O dólar norte-americano recuou esta sexta-feira e encaminhava-se para fechar a semana com perdas, num momento em que os investidores avaliam com crescente prudência a decisão do Tesouro dos Estados Unidos de aumentar as recompras de títulos públicos de longo prazo.
De acordo com a Reuters, o índice que acompanha o comportamento do dólar perante um cabaz de seis moedas negociava em 98,82 pontos, próximo do seu nível mais baixo em três meses. A moeda acumulava uma desvalorização semanal superior a 0,8%.
A reacção dos mercados demonstra que a intervenção do Tesouro, embora possa melhorar temporariamente as condições de negociação no mercado obrigacionista, não dissipou as preocupações relacionadas com o crescimento da dívida pública, o aumento dos défices e a trajectória dos custos de financiamento da maior economia mundial.
Tesouro Procura Conter Subida Dos Rendimentos
O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, afirmou que o Governo poderá aumentar novamente as recompras de títulos públicos. A declaração surgiu depois de o departamento ter anunciado a duplicação do volume das operações sobre instrumentos de prazo mais longo durante o próximo trimestre.
A iniciativa procura travar a subida acentuada dos rendimentos das obrigações, melhorar a liquidez e reduzir as tensões no segmento de longo prazo do mercado. Bessent anunciou igualmente que trabalhará com o director do Gabinete de Gestão e Orçamento da Casa Branca, Russell Vought, numa nova iniciativa de consolidação orçamental orientada pelo Presidente Donald Trump.
No entanto, segundo a Reuters, estas indicações não foram suficientes para interromper a venda de títulos do Tesouro. Os rendimentos das obrigações a 30 anos subiram cerca de 1,4 pontos base, para 5,2508%, enquanto a taxa de referência a dez anos se situava em 4,7041%, depois de ter avançado 4,5 pontos base na sessão anterior.
O comportamento conjunto das obrigações e do dólar revela que os investidores não estão apenas a avaliar a dimensão técnica das recompras. O mercado procura perceber se existe uma estratégia orçamental suficientemente convincente para estabilizar a dívida e preservar a confiança nos activos denominados na moeda norte-americana.
Uma Solução Temporária Para Um Problema Orçamental
Carol Kong, estratega cambial do Commonwealth Bank of Australia, explicou à Reuters que as recompras de obrigações de longo prazo constituem mais um exemplo da utilização de instrumentos não convencionais pelo Governo norte-americano para gerir os custos de financiamento.
Na sua avaliação, a medida é adoptada num ambiente caracterizado por dívida pública elevada, défices crescentes e incerteza quanto à orientação das políticas. Este quadro poderá incentivar os investidores a aumentar a cobertura do risco cambial e a diversificar as suas carteiras para além dos activos em dólares.
A leitura é partilhada por Vitali Meschoulam, estratega do Goldman Sachs. Numa nota dirigida aos clientes e citada pela Reuters, o analista reconheceu que as autoridades possuem instrumentos capazes de influenciar temporariamente os rendimentos de longo prazo. Porém, sustentou que o problema actual parece ser cada vez mais orçamental e não meramente técnico.
Por outras palavras, a recompra de títulos pode melhorar a liquidez e moderar episódios de volatilidade, mas não substitui decisões estruturais sobre receitas, despesas, défices e sustentabilidade da dívida pública.
Euro E Libra Beneficiam Da Fraqueza Do Dólar
A depreciação da moeda norte-americana favoreceu as principais divisas europeias. Segundo dados divulgados pela Reuters, o Euro era negociado em 1,1685 dólares, próximo do nível mais elevado em três meses, e acumulava uma valorização semanal de aproximadamente 1%.
A Libra Esterlina avançou 0,08%, para 1,3643 dólares, tendo chegado a aproximar-se do máximo de seis meses. A moeda britânica registava um ganho semanal de cerca de 0,8%.
O dólar australiano subiu 0,13%, para 0,7123 dólares norte-americanos, enquanto o dólar neozelandês ganhou 0,23%, para 0,5957, encaminhando-se para uma valorização semanal superior a 1%.
Estes movimentos reflectem sobretudo o ajustamento das posições cambiais perante a subida dos rendimentos dos títulos norte-americanos sem uma correspondente valorização do dólar. Em condições normais, taxas de juro mais elevadas tenderiam a aumentar a atractividade da moeda. Desta vez, porém, a origem orçamental da subida dos rendimentos está a ser interpretada como um factor de risco.
Yen Continua Condicionado Pelo Diferencial De Taxas
Apesar da fraqueza generalizada do dólar, o Yen recuou ligeiramente. A moeda japonesa perdeu 0,05%, para 159,12 por dólar, permanecendo afectada pela diferença entre as taxas de juro praticadas nos Estados Unidos e no Japão.
Dados divulgados esta sexta-feira mostraram que a inflação subjacente do Japão acelerou em Julho, comparativamente ao mesmo período do ano anterior. O resultado fortalece os argumentos para que o Banco do Japão volte a elevar a sua taxa directora.
Uma eventual normalização adicional da política monetária japonesa poderá apoiar o Yen. Contudo, enquanto os rendimentos norte-americanos permanecerem significativamente acima dos japoneses, os investidores continuarão a encontrar incentivos para financiar posições em moedas de juros baixos e aplicar os recursos em activos com remuneração superior.
Confiança Passa A Ocupar O Centro Do Mercado
A evolução do dólar nas próximas sessões será determinada pela forma como os investidores interpretarem a iniciativa de consolidação orçamental anunciada por Scott Bessent e pela capacidade do Governo norte-americano de apresentar medidas credíveis para controlar o défice.
As recompras podem oferecer algum alívio ao mercado obrigacionista, mas a reacção inicial indica que os participantes exigem respostas mais amplas. Sem uma trajectória orçamental clara, o aumento das intervenções poderá ser visto como uma tentativa de administrar os efeitos da dívida, em vez de enfrentar as suas causas.
A informação da Reuters mostra, assim, um mercado em que a direcção do dólar já não é determinada apenas pelas perspectivas das taxas de juro da Reserva Federal. A sustentabilidade das contas públicas, a independência das instituições e a previsibilidade da política económica passaram igualmente a influenciar a procura mundial por activos norte-americanos.
Fonte: O Económico



