Por: Gelva Aníbal
Envelhecer é uma etapa natural da vida, mas envelhecer com saúde, autonomia e dignidade ainda está longe de ser uma realidade para todos. As novas orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgadas a 15 de Julho, reacendem uma discussão que merece maior atenção: até 45% do risco de demência pode estar associado a factores modificáveis, como o sedentarismo, o tabagismo, o consumo de álcool, o isolamento social, a hipertensão, a diabetes e a exposição à poluição.
O dado é relevante porque contraria a ideia de que a perda das capacidades cognitivas deve ser simplesmente aceite como consequência inevitável da idade, mas a demência não é uma parte normal do envelhecimento. Actualmente, mais de 57 milhões de pessoas vivem com esta condição no mundo e quase 10 milhões de novos casos são registados anualmente, e mais de 60% das pessoas afectadas vivem em países de baixo e médio rendimento, onde os sistemas de saúde enfrentam, muitas vezes, limitações no diagnóstico, acompanhamento e tratamento.
A prevenção, por isso, não pode ser reduzida à responsabilidade individual, recomendar actividade física, alimentação equilibrada ou controlo da pressão arterial é importante, mas pouco significa para quem não dispõe de acesso regular aos serviços de saúde, medicamentos, alimentação adequada ou espaços seguros para praticar exercício.
Uma população que envelhece precisa de hospitais preparados para tratar doenças, precisa de políticas de prevenção, cuidados de saúde primários funcionais, acompanhamento das doenças crónicas e condições sociais que permitam às pessoas manter uma vida activa e independente durante mais tempo.
O envelhecimento populacional tende a colocar novas exigências sobre as famílias e sobre o sistema de saúde. Se a prevenção pode reduzir parte significativa dos factores associados à demência, investir nela não deveria ser visto como uma despesa secundária, mas como uma forma de proteger a autonomia, a dignidade e a qualidade de vida das futuras gerações.
Envelhecer com saúde não deveria depender do rendimento, do local onde se vive ou da capacidade individual de pagar por cuidados, deve ser visto como uma questão de saúde pública e de justiça social.



