Resumo
O escritor britânico Salman Rushdie participou numa sessão do festival literário Babell, abordando a sua escrita que mistura o público e o privado, desde referências como "O Feiticeiro de Oz" a William Shakespeare. A sessão, com fortes medidas de segurança, incluindo revista e detetor de metais, começou com atraso devido à longa espera do público. Rushdie falou sobre a sua infância na Índia, a influência de "Oz" na sua escrita e refletiu sobre o atentado de 2022, após a polémica de "Os Versos Satânicos". O autor de 79 anos abordou ainda obras como "Faca", lançado em 2024, e destacou a importância da ficção para unir diferentes mundos e tempos.
Com fortes medidas de segurança, incluindo revista e detetor de metais à entrada, a sessão realizada no âmbito do festival literário Babell foi precedida de longa espera para o público, que só às 22:08, quando ainda havia quem estivesse na fila no exterior, ouviu o sinal sonoro do início da sessão, com o ator António Durães a apresentar uma leitura de um excerto.
Enquanto os últimos a entrar procuravam onde se sentar, depois de passarem quer pela segurança privada quer pela supervisão da Polícia de Segurança Pública (PSP), o escritor Alberto Manguel chamou Salman Rushdie, “a razão da espera com tanta paciência”, ao palco, onde o esperava um cálice de vinho do Porto.
Fortemente ovacionado, Rushdie fez rir a plateia por diversas vezes, numa sessão que Manguel conduziu a partir da importância de “Oz”, o filme e depois os livros de Frank Baumann, para a escrita do autor, que cresceu na Índia.
“['Over The Rainbow', a primeira história que escreveu] não foi o meu trabalho mais amadurecido, tinha 10 anos. Cresci em Bombaim, vi o filme, fui muito afetado por ele e escrevi uma história sobre um rapaz como eu, numa cidade como a minha, que estava a passear e vai ao início do arco-íris, não ao fim. (…) Nasci mais ou menos na altura da independência. A minha família tem uma piada: 'Eu nasci e, oito semanas depois, os britânicos fugiram'”, atirou.
Perante cerca de três mil pessoas, mesmo que muitos só tenham entrado já depois dos primeiros 20 minutos de conversa, para o último 'anel' do Coliseu, o autor de 79 anos falou de Bollywood, da parábola do crescimento que a jornada de Dorothy encerra, mas também do pai e, inevitavelmente, do esfaqueamento de que foi alvo em 2022, após a polémica em torno de “Os Versos Satânicos” (1998), que levaram a que fosse convocada uma 'fatwa' contra a sua pessoa.
Em “Faca” (Dom Quixote), lançado em 2024, reflete sobre o atentado e era claro “que um dos personagens muito importantes na história era o atacante”, que ganha vida através de um diálogo entre ambos que inventou.
“Sou romancista, porque é que não o invento? Depois, ele pode pertencer-me. Imaginei-me dentro da sua pele e a usar o talento que tenho para o fazer. Deixa ver porque é que um miúdo de 25 anos, que pela sua admissão nunca leu os meus livros e não tem antecedentes, vai de zero a homicídio para matar uma pessoa que não conhece”, refletiu.
Manifestou-se surpreendido pelos milhões de cópias que “Os Filhos da Meia Noite” (1981) vendeu, passou ainda por “Quichotte” (2019) e pela “A Feiticeira de Florença” (2008), onde cruza a corte do Imperador Akbar com os Médici, naquela cidade italiana, prova de como dois mundos, e tempos, se podem cruzar pela forma como a ficção permite “fazer acontecer coisas que nunca aconteceram”.
Sobre os pares que cria frequentemente nos seus romances, comparou-os ao impacto que têm em termos cómicos, lembrando “Dom Quixote e Sancho Pança, ou Vladimir e Estragon”, obras de Miguel de Cervantes e Samuel Beckett, respetivamente.
“Não era intencional, mas apercebi-me depois que acontecia. (…) Não estava consciente, mas depois tomei nota disso, e aí tem de se tomar uma decisão. Uma coisa que temos de admitir é que o escritor não é o mestre da sua imaginação. Temos o cérebro que temos, estamos limitados a ele. Por vezes, repetes-te, mas espero que aconteça de formas diferentes, mais interessantes, como variações”, afirmou.
Para o britânico, nascido na Índia, “escrever livros não é fácil”.
“Estamos sempre a errar, ficamos emperrados, as engrenagens param e não conseguimos ver para a frente. O que aprendi é que o erro não é aí, é em algo que aconteceu antes. Um passo em falso, algures, que uma página depois ou 50 páginas depois emperra a história. É preciso ir atrás e encontrar. Descobrindo, tudo flui de novo”, disse o homem que considera que se aprende “quase nada” ao escrever um livro em termos de experiência para o próximo, por todos serem diferentes.
Quanto à literatura de intenções políticas, não quer propriamente “escrever ficção política, mas ficção que tome em consideração tudo o que faz o ser humano ser o que é”.
“Se olharmos para trás, para Jane Austen, a sua carreira é contemporânea das guerras napoleónicas e quase não há menção desse facto histórico colossal. A função dos soldados é vestir uniformes vermelhos e terem bom aspeto em festas. (…) Hoje, a diferença entre vida privada e pública quase desapareceu, a pública colide com a privada quase todos os dias. Essa dimensão tem de ser uma das partes da explicação dos personagens, não a mais importante. Amor, trabalho, classe, dinheiro, religião, tudo compõe o personagem e como é impactado por acontecimentos públicos também”, refletiu.
No final de uma sessão com menos de uma hora, perante uma plateia em que muitos esperaram bem mais do que isso para entrar, foi questionado sobre se tem medo da morte e revelou que já “olhou para esse assunto” e “não é bom”.
“O Bartleby, de Herman Melville, diz, sempre que lhe pedem para fazer alguma coisa: 'preferia que não'. Essa é a minha visão da morte. Preferia que não”, ironizou.
A edição inaugural do festival Babell, que custou mais de 3 milhões de euros à fundação Livraria Lello, termina na segunda-feira.
Fonte: TVI



