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Memórias com Armstrong, Gamito e Ayuso: o trio português da Lidl/Trek no Tour

O Tour de France atrai milhões de pessoas graças a ciclistas de primeira linha, mas não sobrevive sem a tenacidade e o brio de milhares de técnicos. A propósito da visita a Bordéus, o Maisfutebol esteve à conversa com três portugueses que abrilhantam o staff da alemã Lidl/Trek.

A maior entre as “Voltas” conta, em 2026, com cerca de 20 portugueses nos bastidores das equipas Lidl/Trek, UAE Emirates, Tudor, EF Education, NSN, Q-36.5 e Soudal Quick-Step. A representação lusa é ainda maior, mas os demais técnicos estão noutros pontos do globo.

No rescaldo à sétima etapa, na pós-jantar de sexta-feira, encontrámos Francisco Carvalho (pai e filho) e Marco Marques num hotel dos subúrbios de Bordéus, onde também estavam alojados os espanhóis da Caja Rural.

O relógio acelerava para as 22 horas e o trio luso preparava-se para cair na cama após 15 horas de árduo trabalho. Antes, como quem degusta um último café, conversaram com o Maisfutebol. No átrio do hotel havia muitas cabeças voltadas para a televisão que transmitia o Espanha-Bélgica do Mundial 2026. Por isso, os ciclistas de Lidl/Trek e Caja Rural passavam despercebidos, sem seguranças, sem gritos e histerias, como pessoas normais.

Tal como há um ano em Toulouse, o Maisfutebol visitou Bordéus à boleia da VELUX, a “Maison du Dossard”, ou seja, a casa dos dorsais do Tour de France.

Francisco Carvalho – o pai – está na modalidade enquanto mecânico há mais de 30 anos, uma vez que deixou a escola aos 13 anos e abraçou o ofício. Em simultâneo, competiu enquanto ciclista até aos 24 anos. Este amor herdou do pai, antigo ciclista do Belenenses.

Depois de afinar bicicletas de Benfica, Maia, Paredes, Sintrense e LA Pecol, o mecânico natural da Costa da Caparica juntou-se à RadioShack, onde trabalhou com Lance Armstrong. Em todo o caso, o projeto norte-americano foi integrado na Trek em 2012 – quando a equipa com investimento dinamarquês tinha apenas dois anos.

Quando o Tour arrancou a 4 de julho, Francisco Carvalho já acumulava oito dias de trabalho, pois os mecânicos são os primeiros a chegar à caravana da Trek.

«Entre dezembro e janeiro realizamos o “training-camp”, em fevereiro começam as provas. Em outubro terminam as corridas e fazemos o habitual “team-bulding”. São 200 dias fora de casa. Custa cada vez mais sair de casa, mas faço o que gosto», comenta.

Por estas semanas, a média de sono ronda as 7 horas, com o despertador a tocar pelas sete da manhã. Sem horário para terminar, o momento para falar com a família surge pelas 22 horas, antes de o sono chegar.

«De manhã preparamos as bicicletas, enchemos as rodas e colocamos em cima do carro; lavamos os vidros dos carros e preparamo-nos para a corrida. Após a etapa voltamos ao hotel, lavamos e afinamos todas as bicicletas, tudo ao pormenor.»

«O maior desafio é não ter problemas em qualquer bicicleta», ironiza.

Se o quotidiano dos mecânicos é acelerado, os dias dos massagistas esmagam os menos resilientes. Que o diga Marco Marques, torreense na modalidade há 28 anos e massagista e condutor de autocarro na Lidl/Trek. Pelas suas mãos já passaram ícones como Vítor Gamito, vencedor da Volta a Portugal em 2000.

«Tirei a carta de camião e autocarro para ajudar a equipa. Todos devemos ter essas licenças para fazer parte destas estruturas.»

«Os massagistas acordam entre as 7 e as 8 horas, preparam todas as geleiras para o carro de apoio e preparam as meias de gelo. Na corrida, dois massagistas dão o abastecimento, outros dois vão para uma zona de abastecimento extra, e mais dois vão para o hotel preparar malas e marquesas.»

«Enquanto condutor de autocarro devo controlar toda a logística: frigoríficos cheios com bebidas, ar-condicionado na temperatura ideal e tudo higienizado ao pormenor. Vamos para o ponto de partida e os ciclistas têm um buffet de barra géis, ou ficam no autocarro como se estivessem em casa. Entretanto, saem para a corrida, eu arrumo o autocarro e vou para a meta; preparo tudo para eles tomarem banho no autocarro, preparo as bebidas de recuperação e a comida – proteína ou arroz – ponho a máquina da roupa a lavar e vou para o hotel. Depois das massagens vamos jantar.»

«A última semana é terrível para os ciclistas, mas para o staff a primeira semana é muitíssimo dura – muito intensa, muita gente, muito pressão.»

