Resumo
O Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB) está a implementar uma estratégia abrangente em Moçambique, para além do financiamento de projetos públicos, focando-se nos fatores estruturais que afetam a competitividade e a transformação económica. Com uma carteira ativa de 1,6 mil milhões de dólares, o AfDB é um parceiro crucial do país, investindo em projetos soberanos e no setor privado. A estratégia do banco visa melhorar infraestruturas económicas, o ambiente de negócios e a capacidade empresarial nacional. O AfDB encara as infraestruturas como ativos económicos que impulsionam a competitividade, não apenas como obras públicas isoladas. Investimentos em estradas, energia e logística têm sido fundamentais para a produtividade e competitividade em Moçambique, com destaque para o Corredor de Nacala. O banco considera essencial a eletrificação produtiva para impulsionar a atividade industrial e a economia do país, apoiando projetos de energia para sustentar o desenvolvimento industrial e a integração regional.
Com uma carteira activa avaliada em cerca de 1,6 mil milhões de dólares, o banco posiciona-se actualmente como um dos mais relevantes parceiros multilaterais do país, distribuindo os seus investimentos entre projectos soberanos e operações direccionadas ao sector privado.
Segundo Rómulo Correia, Representante Residente do AfDB em Moçambique, a lógica central da estratégia do banco consiste em actuar simultaneamente sobre três dimensões: infra-estruturas económicas, ambiente de negócios e capacidade empresarial nacional.
Infra-Estruturas São Tratadas Como Activos Económicos E Não Apenas Obras Públicas
Ao longo da entrevista, Rómulo Correia insistiu que infra-estruturas devem ser encaradas como mecanismos de redução de custos económicos e aumento de competitividade — e não apenas como investimentos físicos isolados.
“Infra-estruturas não são apenas obras físicas; são instrumentos de integração económica”, afirmou.
A visão do AfDB aproxima-se das abordagens modernas de desenvolvimento económico, segundo as quais estradas, portos, energia e logística funcionam como plataformas de produtividade para empresas, agricultura, comércio e indústria.
O banco já financiou mais de 1.200 quilómetros de estradas em Moçambique, incluindo investimentos considerados estratégicos para integração regional e escoamento produtivo.
O caso do Corredor de Nacala surge como um dos exemplos mais relevantes apresentados pelo AfDB. Segundo Rómulo Correia, os investimentos realizados permitiram reduzir em cerca de 30% os tempos e custos logísticos associados ao corredor.
Este tipo de redução possui implicações macroeconómicas profundas: aumenta competitividade exportadora, reduz custos de importação, melhora eficiência empresarial e torna sectores produtivos mais atractivos ao investimento.
Electrificação Produtiva Passa A Ser Prioridade Estratégica
O AfDB considera igualmente que Moçambique precisa ultrapassar a lógica limitada da electrificação meramente social e avançar para uma visão de electrificação produtiva.
“Não basta electrificar. É preciso garantir energia estável para produzir e industrializar”, afirmou Rómulo Correia.
A formulação revela preocupação com um dos principais constrangimentos estruturais da economia moçambicana: a dificuldade de garantir fornecimento energético estável e competitivo para actividade industrial.
Segundo o banco, a verdadeira transformação económica dependerá da capacidade do país criar uma base energética capaz de sustentar parques industriais, agro-processamento, mineração, PME’s e integração energética regional.
Neste contexto, o AfDB já apoiou mais de 600 quilómetros de linhas de transmissão eléctrica e contribuiu para a ligação de mais de 14 mil famílias chefiadas por mulheres à rede eléctrica nacional.
Blended Finance E Garantias Ganham Centralidade Num Mundo Com Menos Ajuda Pública
Outro aspecto particularmente relevante da estratégia do AfDB é a crescente aposta em instrumentos financeiros inovadores.
Segundo Rómulo Correia, a redução global da ajuda pública ao desenvolvimento obriga os países africanos a encontrar novas formas de mobilizar capital privado para investimentos estruturantes.
É neste contexto que instrumentos como blended finance, garantias parciais de crédito e PPP’s passam a desempenhar papel central.
O projecto hidroeléctrico de Pandancua foi apresentado como exemplo desta abordagem. O banco presta assessoria estratégica ao Governo para estruturar um modelo suficientemente “bancável” e atractivo para investidores privados internacionais.
Na prática, o AfDB procura reduzir percepção de risco, criar previsibilidade institucional e melhorar condições de financiamento de grandes projectos.
Percepção De Risco Africano Continua A Penalizar Investimento
Uma das reflexões mais críticas apresentadas por Rómulo Correia prende-se com o desfasamento entre risco real e percepção internacional de risco em África.
Segundo o responsável, o continente continua a enfrentar custos de financiamento desproporcionalmente elevados devido a avaliações externas muitas vezes desajustadas da realidade.
“África continua a pagar caro por uma percepção de risco muitas vezes desajustada da realidade”, afirmou.
A posição reforça o debate crescente sobre necessidade de instrumentos africanos de notação de crédito, produção própria de informação financeira e fortalecimento da arquitectura financeira continental.
PME’s São Vistas Como Elo Crítico Da Transformação Estrutural
Embora o AfDB financie grandes infra-estruturas, o banco insiste que a sustentabilidade do crescimento dependerá da capacidade de fortalecer o tecido empresarial nacional.
Neste contexto, programas como MoziWeb e Linkar procuram preparar PME’s moçambicanas para integrarem cadeias de fornecimento associadas aos grandes investimentos energéticos e industriais.
“O conteúdo local só terá impacto se as empresas nacionais forem preparadas para competir”, afirmou Rómulo Correia.
O banco procura assim responder a um dos maiores riscos do próximo ciclo económico: a possibilidade de os grandes investimentos funcionarem como enclaves pouco integrados à economia doméstica.
Na visão do AfDB, a verdadeira transformação estrutural dependerá menos da dimensão absoluta dos investimentos e mais da capacidade de criar ligações produtivas internas, cadeias de valor nacionais e empresas moçambicanas competitivas.
Fonte: O Económico






