InícioRevistaEconomiaÁfrica Do Sul Mira Crescimento Acima De 3% E Um Milhão De...

África Do Sul Mira Crescimento Acima De 3% E Um Milhão De Novos Empregos Até 2030

A África do Sul lançou a terceira fase da parceria entre o Governo e o sector empresarial, estabelecendo como objectivos elevar o crescimento económico para mais de 3% ao ano, mobilizar três biliões de rands em investimento e criar um milhão de empregos adicionais até 2030.

A iniciativa, apresentada pelo Presidente Cyril Ramaphosa, pretende transformar os progressos alcançados na estabilização do fornecimento de energia, recuperação da logística e melhoria da confiança dos investidores em actividade produtiva, investimento e emprego.

A parceria foi criada em 2023, quando a economia sul-africana enfrentava cortes prolongados de electricidade, degradação das operações ferroviárias e portuárias, aumento da criminalidade económica e perda de confiança nas instituições.

A primeira fase concentrou-se na estabilização destas áreas. A segunda foi orientada para reformas estruturais. A terceira acrescenta infra-estruturas, mineração, turismo, agricultura e agro-processamento aos sectores prioritários e coloca o crescimento económico e a criação de emprego no centro da intervenção conjunta.

“A terceira fase deve ser sobre crescimento”, afirmou Ramaphosa. “A parceria deve converter os progressos alcançados em investimento, actividade produtiva e empregos.”

Crescimento Inferior A 3% Agrava O Desemprego

A economia sul-africana cresceu, em média, pouco mais de 1% ao ano durante a última década, um ritmo insuficiente para acompanhar o crescimento populacional e absorver as cerca de 300 mil pessoas que entram anualmente no mercado de trabalho.

A taxa oficial de desemprego atingiu 33,6%, correspondente a aproximadamente 8,5 milhões de pessoas. Entre os jovens, o nível de desemprego é substancialmente superior.

O ministro das Finanças, Enoch Godongwana, considera que um crescimento anual de 3% representa o nível mínimo necessário para evitar o aumento contínuo do desemprego. Abaixo desta taxa, o número de novos candidatos ao mercado de trabalho tende a superar os empregos criados.

Uma análise apresentada pelo administrador-delegado da Discovery e presidente da Business Leadership South Africa, Adrian Gore, indica que um crescimento de aproximadamente 5% permitiria reduzir o desemprego em cerca de 1,9 milhões de pessoas ao longo de cinco anos.

A meta de 3% constitui, neste sentido, um patamar de estabilização e não uma solução completa para a crise de emprego.

“O crescimento de 3% não pode constituir o ponto máximo da nossa ambição”, afirmou Ramaphosa. “Demonstrámos que conseguimos reformar. Devemos agora demonstrar que conseguimos crescer.”

Meta Anterior Não Foi Alcançada

A definição de uma nova meta ocorre depois de a África do Sul não ter alcançado o objectivo de crescimento superior a 3% estabelecido durante a segunda fase da parceria.

A economia cresceu 1,1% em 2025, permanecendo distante do ritmo considerado necessário para melhorar de forma significativa o rendimento por habitante e o emprego.

A diferença entre os objectivos anunciados e o crescimento efectivamente alcançado explica a ênfase colocada, na terceira fase, em indicadores mensuráveis, calendários e responsabilidades atribuídas ao Governo e ao sector privado.

O novo programa estabelece que cada iniciativa deverá ser avaliada pela sua contribuição para o crescimento inclusivo, criação de emprego e confiança dos investidores.

A parceria pretende utilizar capacidades técnicas, financeiras e de gestão do sector privado para acelerar projectos que permanecem condicionados pela burocracia, fragilidade institucional, infra-estruturas degradadas e limitações de execução das empresas públicas.

Energia E Logística Criam Base Para A Retoma

O fim dos cortes regulares de electricidade constitui uma das principais melhorias apresentadas pelo Governo e pelos empresários.

A África do Sul passou mais de um ano sem interrupções programadas de energia, depois de a crise da Eskom ter reduzido a produção industrial, aumentado os custos das empresas e limitado o crescimento económico.

A melhoria resultou da recuperação parcial da capacidade das centrais, aumento da manutenção, expansão da produção privada e maior incorporação de energias renováveis.

A terceira fase prevê a construção de mais 550 quilómetros de linhas de transmissão até Março de 2027. A ampliação da rede é necessária para integrar novos projectos de geração, particularmente nas regiões com elevado potencial solar e eólico, mas com capacidade limitada de transporte de electricidade.

