Resumo
O ouro teve uma queda superior a 1% no início da sessão de terça-feira, encaminhando-se para o pior desempenho mensal desde 2008, devido à mudança de foco dos mercados para uma política monetária mais restritiva nos EUA. A guerra entre o Irão e os EUA aumentou as preocupações com a inflação, mas a expectativa de subidas das taxas de juro pela Reserva Federal está a sobrepor-se à procura por ativos de refúgio, como o ouro. Os investidores já preveem três aumentos das taxas de juro este ano e aguardam novos dados do mercado de trabalho dos EUA para avaliar a possibilidade de mais apertos monetários. Um mercado laboral forte poderá pressionar ainda mais o ouro, enquanto um arrefecimento poderá permitir alguma recuperação nas cotações.
O ouro iniciou a sessão desta terça-feira em queda superior a 1%, encaminhando-se para o pior desempenho mensal desde o final de 2008, num movimento que evidencia a mudança de foco dos mercados: da procura por activos de refúgio para a antecipação de uma política monetária mais restritiva nos Estados Unidos.
O ouro à vista recuava 1,5%, para 3.956,92 dólares por onça, acumulando uma desvalorização de 12,7% ao longo de Junho. Os contratos futuros norte-americanos para entrega em Agosto desciam 1,7%, para 3.969,30 dólares por onça.
Caso esta tendência se confirme no fecho do mês, será a quarta queda mensal consecutiva do metal precioso e a mais acentuada desde Outubro de 2008. O ouro prepara-se igualmente para registar o primeiro recuo trimestral desde 2024 e o maior desde o segundo trimestre de 2013, segundo dados avançados pela Reuters.
Inflação E Juros Superam O Factor Refúgio
A guerra entre o Irão e os Estados Unidos, ao provocar uma escalada nos preços da energia, reforçou as preocupações com a inflação internacional. Contudo, em vez de sustentar uma procura prolongada por ouro, o novo contexto passou a fortalecer a expectativa de que a Reserva Federal norte-americana poderá responder com novas subidas das taxas de juro.
Esta alteração é particularmente relevante para o mercado do ouro. Embora o metal seja tradicionalmente procurado como reserva de valor em momentos de inflação e instabilidade, não oferece rendimentos aos investidores. Quando as taxas de juro sobem, aplicações como títulos do Tesouro norte-americano e outros activos remunerados tornam-se relativamente mais atractivos.
Edward Meir, analista da Marex, observou à Reuters que a conjugação de inflação elevada, expectativas de juros mais altos e valorização do dólar está a sobrepor-se aos factores que, em condições normais, sustentariam uma trajectória ascendente do ouro.
A leitura do mercado é, neste momento, de que a política monetária norte-americana poderá permanecer restritiva durante mais tempo do que o inicialmente antecipado.
Mercado Já Prevê Novas Subidas Da Fed
Os investidores estão actualmente a prever três aumentos das taxas de juro pela Reserva Federal ainda este ano. De acordo com as expectativas acompanhadas pelo CME FedWatch Tool, o mercado atribuía uma probabilidade próxima de 64% a uma subida na reunião de Setembro.
A atenção desloca-se agora para os novos dados do mercado de trabalho norte-americano, incluindo o relatório de emprego privado da ADP e os dados oficiais de criação de emprego não agrícola, ambos previstos para esta semana.
Estes indicadores poderão ajudar a clarificar se a economia dos Estados Unidos mantém uma dinâmica suficientemente robusta para justificar um novo aperto monetário. Um mercado laboral mais resiliente poderá reforçar a perspectiva de juros mais elevados, pressionando ainda mais o ouro. Pelo contrário, sinais de arrefecimento poderão moderar as expectativas de subida e abrir espaço para alguma recuperação das cotações.
Dólar Forte Agrava A Pressão Sobre O Metal
A trajectória do dólar norte-americano acrescenta uma segunda camada de pressão sobre o ouro. A moeda dos Estados Unidos encaminhava-se para o segundo ganho mensal consecutivo, tornando o metal mais caro para investidores que operam noutras moedas.
Como o ouro é negociado internacionalmente em dólares, uma apreciação da moeda norte-americana tende a reduzir a procura externa, sobretudo em mercados onde a conversão cambial eleva o custo de aquisição.
A força do dólar reflecte, em grande medida, a percepção de que os Estados Unidos poderão manter taxas de juro mais elevadas do que outras economias desenvolvidas. Esta diferença de rendibilidade favorece os activos denominados em dólar e limita a procura por metais preciosos.
Outros Metais Também Sofrem Correcção
A correcção não se restringe ao ouro. A prata recuava 2%, para 57,13 dólares por onça, encaminhando-se para a maior perda mensal desde Setembro de 2011 e para o desempenho trimestral mais fraco desde 2013.
A platina perdia 1,1%, para 1.557,21 dólares por onça, apontando para o pior mês desde 2008 e para a maior queda trimestral desde Janeiro de 2020. O paládio recuava 0,4%, para 1.208,17 dólares por onça.
A queda sincronizada dos metais preciosos e industriais sugere que o mercado está a reajustar posições perante um ambiente em que as taxas de juro, o dólar e a procura global voltam a assumir maior peso na formação dos preços.
Para o segundo semestre, Edward Meir antecipa que o ouro possa negociar entre 3.500 e 4.400 dólares por onça. O intervalo ilustra o nível de incerteza ainda presente: por um lado, juros elevados e dólar forte limitam uma recuperação imediata; por outro, a persistência de tensões geopolíticas e os riscos associados à inflação podem continuar a oferecer suporte ao metal em momentos de maior instabilidade.
Fonte: O Económico






