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Petróleo Interrompe Duas Semanas De Ganhos Apesar Do Agravamento Das Tensões Com O Irão

Os preços do petróleo encaminham-se para a primeira queda semanal em três semanas, num sinal de que a recuperação parcial dos fluxos de exportação do Golfo está, por agora, a exercer maior influência sobre o mercado do que o agravamento das tensões entre os Estados Unidos e o Irão.

Na sessão desta sexta-feira, 28 de Agosto, os futuros do Brent recuaram US$0,60, ou 0,67%, para US$89,10 por barril. O West Texas Intermediate (WTI) perdeu US$0,64, equivalentes a 0,77%, para US$82,89 por barril.

Segundo a Reuters, o Brent deverá encerrar a semana com uma desvalorização de 5,3%, enquanto o WTI deverá acumular uma queda de 4,3%. O movimento interrompe uma sequência de duas semanas de ganhos e evidencia uma redução do prémio de risco incorporado nos preços.

A correcção semanal não significa que o mercado tenha ultrapassado o risco geopolítico. O Brent permanece próximo da marca de US$90, um nível ainda elevado para as economias importadoras, enquanto as relações entre Washington e Teerão continuam sem uma solução diplomática visível.

O que mudou foi a percepção sobre a capacidade dos produtores da região de manter uma parte crescente das exportações em circulação, apesar do conflito e dos riscos associados ao transporte marítimo.

Exportações Do Golfo Recuperam Parte Das Perdas

O Goldman Sachs estima que as exportações totais recentes do Golfo se situem entre 15 e 16 milhões de barris por dia. O volume permanece entre sete e oito milhões de barris diários abaixo dos níveis anteriores à guerra, mas já supera em cinco a seis milhões o mínimo observado em Março.

Os números indicam que, no ponto mais baixo da crise, as exportações terão recuado para cerca de nove a dez milhões de barris por dia. A recuperação posterior diminuiu o risco de uma escassez imediata, embora o fornecimento continue substancialmente inferior à capacidade normal da região.

Analistas do ING, citados pela Reuters, observaram que existem sinais crescentes de maior circulação de petróleo através do Estreito de Ormuz. À medida que o conflito prossegue, produtores, armadores e operadores logísticos estão a adaptar-se às novas condições e a ganhar maior capacidade para navegar naquele corredor.

A adaptação pode incluir alterações de rotas e horários, reforço da segurança, coordenação com as autoridades marítimas e maior recurso a mecanismos de cobertura do risco. Estas medidas não eliminam os custos adicionais, mas permitem conservar uma parte importante dos fluxos comerciais.

A evolução demonstra que os mercados petrolíferos respondem não apenas à existência de tensões, mas sobretudo ao seu impacto efectivo sobre os volumes disponíveis. Quando o risco geopolítico não se converte numa interrupção crescente da oferta, parte do prémio incorporado nos preços tende a desaparecer.

Bloqueio Diplomático Mantém Risco Elevado

A queda semanal ocorre apesar da deterioração das perspectivas de uma aproximação entre os Estados Unidos e o Irão.

Uma informação avançada pelo Wall Street Journal, citando pessoas conhecedoras do processo, indicou que a Administração do Presidente Donald Trump comunicou repetidamente aos mediadores que não pretende regressar aos termos do memorando de entendimento assinado com o Irão em Junho.

A posição norte-americana dificulta as tentativas de outros países de reaproximar as partes e retomar as negociações. Washington declarou igualmente que não se encontra em conversações com Teerão, apesar das iniciativas diplomáticas conduzidas por terceiros.

No início da semana, os Estados Unidos anunciaram um novo pacote de medidas contra o Irão, apresentado pela Administração norte-americana como o mais severo até agora. Teerão classificou as sanções como um acto hostil e desumano e argumentou que estas perderam eficácia.

O endurecimento das medidas pode afectar a comercialização do petróleo iraniano, os pagamentos internacionais, os seguros marítimos e as relações com compradores e intermediários. O efeito sobre a oferta mundial dependerá, porém, da capacidade de aplicação das sanções e da resposta dos países que mantêm relações comerciais com o Irão.

