InícioRevistaEconomiaComércio De US$458,6 Milhões Coloca Investimento No Centro Da Relação Moçambique–Vietname

Comércio De US$458,6 Milhões Coloca Investimento No Centro Da Relação Moçambique–Vietname

As trocas comerciais geraram um excedente de US$242,9 milhões para Moçambique em 2024, mas mais de 90% das exportações concentraram-se no carvão e na castanha de caju. Governo propõe avançar para produção de arroz, processamento de caju, agro-indústria, tecnologia, energia e logística.

O Governo pretende transformar a relação comercial de US$458,6 milhões entre Moçambique e o Vietname numa parceria com maior investimento produtivo, transferência de tecnologia, processamento local e participação de empresas dos dois países.

A perspectiva foi apresentada pelo Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, durante a cerimónia comemorativa do 81.º aniversário do Dia Nacional da República Socialista do Vietname, realizada a 27 de Agosto, em Maputo.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística citados pelo governante, Moçambique exportou bens avaliados em US$350,7 milhões para o Vietname em 2024 e importou aproximadamente US$107,9 milhões, obtendo um excedente comercial de US$242,9 milhões.

O saldo favorável mostra a importância do mercado vietnamita para as exportações moçambicanas. Contudo, a estrutura das trocas permanece concentrada: mais de 90% das vendas ao Vietname corresponderam ao carvão mineral e à castanha de caju, enquanto o arroz representou a maior parcela das importações.

Para Salim Valá, o próximo ciclo da relação deve converter o volume comercial em maior valor acrescentado, investimento, participação das pequenas e médias empresas e ligações entre os sectores privados.

Excedente Comercial Mantém Forte Dependência De Dois Produtos

Moçambique vende ao Vietname mais do triplo do valor que importa daquele mercado. Esta relação produz divisas e um saldo comercial positivo, mas a elevada concentração limita os efeitos sobre a diversificação económica.

O carvão é exportado com processamento reduzido e encontra-se sujeito às oscilações dos preços internacionais, à procura energética e às políticas de descarbonização. A castanha de caju em bruto segue para unidades industriais vietnamitas, onde é processada, embalada e comercializada com maior valor.

O Vietname funciona, deste modo, simultaneamente como comprador de matérias-primas moçambicanas e fornecedor de bens alimentares. A estrutura oferece ganhos comerciais imediatos, mas conserva a maior parte da transformação industrial fora de Moçambique.

A concentração também torna as exportações vulneráveis a alterações em apenas duas cadeias. Uma redução da procura, uma queda das cotações ou dificuldades de produção e transporte pode afectar significativamente o valor total vendido.

A diversificação exige a introdução de novos produtos e o aumento do conteúdo industrial dos bens já comercializados. Caju processado, alimentos, produtos pesqueiros, madeira transformada e outros bens agrícolas podem ampliar a presença moçambicana no mercado vietnamita e asiático.

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p style="margin-top: 0in;text-align: justify;background-image: initial;background-position: initial;background-size: initial;background-repeat: initial;background-attachment: initial">Os Correios da África do Sul (SAPO) perderam 9,2 mil milhões de rands em valor accionista em três anos e enfrentam agora a falência.

Arroz Pode Passar De Importação A Parceria Produtiva

O arroz foi apresentado pelo Ministro como uma das oportunidades mais concretas para alterar a natureza da relação económica.

Moçambique mobiliza recursos cambiais para importar o cereal, incluindo do Vietname, apesar de possuir terra, água e condições agro-ecológicas para aumentar a produção interna.

A proposta do Governo consiste em transformar parte desta relação comercial numa parceria de investimento produtivo em Moçambique, juntando empresas vietnamitas, produtores nacionais, centros de investigação e instituições financeiras.

O investimento poderá abranger sementes, sistemas de irrigação, mecanização, assistência técnica, armazenagem, unidades de descasque e processamento, logística e acesso aos mercados.

