Por: Gentil Abel
As tatuagens e escarificações conhecidas entre os Macondes como dinembo constituem uma das expressões mais marcantes da identidade cultural deste povo, originário do Planalto de Mueda, em Cabo Delgado, no Norte de Moçambique, e com presença também no Sul da Tanzânia. Durante gerações, estas marcas fizeram parte da vida social das comunidades, funcionando não apenas como elementos de beleza, mas também como sinais de pertença, identidade e passagem para a vida adulta.
Mais do que simples desenhos sobre a pele, o dinembo representava uma forma de comunicação. Através dos traços presentes no rosto e no corpo, era possível reconhecer a origem e a pertença de uma pessoa a determinado grupo. Num contexto em que a identidade cultural era transmitida sobretudo pela tradição oral e pelas práticas comunitárias, o corpo tornava-se, assim, uma espécie de arquivo vivo da história de cada indivíduo e da própria comunidade.
Antigamente, homens e mulheres Macondes tinham os rostos marcados por tatuagens e escarificações. Entretanto, com o passar do tempo, os homens foram abandonando progressivamente o costume, enquanto as mulheres mantiveram a prática durante mais alguns anos. Hoje, porém, a realidade é diferente. Mesmo entre as mulheres, o hábito tornou-se cada vez mais raro, fazendo com que o dinembo seja encontrado sobretudo entre os idosos.
Essa mudança não aconteceu por acaso. O contacto com outras culturas, a influência do período colonial, a modernização dos modos de vida e a crescente valorização de padrões de beleza diferentes contribuíram para o enfraquecimento da tradição. Como resultado, algumas das pessoas que carregavam os sinais tradicionais passaram a removê-los, tornando ainda mais difícil encontrar as marcas que durante muito tempo identificaram visualmente o povo Maconde.
Por outro lado, é importante compreender que o desaparecimento do dinembo não significa necessariamente o desaparecimento da cultura Maconde. A arte deste povo continua a manifestar-se de várias formas, sobretudo através da escultura e de objectos tradicionais. Nas cooperativas e comunidades ligadas à produção artística Maconde, por exemplo, encontram-se esculturas shetani, representações Ujamaa, máscaras de mapiko e diversos objectos utilitários produzidos em madeira, incluindo a madeira de mafurreira.
Nesse sentido, a arte assume uma função que vai muito além da decoração. Ela conserva histórias, crenças e formas de interpretar o mundo. As esculturas e máscaras tornam-se, por isso, uma das principais pontes entre o passado e o presente, sobretudo numa altura em que determinadas práticas corporais já não são seguidas pelas novas gerações.
Tradicionalmente, a realização do dinembo envolvia um processo doloroso. Um especialista fazia cortes finos e precisos na pele com instrumentos cortantes, formando desenhos específicos. Depois, substâncias escuras, como carvão em pó ou produtos obtidos de plantas locais, eram aplicadas sobre os cortes para reforçar a marca. Os desenhos podiam apresentar linhas rectas, ziguezagues, setas e outras formas, ocupando áreas do rosto, das bochechas e do peito.
Apesar da dor, a prática tinha um significado social profundo. A escarificação podia estar associada aos ritos de iniciação, incluindo o likumbi, entre os homens, e o chiputu, entre as mulheres. A marca no corpo assinalava, em determinadas circunstâncias, uma mudança de estatuto e a entrada numa nova fase da vida. Por isso, não deve ser analisada apenas pelos padrões actuais de beleza, mas dentro do contexto cultural em que foi praticada.
Além disso, a resistência à dor era vista como demonstração de coragem. Para algumas comunidades, suportar o processo de escarificação revelava força e preparação para enfrentar as responsabilidades da vida adulta. Havia ainda uma dimensão espiritual, uma vez que determinadas marcas eram associadas à protecção e à força do indivíduo.
No entanto, o desaparecimento progressivo das tatuagens e escarificações deve preocupar quem trabalha pela preservação do património cultural. Por isso, preservar o dinembo não significa necessariamente voltar a cortar ou tatuar a pele. Significa documentar os seus significados, registar os testemunhos dos anciãos, estudar os padrões utilizados e transmitir às novas gerações o conhecimento sobre a origem e a função dessas marcas.
Por sua vez, a escultura Maconde pode desempenhar um papel importante nesse processo. As figuras esculpidas em pau-preto e outros materiais continuam a reproduzir elementos visuais associados à tradição, permitindo que parte dessa memória permaneça visível mesmo quando a prática corporal deixa de existir. Museus, escolas, universidades, cooperativas culturais e meios de comunicação social podem igualmente contribuir para que este património não fique limitado à memória de algumas famílias.
Contudo, é precisamente aqui que surge um dos grandes desafios da preservação cultural: como manter uma tradição sem obrigar as novas gerações a reproduzir práticas que já não correspondem às suas escolhas?






