Resumo
Bancos centrais de todo o mundo estão a reconsiderar a exposição ao dólar norte-americano nas suas reservas, com mais instituições a planear reduzir do que aumentar essa exposição nos próximos dez anos, de acordo com um inquérito da OMFIF. Embora o dólar mantenha a sua posição central no sistema financeiro internacional, a incerteza política nos EUA e a volatilidade global levam as instituições a diversificar riscos. O sistema monetário global está a tornar-se mais multipolar, com moedas como a coroa norueguesa e o dólar neozelandês a ganhar destaque. O ouro está a ganhar popularidade entre os bancos centrais como ativo estratégico, com 30% a planear aumentar a sua exposição nos próximos anos.
Os bancos centrais de todo o mundo estão a reconsiderar, de forma cada vez mais clara, o peso do dólar norte-americano nas suas reservas internacionais. Pela primeira vez, há mais instituições a prever uma redução da sua exposição à moeda dos Estados Unidos do que um aumento, no horizonte dos próximos dez anos.
A conclusão resulta de um inquérito da Official Monetary and Financial Institutions Forum (OMFIF), divulgado esta terça-feira, que abrangeu 90 bancos centrais, fundos soberanos e fundos públicos de pensões, responsáveis colectivamente pela gestão de cerca de 10 biliões de dólares em activos.
A mudança não significa que o dólar esteja prestes a perder o seu papel central no sistema financeiro internacional. Pelo contrário, a moeda norte-americana continua sem uma alternativa plenamente comparável em liquidez, profundidade de mercado e capacidade de absorver grandes volumes de reservas. Mas revela que as instituições públicas estão a procurar reduzir riscos de concentração, num contexto marcado por incerteza política nos Estados Unidos, tensões geopolíticas e volatilidade persistente nos mercados globais.
Um Sistema Monetário Cada Vez Mais Multipolar
O inquérito indica que 79% dos bancos centrais e 60% dos fundos públicos consideram que o sistema monetário global está em transição para uma configuração mais multipolar.
Esta percepção traduz uma mudança gradual, e não uma ruptura imediata. O dólar permanece a principal moeda de reserva e, segundo a Reuters, registava uma valorização de cerca de 3% desde o início do ano, apoiado por taxas de juro mais elevadas nos Estados Unidos, procura por activos norte-americanos e movimentos de procura por segurança associados à guerra entre os Estados Unidos e o Irão.
Ainda assim, o reforço do risco político e geopolítico associado à moeda norte-americana tem levado os gestores de reservas a explorar uma distribuição mais diversificada dos seus activos.
Moedas fora do grupo tradicional das principais divisas de reserva começam a ganhar maior espaço nas estratégias de alocação. A coroa norueguesa e o dólar neozelandês, por exemplo, surgem entre as moedas que têm atraído interesse adicional dos bancos centrais, a par de uma maior atenção à libra esterlina.
O euro e o renminbi chinês mantêm igualmente perspectivas de reforço nas reservas, embora os próprios inquiridos reconheçam a existência de desafios estruturais que limitam a sua capacidade de se afirmarem como substitutos integrais do dólar.
Ouro Ganha Espaço Como Activo Estratégico
Se a diversificação cambial avança de forma gradual, o ouro emerge como o activo com maior procura imediata entre os bancos centrais.
O inquérito da OMFIF mostra que 82% dos bancos centrais já detêm ouro nas suas reservas e que, numa base líquida, 30% dos participantes prevêem aumentar a sua exposição ao metal precioso nos próximos um a dois anos.
A tendência confirma a crescente importância do ouro como instrumento de preservação de valor, diversificação e protecção contra riscos geopolíticos e monetários. Numa altura em que as reservas internacionais são chamadas a responder a choques cambiais, financeiros ou políticos, o metal volta a ocupar um lugar central na estratégia dos gestores públicos.
O reforço das reservas em ouro também reflecte uma procura por activos que não dependem directamente das decisões de política monetária ou das condições económicas de uma única jurisdição. Ainda assim, a opção pelo metal não elimina os desafios relacionados com volatilidade de preço, custos de armazenamento e menor liquidez comparativamente aos principais títulos soberanos internacionais.
Inteligência Artificial Entra Na Gestão Das Reservas
O inquérito revela ainda que a transformação das estratégias de reserva não se limita à composição dos activos. A tecnologia, em especial a inteligência artificial, começa a assumir um papel mais relevante nas operações dos bancos centrais e fundos públicos.
Mais de dois terços dos bancos centrais inquiridos tencionam aumentar a integração de soluções de inteligência artificial no curto prazo. A utilização actual concentra-se, sobretudo, na análise de dados e em funções administrativas e operacionais internas.
Existe, porém, uma diferença assinalável entre economias avançadas e mercados emergentes. Enquanto mais de 89% dos bancos centrais em economias desenvolvidas já utilizam inteligência artificial, essa proporção desce para 44% entre as instituições dos mercados emergentes.
A diferença evidencia um novo desafio para os países em desenvolvimento: assegurar que a modernização tecnológica das instituições financeiras acompanhe a crescente complexidade dos mercados, sem agravar assimetrias de capacidade, dados e recursos humanos especializados.
Mercados Emergentes Recuperam Atracção
A procura de diversificação também está a beneficiar os mercados emergentes. Entre os fundos públicos abrangidos pelo inquérito, 38% planeiam aumentar a exposição a economias emergentes, acima dos 27% registados no levantamento anterior.
Em sentido contrário, o interesse em elevar a exposição a mercados desenvolvidos recuou de 47% para 25%. Os Estados Unidos e a China continuam a destacar-se entre os destinos mais atractivos, em parte devido à dinâmica de investimento ligada à expansão da inteligência artificial.
Para os mercados emergentes, a tendência pode abrir espaço para maior captação de capital institucional internacional. Mas a oportunidade dependerá da capacidade de cada país em assegurar estabilidade macroeconómica, mercados financeiros funcionais, previsibilidade regulatória e instrumentos adequados para receber investimentos de longo prazo.
A leitura central do inquérito é clara: o dólar continuará a desempenhar um papel dominante, mas já não será visto de forma tão isolada como eixo exclusivo da gestão de reservas. Ouro, moedas alternativas, activos reais, mercados emergentes e novas tecnologias passam a integrar uma resposta mais ampla a um ambiente internacional em que a volatilidade deixou de ser uma excepção e se tornou parte estrutural da tomada de decisão.
Fonte: O Económico