A ausência de diálogo prolonga a incerteza. Qualquer novo incidente envolvendo instalações petrolíferas, navios ou infra-estruturas de transporte poderá voltar a elevar rapidamente os preços, sobretudo porque a recuperação recente das exportações ainda não repôs os volumes anteriores ao conflito.

Mercado Distingue Risco Político De Ruptura Física

A descida de 5,3% do Brent ao longo da semana mostra que os operadores estão a distinguir o agravamento das declarações políticas de uma deterioração efectiva do abastecimento.

O conflito e as sanções justificam a manutenção de um prémio de risco, mas a recuperação das exportações reduz a probabilidade de uma falta imediata de petróleo no mercado. Esta diferença explica por que razão os preços podem cair mesmo quando o ambiente diplomático se torna mais adverso.

A oferta disponível continua, no entanto, abaixo dos níveis normais. Entre sete e oito milhões de barris diários permanecem fora do mercado em comparação com o período anterior à guerra, segundo os cálculos do Goldman Sachs. Trata-se de uma redução suficiente para manter os preços sensíveis a qualquer perturbação adicional.

A evolução das próximas semanas dependerá da continuidade dos fluxos marítimos, da capacidade de adaptação dos produtores, do cumprimento das sanções e da procura das principais economias consumidoras. A disponibilidade de reservas comerciais e estratégicas também poderá influenciar a resposta do mercado a novos incidentes.

Rússia E Reino Unido Acrescentam Incerteza

O risco geopolítico não se encontra limitado ao Médio Oriente. Moscovo advertiu que poderá atingir alvos militares britânicos dentro e fora da Ucrânia, em resposta aos ataques de Kyiv contra território russo com mísseis de longo alcance fornecidos pelo Reino Unido.

Donald Trump declarou, contudo, que o Presidente russo, Vladimir Putin, não atacará um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte. O Presidente norte-americano também desvalorizou informações segundo as quais responsáveis dos serviços de informações dos Estados Unidos teriam advertido autoridades russas contra uma acção dessa natureza.

A escalada verbal aumenta a incerteza sobre a segurança europeia e pode afectar o mercado energético através das exportações russas, das sanções, dos transportes marítimos e dos custos de seguro.

A simultaneidade das tensões no Médio Oriente e na Europa deixa o mercado exposto a movimentos bruscos. A actual descida dos preços reflecte a melhoria dos fluxos físicos do Golfo, mas não constitui uma normalização do quadro geopolítico.

Brent Próximo De US$90 Continua Elevado Para Importadores

Para países importadores de combustíveis, a queda semanal poderá proporcionar algum alívio caso se mantenha e seja transmitida aos preços dos produtos refinados. Contudo, o Brent próximo de US$90 por barril continua a representar um custo significativo para as balanças comerciais e para as empresas dependentes de transporte e geração térmica.

Em Moçambique, o impacto não é automático. Os preços internos dos combustíveis dependem da cotação internacional dos produtos refinados, do câmbio entre o Metical e o dólar, dos custos de transporte, armazenamento e distribuição, da estrutura fiscal e dos períodos de referência utilizados no mecanismo de fixação.

Uma descida do petróleo pode reduzir gradualmente a factura de importação, mas uma depreciação cambial ou o aumento dos custos logísticos pode absorver parte desse benefício. Da mesma forma, a persistência do Brent em níveis elevados continua a transmitir riscos aos custos de transporte, produção agrícola, construção e distribuição de mercadorias.

Para os projectos de gás natural e outros investimentos energéticos, preços elevados podem favorecer receitas e decisões de investimento. Em contrapartida, a volatilidade geopolítica aumenta os custos de financiamento, seguro e logística, exigindo maior prudência na avaliação dos projectos.

O balanço da semana mostra, assim, um mercado com mais petróleo disponível, mas ainda distante da normalidade. A recuperação parcial dos fluxos retirou força aos preços, enquanto o bloqueio diplomático, as sanções e as tensões militares mantêm aberta a possibilidade de novas oscilações.

Fonte: O Económico

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