Por: Alfredo Júnior
Moçambique foi o único país da África Austral onde os conflitos armados continuaram a gerar necessidades humanitárias durante o segundo trimestre de 2026, segundo uma avaliação das Nações Unidas sobre a situação humanitária na região. Embora vários países tenham enfrentado emergências provocadas por fenómenos climáticos extremos, como cheias e tempestades, a violência persistente no norte de Moçambique manteve milhares de pessoas deslocadas e dependentes de assistência, distinguindo o país do restante espaço regional.
A constatação surge num período em que a África Austral concentra esforços na recuperação dos impactos das inundações registadas no início do ano, que afectaram países como Moçambique, Malawi, Zâmbia e Zimbabwe. Contudo, enquanto nos restantes Estados as necessidades humanitárias resultaram sobretudo de desastres naturais, em Moçambique continuam a coexistir duas crises simultâneas: a provocada pelos eventos climáticos e a associada ao conflito armado em Cabo Delgado.
Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), a violência protagonizada por grupos armados no norte do país continua a provocar deslocamentos internos, destruição de infra-estruturas, interrupção dos meios de subsistência e limitações no acesso das populações aos serviços básicos. A Organização Internacional para as Migrações (OIM), através da sua Displacement Tracking Matrix (DTM), registou novas vagas de deslocação apenas no mês de Maio, quando ataques e o receio de novos confrontos obrigaram mais de 12 mil pessoas a abandonar as suas comunidades no distrito de Ancuabe, província de Cabo Delgado. As necessidades mais urgentes identificadas incluem alimentos, abrigo de emergência e bens essenciais.
A ONU considera que a persistência da insegurança em Cabo Delgado continua a dificultar a recuperação económica e social da província, afectando actividades agrícolas, comércio local e o funcionamento de escolas e unidades sanitárias. O conflito prolongado também limita o regresso seguro de famílias anteriormente deslocadas e aumenta a pressão sobre comunidades de acolhimento, que enfrentam dificuldades para responder ao crescimento da procura por habitação, água, alimentos e serviços públicos.
Ao mesmo tempo, Moçambique continua a enfrentar os efeitos das cheias severas registadas entre Dezembro de 2025 e o início de 2026. As Nações Unidas estimam que centenas de milhares de pessoas tenham sido afectadas pelas inundações nas províncias de Gaza, Maputo e Sofala, com destruição de habitações, estradas, unidades de saúde e sistemas de abastecimento de água. Em resposta, o OCHA, o Fundo Central de Resposta a Emergências (CERF), o Fundo Humanitário para a África Oriental e Austral (ESAHF), o Programa Mundial para a Alimentação (PMA) e a UNICEF reforçaram a assistência humanitária, mobilizando recursos financeiros, alimentos, medicamentos e materiais de abrigo.
A Coordenadora Residente das Nações Unidas em Moçambique, Catherine Sozi, afirmou recentemente que o país enfrenta "múltiplos desafios interligados", sublinhando que a combinação entre violência armada e eventos climáticos extremos tem agravado as vulnerabilidades das populações e aumentado a procura por ajuda humanitária. Segundo a responsável, desde o início do ano as Nações Unidas canalizaram cerca de 98 milhões de dólares para apoiar pessoas afectadas tanto pelo conflito como pelos desastres naturais.
Especialistas em acção humanitária alertam que esta sobreposição de crises representa um dos principais desafios para as organizações de assistência. Enquanto os fenómenos climáticos exigem respostas de curto prazo orientadas para operações de emergência e reconstrução, os conflitos armados produzem deslocamentos prolongados, insegurança alimentar persistente e necessidades contínuas de protecção, educação e recuperação dos meios de subsistência.
Apesar da redução da intensidade dos confrontos em alguns distritos de Cabo Delgado nos últimos meses, as Nações Unidas consideram que a situação permanece volátil. A continuidade de ataques esporádicos e a ameaça representada por grupos armados impedem a normalização completa das actividades económicas e sociais, mantendo milhares de famílias dependentes da ajuda humanitária.
Para a ONU, a recuperação sustentável de Moçambique dependerá não apenas da resposta às emergências provocadas pelos fenómenos climáticos, mas também da consolidação da segurança nas zonas afectadas pelo conflito, da reconstrução das infra-estruturas destruídas e da criação de condições que permitam o regresso seguro e voluntário das populações deslocadas. Enquanto esse cenário não se concretizar, Moçambique continuará a destacar-se como o único país da África Austral onde o conflito armado permanece um dos principais motores das necessidades humanitárias.






