Por: Alfredo Júnior
O grupo sul-africano de telecomunicações MTN Group aprovou um programa de recompra de acções no valor de seis mil milhões de rands, equivalentes a cerca de 375 milhões de dólares, depois de registar uma subida de 21,3% nos lucros ajustados do primeiro semestre de 2026 e um forte crescimento da geração de caixa.
A decisão foi anunciada esta segunda-feira, 24 de Agosto, juntamente com os resultados financeiros relativos aos seis meses terminados em 30 de Junho. O director-executivo do grupo, Ralph Mupita, afirmou que o programa de recompra começaria imediatamente, reforçando a estratégia de remuneração dos accionistas numa fase de recuperação dos resultados do grupo.
O programa representa uma nova etapa de uma decisão já anunciada em Março, quando a MTN aprovou uma recompra de acções de até seis mil milhões de rands, a ser executada de forma gradual ao longo dos próximos três anos. Os resultados agora divulgados mostram que a empresa entrou no segundo semestre com maior capacidade financeira para avançar com o plano, apoiada pela melhoria da rentabilidade e pela geração de liquidez.
No primeiro semestre, o lucro ajustado por acção, uma das principais medidas utilizadas pelo mercado para avaliar o desempenho operacional do grupo, subiu para 793 cêntimos de rand, contra 654 cêntimos registados no mesmo período do ano anterior. A empresa atribuiu a evolução ao crescimento das receitas, à melhoria das margens e ao controlo dos custos.
As receitas de serviços cresceram 17,5% em termos de moeda constante, para 115,3 mil milhões de rands, enquanto o EBITDA aumentou 24,4%. A margem EBITDA atingiu 47,1%, contra 42,7% no primeiro semestre de 2025, traduzindo uma melhoria de 4,4 pontos percentuais em termos reportados. O fluxo de caixa livre para os accionistas cresceu 32,7%, um dos indicadores que sustentou a decisão de iniciar a recompra de acções.
O desempenho foi impulsionado sobretudo pelas operações africanas fora da África do Sul. A Nigéria, o maior mercado da MTN, registou um crescimento de 25,7% das receitas de serviços em moeda constante. O Gana apresentou uma subida de 32,3%, enquanto as operações na África Oriental e Austral e na África Francófona também contribuíram para a expansão do grupo. Na África do Sul, por outro lado, as receitas de serviços cresceram apenas 1,5%, evidenciando um mercado doméstico mais pressionado.
O crescimento da utilização de dados e dos serviços financeiros digitais esteve entre os principais motores dos resultados. As receitas de dados do grupo aumentaram 29,2% em moeda constante, enquanto as receitas de fintech cresceram 13,3%, ou 19,3% quando excluídos determinados efeitos regulatórios. O valor das transacções financeiras processadas pela plataforma do grupo atingiu o equivalente a 330,5 mil milhões de dólares.
Apesar da melhoria dos resultados ajustados, os números reportados revelam um quadro mais complexo. O lucro por acção reportado caiu 5,8%, afectado por uma imparidade não monetária de 3,9 mil milhões de rands relativa à participação de 49% da MTN na Irancell, operadora iraniana na qual o grupo detém uma participação.
A imparidade está associada ao ambiente económico no Irão, marcado pela hiperinflação e pela forte desvalorização da moeda local. A situação reforça igualmente a dificuldade da MTN em concluir a sua saída do Médio Oriente. O grupo pretende abandonar o mercado iraniano, mas o processo continua condicionado pelas sanções norte-americanas, que limitam a movimentação de capitais e impediram a repatriação de cerca de 880 milhões de rands em dividendos, segundo Ralph Mupita. As perdas cambiais no Sudão do Sul também pesaram sobre os resultados reportados.
A recompra de acções ocorre num momento em que a administração procura demonstrar confiança na capacidade financeira e nas perspectivas do grupo. Neste tipo de operação, uma empresa utiliza recursos próprios para readquirir parte das suas acções no mercado, reduzindo o número de títulos em circulação. Em determinadas circunstâncias, a medida pode aumentar o retorno por acção dos investidores e sinalizar que a administração considera que possui recursos suficientes para financiar as operações e, simultaneamente, remunerar os accionistas.
Para a MTN, a decisão é também significativa porque surge depois de um período de forte volatilidade nos seus principais mercados. Em 2024 e parte de 2025, o grupo enfrentou dificuldades associadas à desvalorização de moedas africanas, inflação e custos financeiros, particularmente na Nigéria, uma das suas maiores operações.
Os resultados do primeiro semestre sugerem agora uma recuperação operacional mais robusta, embora os riscos externos permaneçam. O grupo continua exposto à volatilidade cambial, à inflação e à instabilidade política e regulatória em vários mercados africanos. A própria operação no Irão permanece uma fonte de incerteza, enquanto a transacção envolvendo as torres de telecomunicações da IHS Towers ainda depende de etapas regulatórias.
Ainda assim, a combinação entre crescimento das receitas, melhoria das margens e aumento da geração de caixa permitiu à administração avançar com uma decisão que o mercado tende a interpretar como um sinal de confiança. Após o anúncio, as acções da MTN negociadas em Joanesburgo chegaram a subir 4,61% nas primeiras horas da sessão.
A empresa, que opera em 19 mercados e serve mais de 317 milhões de clientes, entra assim no segundo semestre com uma dupla prioridade: manter o crescimento nas suas principais operações africanas e transformar a recuperação financeira num retorno mais directo para os accionistas. O início efectivo da recompra de acções, anunciado para esta segunda-feira, será um dos primeiros testes dessa estratégia.