O Governo pretende igualmente lançar, no início de 2027, o Mercado Grossista Sul-Africano de Electricidade. O novo modelo deverá substituir progressivamente o sistema em que a Eskom funciona como principal comprador e vendedor, introduzindo maior concorrência e preços mais transparentes.

Na logística, a recuperação da Transnet começa a produzir aumentos nos volumes ferroviários e nas exportações de carvão e outros minerais.

A parceria prevê que seis operadores privados de comboios estejam em actividade em 2027. A abertura da rede ferroviária deverá mobilizar investimento em locomotivas e material circulante, elevar o volume de carga transportada e reduzir a dependência do transporte rodoviário.

Infra-Estruturas Podem Mobilizar Capital Doméstico

A África do Sul possui um défice de investimento em infra-estruturas estimado em cerca de dois biliões de rands para a próxima década.

O País dispõe, ao mesmo tempo, de mercados financeiros desenvolvidos, bancos com capacidade de estruturação e fundos de pensões e seguradoras que administram grandes volumes de poupança de longo prazo.

A terceira fase pretende transformar projectos de energia, água, transportes e infra-estruturas municipais em activos com viabilidade técnica e financeira, capazes de atrair investidores institucionais.

A disponibilidade de capital não constitui a única limitação. Muitos projectos permanecem atrasados por ausência de estudos, modelos de receitas, garantias adequadas, processos transparentes de contratação e capacidade de gestão.

A parceria entre o Governo e as empresas deverá contribuir para estruturar projectos financiáveis e utilizar recursos públicos para mobilizar volumes superiores de investimento privado.

Este modelo pode reduzir a pressão imediata sobre o orçamento do Estado, desde que os contratos distribuam adequadamente os riscos e protejam o interesse público.

Mineração Procura Recuperar Investimento

A mineração contribui com aproximadamente 6% do Produto Interno Bruto sul-africano, emprega cerca de 470 mil pessoas e gera exportações anuais avaliadas em 800 mil milhões de rands.

A África do Sul possui algumas das maiores reservas mundiais de metais do grupo da platina, ouro, vanádio e diamantes, além de recursos considerados estratégicos para as tecnologias de energia limpa e transição industrial.

Apesar desta base, o investimento em exploração e novos projectos tem sido condicionado por dificuldades no licenciamento, incerteza regulatória, problemas energéticos e limitações logísticas.

A implementação de um cadastro mineiro nacional até 31 de Março de 2027 constitui uma das metas da terceira fase.

O sistema deverá apresentar de forma digital as áreas disponíveis, os direitos atribuídos, a informação geológica e o estado dos pedidos. Um cadastro funcional pode reduzir a opacidade, acelerar decisões e melhorar a segurança jurídica dos investidores.

O prazo já sofreu sucessivos adiamentos. A sua inclusão no programa conjunto aumenta a responsabilidade institucional e a pressão para concluir a iniciativa.

Turismo Pode Criar Empregos Rapidamente

O turismo foi seleccionado pelo potencial de criar emprego sem exigir, para grande parte das funções, períodos prolongados de formação especializada.

Segundo os cálculos apresentados na parceria, cada grupo adicional de 13 visitantes internacionais pode sustentar um emprego permanente na economia sul-africana.

O crescimento do turismo beneficia alojamento, restauração, transportes, comércio, indústrias criativas e serviços locais, distribuindo o rendimento por um conjunto alargado de pequenas e médias empresas.

A recuperação da conectividade aérea, a simplificação de vistos, a segurança dos visitantes e a qualidade das infra-estruturas serão determinantes para aumentar as chegadas internacionais e as receitas em divisas.

O sector também permite uma distribuição geográfica mais ampla dos benefícios, incluindo regiões rurais e comunidades próximas de parques, reservas naturais e património cultural.

Agricultura E Agro-Processamento Reúnem Vantagens Exportadoras

A agricultura sul-africana possui capacidade tecnológica, sistemas comerciais desenvolvidos e acesso a mercados internacionais.

O País é um dos principais produtores mundiais de citrinos e noz de macadâmia e beneficia da possibilidade de abastecer o hemisfério Norte durante períodos de menor produção local.

A expansão do agro-processamento pode aumentar o valor das exportações, reduzir perdas pós-colheita e criar empregos em zonas rurais.