Estafante. Mas Marco garante que o fazem por amor. Aliás, revela que terminaram o dia «super-cedo», por volta das 21h30.

Além das chamadas para a família, o trio combate as saudades junto dos compatriotas a cada manhã, antes da partida para a etapa.

«Não há rivalidades. Se a outra equipa precisar de um rádio, um cabo, uma barra, seja português ou não, todos ajudamos. E é recíproco. Até entre ciclistas as rivalidades são raras. O que vemos na televisão é genuíno», garante Marco Marques.

A Lidl/Trek conta na estrutura com outros portugueses – Rafael Apolinário (mecânico), Ricardo Pereira (osteopata) e Marco Marques (massagista e filho de Marco Marques) – por estas semanas noutras provas.

«O meu filho Marco está na Volta à Áustria. Ele foi ciclista e terminou essa carreira no Boavista, mas quis continuar na modalidade, então incentivei-o a frequentar cursos intensivos. Está na equipa masculina, feminina e sub-23 da Trek», conta com orgulho Marco Marques.

Ao centro está sentado Francisco Carvalho – filho – de 31 anos, desde 2018 na Trek. Já vivenciou vitórias de etapas em Itália, Espanha e França a partir do carro de apoio e dá seguimento às paixões do avô e do pai.

«Antes queria entrar para a Marinha, mas não foi possível. Decidi parar de estudar e comecei a trabalhar neste meio em 2014. Em 2020 vivi a vitória mais emotiva no carro de apoio, quando a Lizzie Deignan ganhou a Volta a França.»

«A diretora explicou a estratégia e bateu tudo certo, porque a Lizzie perseguiu, resistiu, atacou no momento certo e ganhou com oito segundos de vantagem», relata.

Este é o elemento mais jovem do staff da Lidl/Trek em França e vive o primeiro Tour junto do pai, contexto que acarreta exigência e capacidade de encaixe. Sobretudo nos momentos de tensão.

«Há atletas que furam e são nervosos, então atiram a bicicleta. Há outros que permanecem serenos. Depende da intensidade e do momento, mas tudo isso passa depois da corrida», explica.

Quanto a jovens ciclistas na Lidl/Trek, Juan Ayuso – catalão de 23 anos, outrora na UAE Emirates de João Almeida – lidera a juventude do Tour, vestindo a camisola branca e guardando 13 segundos sobre o lusodescendente Paul Seixas (Decathlon). Em simultâneo, Ayuso está no quarto lugar da classificação geral, a 16 segundos de Evenepoel (Red Bull) e a 4:22 minutos do líder Pogacar.

Neste ano, o jovem catalão conquistou a Volta ao Algarve, superando Paul Seixas e João Almeida. Mas não se livrou de críticas pela postura na Emirates. Em todo o caso, Francisco Carvalho “Jr.” defende Ayuso.

«É competitivo e acessível para o patamar que ocupa. Por exemplo, no último “training-camp” trouxe um presunto e vários quilos de queijo para a equipa. Também tem sonhos e objetivos, o que é natural. Muito do que se pintou entre o Ayuso e o João Almeida não é real – eles são amigos.»

Além das missões de Ayuso, a equipa alemã pretende manter a camisola verde (pontos) no corpo do dinamarquês Mads Pedersen, que guarda 40 pontos sobre Girmay (NSN). Em termos coletivos, a Trek lidera a classificação por equipas, com mais de 24 minutos sobre a Emirates.

«O Pedersen está motivado. A classe e a persistência dele são meio-caminho para conseguir a camisola verde. Os objetivos da equipa também passam pela classificação por equipas e pelo pódio na geral. Estamos a meio do caminho», analisa Marco Marques.

Para o massagista e condutor do autocarro, Pedersen é como família, pelo que recorda com carinho a conquista do Mundial de Estrada em 2019.

Na perspetiva oleada de Francisco Carvalho “Senior”, a Volta a Portugal está bem entregue e promete crescer, numa edição que vai contar com dupla subida à Senhora da Graça – algo inédito.

«Espero que a modalidade volte a crescer, pois passámos por muitas dificuldades. Esta organização estrageira – espanhola – vai permitir esse salto. Não é fácil termos uma corrida Word Tour. Ainda assim, a UAE Emirates vai levar alguns ciclistas da elite à Volta, o que é muito bom.»

«Como português, que passou muitos momentos bons em Portugal, espero que o nosso ciclismo volte ao topo. Já tivemos equipas nacionais a disputarem a Volta a Espanha. Gostava que voltasse a acontecer. A Volta ao Algarve continua de parabéns e a clássica da Figueira da Foz também merece destaque», termina.

Antes da despedida, Marco Marques aproveita para rematar: «Deviam acabar com três equipas em Portugal, porque não respeitam o ciclismo. Sei que a federação vai agir e espero que o panorama nacional mude radicalmente.»

 

Fonte: TVI

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