia de transformação estrutural. Moçambique tem concentrado uma parte importante da sua capacidade de atracção de investimento estrangeiro em sectores primários, sobretudo na indústria extractiva. Esses investimentos são importantes para gerar exportações, receitas e entrada de capital, mas o seu impacto sobre a economia será limitado se não criarem ligações suficientemente fortes com outros sectores produtivos.
Esta abordagem permite alterar a lógica económica de extrair e exportar para produzir, transformar e exportar. O gás pode estimular a indústria de fertilizantes, a petroquímica, a produção de energia e uma cadeia de serviços especializados. Os minerais críticos, como a grafite, podem representar oportunidades para actividades de processamento e integração em cadeias industriais ligadas às novas tecnologias. A agricultura pode deixar de estar concentrada na produção primária e avançar para a agro-indústria, processamento, armazenamento, embalagem e distribuição. O turismo pode estimular empresas nacionais de transporte, alimentação, construção, cultura e serviços.
É neste ponto que a atracção de investimento estrangeiro deve ser analisada sob uma perspectiva macroeconómica. A aproximação ao empresariado norte-americano pode representar uma oportunidade dentro desta estratégia, sobretudo se o investimento for direccionado para sectores capazes de diversificar a estrutura produtiva. A produção de índices e estudos económicos assume, assim, uma importância estratégica.
Uma economia que possui bons indicadores consegue identificar tendências antes que elas se transformem em problemas. Consegue detectar deterioração da actividade empresarial, acompanhar mudanças no emprego, avaliar a evolução da competitividade e comparar o seu desempenho com outras economias. Mais importante ainda, consegue avaliar se as políticas implementadas estão efectivamente a produzir os resultados esperados.
É esta a diferença entre ter dados e ter inteligência económica. Os dados registam a realidade; os indicadores organizam essa realidade; a análise económica interpreta-a; e a política económica deve transformar essa interpretação em decisões.