A estratégia deverá combinar irrigação, armazenamento, cadeia de frio, processamento, certificação e logística para transformar ganhos de produção em maior acesso aos mercados.

A inclusão da agricultura e do agro-processamento amplia a parceria para actividades com maior capacidade de integrar pequenos produtores e empresas locais, reduzindo a concentração dos benefícios do crescimento nos grandes centros urbanos.

Indicadores Financeiros Melhoram A Confiança

A terceira fase é lançada num momento de melhoria de alguns indicadores macroeconómicos e financeiros.

A economia completou seis trimestres de crescimento positivo, enquanto as agências S&P e Fitch elevaram a classificação de risco soberano da África do Sul.

O rand valorizou aproximadamente 13% em 2025, o seu melhor desempenho em 16 anos, e a inflação diminuiu para 3,2%, o nível mais baixo em cerca de duas décadas.

O rendimento das obrigações do Estado a 10 anos caiu de 10,38% em Janeiro de 2025 para aproximadamente 8,1%. A descida reduz o custo de financiamento do Governo e influencia as taxas cobradas às empresas e famílias.

A África do Sul também saiu da lista cinzenta do Grupo de Acção Financeira Internacional, depois de adoptar reformas destinadas a combater o branqueamento de capitais e o financiamento ao terrorismo.

Estes desenvolvimentos ajudam a reduzir o prémio de risco e podem estimular o investimento. A transformação da confiança financeira em capacidade produtiva exige, porém, continuidade das reformas e aumento efectivo do investimento.

Crime E Corrupção Permanecem Na Agenda

A luta contra o crime organizado e a corrupção continuará integrada na parceria.

A terceira fase estabelece a meta de alcançar sete processos judiciais de elevado impacto até ao primeiro trimestre de 2027, apoiados por capacidade jurídica, forense e analítica do sector privado.

O crime económico aumenta os custos das empresas, reduz a eficácia do investimento público e compromete a prestação de serviços. Na logística, o roubo e vandalização de cabos e infra-estruturas afectam a circulação ferroviária. Na construção e mineração, redes criminosas interferem em contratos e operações.

A recuperação da confiança exige que as reformas administrativas sejam acompanhadas por investigações, responsabilização e melhoria do funcionamento do sistema de justiça.

Crescimento Sul-Africano Tem Alcance Regional

A terceira fase da parceria possui relevância para as restantes economias da África Austral.

A África do Sul é o principal mercado de origem das importações moçambicanas, um importante investidor regional e um centro financeiro, industrial e logístico para a SADC. O desempenho da sua economia influencia o comércio, o turismo, as remessas, os fluxos de investimento e a procura de serviços nos países vizinhos.

A recuperação da mineração e da indústria sul-africanas pode aumentar a utilização dos corredores de Maputo e de Ressano Garcia, estimular o movimento portuário e criar oportunidades para empresas moçambicanas de logística, transporte e fornecimento.

Uma maior eficiência ferroviária e portuária na África do Sul poderá, ao mesmo tempo, aumentar a concorrência entre corredores regionais. Moçambique terá de continuar a melhorar custos, capacidade, previsibilidade e qualidade dos seus serviços logísticos para preservar as vantagens dos portos nacionais.

O crescimento do turismo sul-africano também pode ampliar os circuitos regionais, enquanto a expansão agrícola e agro-industrial cria oportunidades de integração e maior concorrência nos mercados da SADC.

A experiência da parceria oferece ainda uma referência sobre a coordenação entre o Estado e o sector privado. A passagem da gestão de crises para uma agenda conjunta de crescimento mostra a importância de definir prioridades, metas, responsabilidades e mecanismos de acompanhamento.

A África do Sul dispõe de escala industrial, mercados de capitais desenvolvidos e capacidade empresarial para sustentar a ambição. A concretização de um crescimento superior a 3% exigirá que os progressos na energia e logística se traduzam em novos projectos, maior produtividade, expansão das exportações e criação contínua de emprego.

Fonte: O Económico

- Advertisment -spot_img

Últimas Postagens

Linha Moçambique–Malawi Prepara Entrada Em Operação Comercial Ainda Este Mês

0
A linha de transporte de energia entre Moçambique e Malawi poderá entrar em operação comercial ainda durante o mês de Agosto, depois da conclusão dos principais trabalhos de construção e do início dos testes técnicos necessários para assegurar o funcionamento regular da infra-estrutura.
- Advertisment -spot_img