A experiência vietnamita possui relevância porque o país asiático desenvolveu uma cadeia de arroz com elevada produtividade, capacidade de transformação e presença expressiva no comércio mundial.

A produção em Moçambique poderá substituir parte das importações, reduzir a saída de divisas e gerar rendimento nas zonas rurais. Para alcançar escala, os projectos precisarão de resolver limitações relacionadas com financiamento, regularidade da água, qualidade das sementes, extensão agrária e ligação dos produtores às unidades de processamento.

Além do arroz, a cooperação agrícola já inclui investigação e iniciativas relacionadas com batata-doce, soja e hortícolas. Salim Valá defendeu a evolução para uma agenda de agricultura climaticamente inteligente, mecanização e agro-processamento.

Caju Precisa De Conservar Mais Valor Em Moçambique

O Vietname constitui um dos mercados mais importantes para a castanha de caju moçambicana, mas grande parte do produto é exportada sem processamento.

A industrialização local permitiria conservar uma parcela maior do valor criado pela cadeia. A castanha processada gera maior receita por unidade, emprego industrial, procura por embalagens, serviços de qualidade, transporte e comercialização.

O Ministro afirmou que a ambição de Moçambique deve ultrapassar a venda do produto em bruto e incluir processamento, melhoria da qualidade, desenvolvimento de competências industriais e criação de bens com maior valor acrescentado.

O Vietname pode contribuir com tecnologia, equipamentos, conhecimento de mercado e experiência industrial. Moçambique oferece matéria-prima, produtores e acesso a outros mercados da África Austral.

Uma parceria equilibrada poderá envolver investimento vietnamita em unidades de processamento instaladas junto das zonas produtoras, formação de trabalhadores e contratos de fornecimento com produtores moçambicanos.

O resultado económico dependerá da capacidade de as fábricas operarem regularmente e receberem matéria-prima suficiente. A concorrência entre exportação em bruto e processamento nacional deverá ser gerida de forma a manter incentivos para produtores e investidores.

Movitel Demonstra Escala Possível Do Investimento

A presença da Viettel através da Movitel foi apresentada como a principal referência de investimento vietnamita em Moçambique.

Segundo Salim Valá, o investimento acumulado supera US$600 milhões. A operação contribuiu para expandir a cobertura de telecomunicações, promover a inclusão digital, criar emprego e ligar comunidades.

A experiência mostra que empresas vietnamitas podem implementar investimentos de grande escala e longo prazo no mercado moçambicano, incluindo em sectores que exigem infra-estruturas, capacidade técnica e operação territorial extensa.

O Governo pretende atrair novas parcerias desta natureza para agro-indústria, pescas, aquacultura, energia, indústria transformadora, construção, transportes e logística.

Tecnologias de informação, serviços financeiros digitais, turismo e formação técnico-profissional também integram as áreas identificadas.

Moçambique oferece recursos, posição no Oceano Índico e acesso aos mercados da África Austral. O Vietname possui capacidade industrial, experiência exportadora, tecnologia e empresas habituadas a operar em mercados internacionais.

A transformação destas complementaridades em investimentos exigirá projectos específicos, estudos de viabilidade, financiamento, facilitação institucional e parceiros empresariais identificados.

Empresas Devem Olhar Para O Vietname Como Plataforma Asiática

O Governo convidou as empresas vietnamitas a conhecerem as oportunidades existentes em Moçambique e a estabelecerem parcerias de longo prazo com o empresariado nacional.

Salim Valá encorajou igualmente as empresas moçambicanas a deixarem de olhar para o Vietname apenas como destino de matérias-primas.

O mercado vietnamita pode funcionar como comprador de produtos processados, fonte de equipamentos e tecnologia e ponto de entrada para cadeias de valor asiáticas.

Esta mudança exige informação comercial, certificação, qualidade, escala e conhecimento das preferências dos consumidores. As empresas moçambicanas precisarão de identificar produtos competitivos e estabelecer relações com distribuidores, processadores e investidores vietnamitas.

Missões empresariais, feiras, plataformas de informação e mecanismos de financiamento ao comércio podem aproximar os sectores privados. A diplomacia económica terá de converter os acordos políticos em contactos empresariais e decisões de investimento.

A participação de pequenas e médias empresas será particularmente importante. Sem mecanismos de integração de fornecedores, os novos projectos podem gerar operações de grande dimensão, mas relações limitadas com o tecido empresarial nacional.

Experiência Do Doi Moi Oferece Referências Para Moçambique

O Governo considera a transformação económica vietnamita uma experiência relevante para Moçambique.

As reformas do Doi Moi combinaram planeamento de longo prazo, estabilidade, abertura ao investimento, industrialização orientada para exportações, valorização do capital humano e incorporação de tecnologia.

O Vietname passou de uma economia de baixo rendimento e afectada pela guerra para uma base produtiva diversificada, competitiva e integrada nas cadeias globais de valor.

Moçambique pretende igualmente transformar o seu potencial agrícola, energético, mineral, logístico e humano em produção, emprego e rendimento. A Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044 e o Programa Quinquenal do Governo 2025–2029 colocam a diversificação, industrialização, emprego juvenil e infra-estruturas entre as prioridades.

A experiência vietnamita não constitui um modelo transferível de forma automática. As diferenças de dimensão populacional, capacidade institucional, localização, trajectória histórica e estrutura produtiva exigem soluções adaptadas.

Alguns princípios, contudo, possuem aplicação mais ampla: estabilidade das políticas, investimento em competências, disciplina de execução, desenvolvimento de fornecedores e utilização do investimento estrangeiro para adquirir capacidade produtiva.

Cooperação Surge Num Cenário Macroeconómico Mais Difícil

A procura por novos investimentos ocorre num momento em que a economia moçambicana apresenta uma recuperação moderada e ainda frágil.

Segundo o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, o cenário actualizado do Cenário Fiscal de Médio Prazo 2027–2029 reviu a previsão de crescimento económico para 2026 de 2,8% para 0,6%.

A inflação projectada aumentou de 3,6% para 8,7%, devido a choques internos e externos, desaceleração da actividade e aumento das pressões sobre os preços.

Neste quadro, o Governo está a implementar o Plano de Recuperação e Crescimento Económico 2025–2029 e o Programa Integrado de Investimentos 2026–2030, articulados com a Estratégia Nacional de Desenvolvimento, o Programa Quinquenal do Governo e o Plano Económico e Social e Orçamento do Estado.

A mobilização de investimento vietnamita pode contribuir para a retoma se for direccionada para sectores produtivos, criação de emprego e substituição competitiva de importações.

Educação Deve Acompanhar Expansão Dos Negócios

Moçambique e o Vietname celebraram, em Janeiro de 2026, um acordo que amplia a cooperação em educação e formação.

O desenvolvimento de capital humano pode apoiar novas parcerias empresariais, sobretudo em agricultura, engenharia, tecnologia, indústria, energia e logística.

Estudantes e profissionais formados no Vietname podem funcionar como intermediários técnicos e culturais, facilitando a comunicação entre empresas e instituições.

A formação deve ser ligada às necessidades concretas dos investimentos. Programas associados a projectos empresariais, equipamentos e tecnologias específicos tendem a produzir maior impacto do que iniciativas sem ligação directa ao mercado de trabalho.

Depois de mais de cinco décadas de relações diplomáticas, Moçambique e o Vietname possuem confiança política, comércio significativo e um investimento de referência nas telecomunicações.

A próxima etapa proposta pelo Governo procura acrescentar produção a esta base. O objectivo é que o arroz importado dê lugar também a investimento agrícola, que a castanha em bruto seja acompanhada por processamento e que a experiência da Movitel seja replicada noutros sectores.

O excedente comercial de US$242,9 milhões constitui um ponto de partida favorável. A mudança estrutural ocorrerá quando a relação bilateral gerar uma carteira mais diversificada de produtos, investimentos, empresas e empregos em Moçambique.

Fonte: O Económico

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